Edit Template

Cabos Submarinos: A Decisão que Faltava e as Dúvidas que Ficam

O ano de 2025 termina com uma notícia “agridoce” para os Açores. Por um lado, o Governo da República decidiu finalmente assumir os custos da substituição do anel de cabos submarinos inter-ilhas dos Açores, por outro, optou pela elaboração de um novo estudo. O Executivo confirmou que entregará a concepção do projecto à IP-Telecom, tal como já havia acontecido em 2022 no âmbito do anel de cabos submarinos CAM (continente–Açores–Madeira).
Este volte-face é mais do que um simples acto administrativo. Representa a reversão clara de uma decisão profundamente injusta tomada pelo anterior Governo da República, liderado pelo PS, que em Outubro de 2023 se desresponsabilizou de forma escandalosa, transferindo para a Região Autónoma dos Açores o custo e a obrigação de substituir o anel inter-ilhas. Foi, à época, um gesto político incompreensível e indefensável, que felizmente não resistiu ao escrutínio e ao bom senso.
Contudo, o novo estudo, cuja conclusão está prevista para Março de 2027, significa que o futuro anel dos Açores apenas será concluído em 2030, não havendo mais atrasos. Isto levanta uma preocupação incontornável: é imprescindível garantir que o actual sistema inter-ilhas se mantém plenamente operacional até essa data. Em 2030 o sistema contará com 32 anos, excedendo em sete anos a sua vida útil, o que aumenta consideravelmente o risco de avarias e interrupções. Um cenário sem paralelo que, por si só, deveria alarmar os decisores políticos. A margem de erro é mínima; a responsabilidade, máxima.
Perante isto será incontornável o aumento os custos de operação e manutenção do actual sistema inter-ilhas, pelo reforço dos compromissos contratuais com empresas especializadas de modo a assegurar em tempo útil a logística e os inventários inerente a reparações marítimas.
A determinação de elaborar um novo estudo, agora atribuído à IP-Telecom, é tanto mais difícil de compreender quanto muitos dos seus objectivos coincidem com os de um estudo concluído em Outubro de 2024 pela ANACOM, realizado a pedido do próprio Governo da República e com a participação do Governo Regional dos Açores. Ainda assim, esse primeiro estudo foi classificado como segredo de Estado, o que levanta mais perguntas do que respostas. Que tipo de informação contém que poderia comprometer a segurança nacional? Que razões justificam tamanha opacidade? Num tema de impacto estrutural para o Arquipélago, a transparência não é um luxo: é uma obrigação democrática.
Estamos perante uma correcção importante, mas também perante mais um atraso. Se, por um lado, a República corrige e reassume as suas verdadeiras responsabilidades, por outro introduz novos riscos de um potencial “apagão” na conectividade digital do Arquipélago dos Açores.
Essa não é a única correcção necessária. É igualmente urgente reverter a decisão política, tecnicamente não sustentada, de transferir a principal amarração do anel CAM de São Miguel para a ilha Terceira. A solução mais racional, menos arriscada e financeiramente mais eficiente continua a ser manter em São Miguel a principal ligação Açores – continente, ficando a ilha Terceira responsável pelo troço Açores – Madeira.
Não se trata de um capricho da ilha de São Miguel, mas de uma decisão técnica e estratégica para os próximos 30 anos. Sendo a ilha responsável por mais de 60% do tráfego e detentora do maior dinamismo económico da Região, é nela que deve permanecer o principal nó de telecomunicações dos Açores. Acresce que, a actual crise sismo-vulcânica em curso na ilha Terceira, sem sinais de abrandamento, bem pelo contrário, aumenta riscos de avarias nos segmentos submersos e pode comprometer redundâncias essenciais num sistema crítico.
A actual localização da principal amarração permite reduzir custos, encurtar prazos e mitiga riscos desnecessários. Os actuais 25 anos de elevada qualidade de serviço comprovam, na prática, que a melhor solução é manter a principal amarração em São Miguel, em vez de a transferir para qualquer outra ilha dos Açores.
O Governo da República corrigiu uma injustiça. Mas a defesa dos interesses dos Açores exige continuidade, coerência e coragem para corrigir não apenas erros, mas também ambiguidades e silêncios.
Importa igualmente que a República explique a recente decisão de reprogramar o cronograma de investimento do anel CAM. De um compromisso, em 2022, de investimento inicial de 155 milhões de euros, passou-se para a distribuição desse montante ao longo de 25 anos, até 2052, uma mudança que introduz riscos financeiros que antes não existiam, uma vez que o financiamento total estava assegurado por fundos nacionais e europeus. Porquê transformar um compromisso sólido numa promessa a perder de vista no tempo?
A Região Autónoma dos Açores não pode ficar refém de indecisões técnicas, hesitações motivadas por conveniência de política partidária do momento ou segredos inexplicáveis. A conectividade digital do Arquipélago é demasiado importante, quer seja para a economia, a segurança e coesão nacional. Não pode ser tratada com menos do que total rigor e responsabilidade. Não é compatível com adiamentos, sejam eles políticos, técnicos ou financeiros.
Por: João Quental Mota Vieira

Edit Template
Notícias Recentes
Governo dos Açores anuncia reforço da conservação da floresta com pomar de espécies endémicas
Município de Angra do Heroísmo disponibiliza Agenda Conversacional com inteligência artificial
“Vários estudos científicos mostram que aprender através de jogos pode melhorar a aprendizagem, a motivação e o desenvolvimento dos alunos”, afirma Paulo Santos
Hospital CUF Açores anuncia reforço da proximidade com profissionais de saúde e população do Grupo Central
UAc acolhe workshop sobre clima espacial e os seus riscos para a Região
Notícia Anterior
Proxima Notícia

Copyright 2026 Correio dos Açores