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Siglas há muitas

Em 1976 iniciou-se o caminho para uma região autónoma. A mudança política nos Açores em 1996 foi, para muitos, uma lufada de ar fresco — um tempo em que surgia a expectativa de ambição e visão. Em 2020, alguns voltaram a acreditar que uma segunda vaga de mudança estaria iminente. Havia sinais de diálogo e determinação. Mas rapidamente percebemos que o diálogo serviu sobretudo para distribuir cargos e garantir estabilidades de faz de conta, enquanto a determinação ficou esquecida à soleira da porta.
O problema não é do PSD, do PS ou de qualquer outra força política. O problema está na liderança — na qualidade humana, ética e estratégica de quem assume a responsabilidade de governar e de quem se apresenta como alternativa. Esta é a discussão que os Açores precisam de ter: não uma discussão sobre siglas – siglas, há muitas! – Mas sobre pessoas, carácter e compromissos.
Os Açores — os nossos Açores, de Santa Maria ao Corvo — precisam de políticos que inspirem credibilidade, confiança e coragem. Precisam de líderes que falem com as pessoas, não apenas para elas. Precisam de líderes que fiquem com as pessoas, que as acompanhem, e não apenas passem por elas. Precisam de líderes que olhem para o futuro da região e não para a próxima nomeação.
Hoje, o que vemos é o contrário: líderes parcos em coragem, escassos em credibilidade e com medo constante do escrutínio público, faltando a debates televisivos e evitando ações públicas, mas impondo-se a tudo isso em tempo eleitoral. É também por isso que não se valida a rejeição do Plano e Orçamento para 2026 — porque essa rejeição abriria caminho a eleições, e ninguém, nem no Governo nem na oposição, está preparado para enfrentar a população.
Nunca como agora vimos tantos setores desalinhados com as opções do Governo, por estarmos perante uma evidente ausência de visão e de rumo. Mesmo com o referido “endividamento zero” — essencialmente por arrasto das políticas da República — continuamos a ser uma Autonomia de mão estendida. O investimento do PRR, a meses de terminar, provocou uma mudança estrutural na economia? Estima-se crescer em 2026(1,9%) menos do que em 2019(2,4%)!
Entretanto, alimentam-se mitos — urbanos e não urbanos — sobre a suposta negatividade de eleições antecipadas por prejudicarem a estabilidade governativa. Mas a verdade caminha noutro sentido: não se trata de estabilidade governativa ou da estabilidade dos Açores, mas sim do facto de que os atuais líderes não inspiram nas pessoas alternativas reais. A estabilidade governativa, por si só, não é sinónimo de bom caminho.
Os Açores merecem mais. Merecem líderes que não temam o escrutínio, que saibam representar as pessoas com dignidade e que tenham a coragem de romper com os ciclos de dependência, estagnação e conformismo. Até lá, continuaremos presos a esta política de sobrevivência — quando aquilo de que precisamos, verdadeiramente, é de uma política de futuro e não de política de slogan, com líderes com credibilidade, confiança e coragem.
Por: Sónia Nicolau

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