Edit Template

Tempo de espera para a primeira consulta de dor crónica no HDES excede orientações internacionais

O Simpósio Internacional de Dor Crónica reuniu na Universidade dos Açores especialistas e profissionais de saúde para debater formas de melhorar o acompanhamento dos utentes, reforçar o acesso atempado a tratamentos e promover acções de literacia em saúde. Durante o evento foi também apresentado o desenvolvimento do protocolo entre o Hospital do Divino Espírito Santo (HDES) e a Associação de Doentes de Dor Crónica dos Açores. Entre os principais obstáculos identificados destacam-se o aumento da procura por cuidados especializados, a falta de recursos humanos e listas de espera já se prolongam por vários meses.
A Associação de Doentes de Dor Crónica dos Açores (ADDCA) organizou, na Universidade dos Açores, o Simpósio Internacional de Dor Crónica.
O encontro teve como objectivo debater as melhores formas de apoiar quem vive com dor crónica, promover o acesso atempado a tratamentos através da articulação entre equipas multidisciplinares e planear acções de literacia em saúde na área da dor.
Foram discutidos temas como a indicação de técnicas invasivas hospitalares, a aplicação prática da ciência, a gestão da dor pelos médicos de Medicina Geral e Familiar, bem como a importância da prevenção e das suas complicações através de hábitos de vida saudáveis, nutrição, actividade física regular, controlo emocional e saúde mental. O evento culminará na elaboração de um relatório a enviar à Secretaria Regional da Saúde.
Em declarações à imprensa, o Presidente da ADDCA, João Ribeira, sublinhou que muitas pessoas continuam focadas numa abordagem exclusivamente curativa, procurando “combater” a dor crónica em vez de a prevenir.
“A dor crónica não se combate, mas sim trata-se e acompanha-se. Para se prevenir a dor crónica, o primeiro passo que de consciencializar o próprio doente que deve ser o centro dessa prevenção”.
Ribeira referiu que existem diversas ferramentas ao dispor das pessoas, tais como apoio psicossocial, fisioterapia, massagens, meditação, técnicas de respiração, yoga, ginástica, dança ou expressão dramática , sendo “são tudo formas que o cérebro tem de descarregar essa componente de manutenção da dor crónica”.
“A pessoa tem que perceber que deve agir em prol da sua prevenção da dor. O doente tem que passar a ser proactivo na prevenção da sua dor, não pode estar sempre à espera que venha o médico. Não funciona assim.
“Normalmente começa por algum tipo de alteração ou lesão, que depois se cronifica em termos de sinal cerebral de dor. Então o que nós queremos é que isso não chegue a acontecer, mas acontecendo e a pessoa sofrendo com a dor crónica realmente tem que perceber que está na sua mão e que tem ferramentas ao seu dispor para poder o prevenir”.
O Presidente da ADDCA revelou ainda que a associação acompanha actualmente cerca de 90 pessoas, existindo inscritos de várias ilhas. Recordou que, conforme referido no simpósio, uma em cada três pessoas sofre de dor crónica.
“Se nós pensarmos, um terço da população açoriana são 70 mil pessoas, talvez. Nós temos 90 associados. Portanto, há tudo por fazer em termos de chegarmos às pessoas e das pessoas chegarem até nós”.
Acrescentou que existe ainda uma percepção errada de que a associação funciona como um Centro de Dia. Sublinhou que essa não é a sua missão e que, embora exista um espaço de convívio, 85% da actividade da ADDCA consiste na disponibilização de informação, psicoeducação e actividade específicas de prevenção e apoio à pessoa com dor crónica.
O principal objetivo da ADDCA, para além do estabelecimento de protocolos, é expandir a sua mensagem e alargar o número de pessoas abrangidas.
“Estamos a reunir os recursos que existem e que estão à disposição das pessoas, para localmente poderem de alguma forma também melhorar a sua situação (…) Se pensarmos em algumas ilhas mais pequenas, os recursos são relativamente reduzidos”, finalizou.
Um dos intervenientes da manhã de ontem foi Tiago do Nascimento Cabral, Director do Serviço de Anestesiologia do Hospital do Divino Espírito Santo (HDES). Explicou que, desde o incêndio ocorrido no ano passado no HDES e com a construção do hospital modular, surgiu a necessidade de duplicar recursos humanos e criar redundância na área cirúrgica, especialmente na urgência. Esta situação levantou importantes questões na gestão do serviço e também no acompanhamento da dor crónica.
Perante este cenário, o Director destacou que as listas de espera cirúrgicas têm aumentado e que, quando existem doentes com dor crónica à espera de consulta e outros à espera de cirurgia, torna-se difícil conciliar todas as prioridades. Ainda assim, salientou que “a defesa do doente tem de ser sempre a nossa primeira preocupação”.

