Edit Template

Sobre as presidenciais

Os debates já começaram e vão durar semanas. O desfile de candidatos começa a entrar-nos pela casa dentro. Alguns mais conhecidos, outros nem por isso. Cada um com a sua estratégia de aproximação ao povo. Outros, apenas a seguir a estratégia do partido. Outros, ainda, a ver no que é que dá. O objetivo é a segunda volta e depois logo se vê. Chegar ao momento decisivo é prova de vida para uns, a hipótese de chegar à presidência da República para outros. Não se governa a partir de Belém, mas o cargo, ainda assim, é muito mais do que aquilo que a rainha de Inglaterra consegue fazer.
As candidaturas à esquerda multiplicam-se e não é certo que cheguem todos ao mesmo destino. No fundo, grande parte delas está apenas a cumprir calendário. António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto vão a eleições para marcar uma posição partidária. No caso dos candidatos do PCP e do BE, o objetivo é subir a votação, depois do desastre das legislativas que lhes deixou as bancadas parlamentares completamente depenadas. No caso dos bloquistas, é ainda um dever da candidata para com o partido que liderou, antes de ser eleita eurodeputada. Quanto aos comunistas, é mais uma missão para demonstrar que a contenda não se faria sem a ação determinada de um dos seus. O candidato do Livre vê aqui um momento de afirmação da força do partido, que tem vindo a crescer, para além de se posicionar para o futuro, como alguém a ter em conta nas cogitações vindouras, quando for necessário discutir a liderança. Rui Tavares não dura para sempre, e até agora, à sua volta, só se vê um deserto.
Sobra António José Seguro, que partindo da esquerda moderada, e sendo por isso pouco recomendado pelos seus mais ferozes oponentes internos, para além de ser um tipo honesto, consegue ampliar o seu chamamento muito para além da circunscrição partidária. Foi líder num dos momentos mais difíceis da política contemporânea, quando teve de gerir, na oposição, um memorando de entendimento trazido pelos credores internacionais, chamados por um primeiro-ministro socialista. Fê-lo de cabeça erguida, de maneira frontal, dando a sua concordância, até onde pôde, ao líder do executivo à época. Os que quiseram passar uma esponja na bancarrota e nas suspeitas sobre José Sócrates nunca lhe perdoaram. E continuam por aí, endereçando o seu apoio – que, diga-se, vale pouco – a outros candidatos. A honestidade intelectual, a coerência e o sentido de Estado são definições que não são reconhecidas por toda a gente.
À direita, são também vários os candidatos, todos mais bem colocados para chegar ao momento decisivo. André Ventura e Marques Mendes devem consegui-lo, ou apenas um deles. Ambos têm o apoio dos partidos nos quais militam, mas as parecenças terminam aí. Apenas um consegue pensar para além da força partidária a que pertence, e apenas um tem a noção do que é ser a primeira figura do Estado. Apesar de ser politicamente comum dizer-se que o lugar faz a pessoa, não estamos a ver o país representado pela educação e pela descompostura de André Ventura. Segundo as projeções, será o candidato mais fácil de derrotar por qualquer um dos restantes candidatos que têm reais possibilidades de chegar à segunda volta. Será natural que, no momento da decisão, todas as forças políticas apelem ao voto no candidato oponente, mesmo que não seja o seu. E, neste caso muito real, tanto António José Seguro como Luís Marques Mendes podem vir a sair vencedores. O mesmo pode acontecer com Gouveia e Melo, mas terá de chegar ao momento definidor, passando para a segunda fase da eleição. E isso parece ser cada vez mais difícil.
Na mesma medida em que o único candidato sem filiação partidária tem vindo a perder gás, Cotrim de Figueiredo, o candidato liberal, o último que aqui faltava mencionar, tem vindo a crescer social e eleitoralmente. Ao contrário do antigo almirante, conhece bem o papel do mais alto magistrado da nação, tem um enorme poder de oratória e capacidade retórica, e tem presença de Estado. Deve conseguir congregar muito mais votos do que aqueles que o partido que ajudou a refundar granjeou, e pode ir buscar uma parte do eleitorado social-democrata e socialista. Aquela parte que, teoricamente, votaria em Pedro Passos Coelho ou se reveria num candidato mais socialista-liberal do que representa Seguro. Pode vir a ser a pedra no sapato que deixará Marques Mendes pendurado na primeira volta, a 18 de janeiro. Em sentido inverso, as ambições presidenciais de Gouveia e Melo vão-se esfumando. O recente apoio de José Sócrates à sua candidatura é o que de mais tóxico se conheceu por estes dias. E sem o apoio organizado por um partido político, pode muito bem hipotecar o seu futuro. O vácuo das suas intervenções também não ajuda, e a postura austera é pouco para quem não tem passado. Tem tudo para ficar pelo caminho. Bastará mais um ou dois empurrões.
Por: Fernando Marta

Edit Template
Notícias Recentes
Governo dos Açores anuncia reforço da conservação da floresta com pomar de espécies endémicas
Município de Angra do Heroísmo disponibiliza Agenda Conversacional com inteligência artificial
“Vários estudos científicos mostram que aprender através de jogos pode melhorar a aprendizagem, a motivação e o desenvolvimento dos alunos”, afirma Paulo Santos
Hospital CUF Açores anuncia reforço da proximidade com profissionais de saúde e população do Grupo Central
UAc acolhe workshop sobre clima espacial e os seus riscos para a Região
Notícia Anterior
Proxima Notícia

Copyright 2026 Correio dos Açores