Tempo médio de lista de espera
para primeira consulta de dor crónica no HDES é de 4 meses

Tiago do Nascimento Cabral revelou que, de acordo com dados actualizados esta semana, o tempo médio de espera para a primeira consulta de dor crónica é de cerca de quatro meses, acrescentando que “se falarmos de cirurgias, essas listas podem ser superiores”.
Também interveniente no Simpósio, Maria Teresa Flor de Lima, Vice-Presidente da ADDCA, afirmou que as propostas de listas de espera para consulta apresentadas pela Direcção Regional da Saúde há alguns anos são “um bocadinho alargadas” e que vai “contra as regras e as orientações internacionais”.
“Há doentes que não podem esperar um dia. Como há doentes que não podem esperar mais de uma semana. No máximo, podemos ir até aos dois meses para aqueles casos que estão mais ou menos controlados, é o que está indicado”. Flor de Lima sublinhou que “não podemos esticar listas de espera para lá dos dois meses”.
No que toca aos recursos humanos, a Vice-presidente alertou que existe cada vez mais a necessidade de profissionais com formação específica em dor, nomeadamente médicos com pós-graduação em Medicina da Dor. Todavia, acrescentou que a Associação Portuguesa vai ainda mais longe ao defender a obtenção de competência em Medicina da Dor pela Ordem dos Médicos, sublinhando que isto “não é fácil para quem está nos Açores” pois as frequências nos respectivos cursos demoram um ano ou dois, e que “além da falta de recursos, também isso é uma limitação”.
Sobre a evolução das técnicas, explicou que se tem vindo a passar de métodos mais invasivos para técnicas minimamente invasivas. Referiu que hoje já se fala em cirurgias com menos complicações e mais simples, e que existem abordagens como a neuroestimulação ou estimulação periférica, permitindo estimular nervos superficiais através de dispositivos externos.
Por outro lado, destacou a importância de uma indicação criteriosa: “É muito importante perceber que estas técnicas não são miraculosas. Temos que juntar estas técnicas com a parte do apoio psicossocial”.
No que toca às boas notícias, o Director do Serviço de Anestesiologia destacou o processo em curso, financiado pelo PRR, para aquisição de um ecógrafo dedicado sobretudo à dor crónica. Isto permitirá aumentar a facilidade e o volume de técnicas ecoguiadas, constituindo uma mais-valia para o tratamento dos doentes e podendo ainda funcionar como factor de atractividade e valorização para novos profissionais interessados na prática multidisciplinar de intervenção.

Protocolo entre ADDCA e HDES
com “objectivo único de melhoria
da qualidade de vida dos doentes”

Um dos assuntos mencionados no evento foi o protocolo de articulação entre a ADDCA e o HDES, que já se encontra em análise e foi entregue ao Conselho de Administração do hospital. O presidente da Associação destacou que o protocolo que está a ser desenvolvido com o HDES tem precisamente esse propósito: permitir que o próprio hospital encaminhe os doentes para a ADDCA e contribuir para reforçar a credibilidade da intervenção da Associação.
Tiago do Nascimento Cabral explicou que este protocolo já está proposto e que, em breve, será agendada uma reunião com todas as entidades envolvidas para se avançar com a concretização prática desta colaboração. Sublinhou que a intenção é que o acordo funcione de forma bilateral e complementar, permitindo que a associação ofereça aquilo que o hospital não consegue prestar, e vice-versa, sempre com “um objectivo único de melhoria da qualidade de vida dos doentes com dor crónica”.
O protocolo prevê, por parte da ADDCA, a prestação de apoio psicológico, actividade de estimulação cognitiva e motora, actividade de relaxamento, iniciativas culturais e de ocupação de tempos livres, disponibilização de informação relevante e Psico-educação dirigida a utentes, familiares e cuidadores.
Da parte do HDES, inclui-se o apoio na orientação do tratamento farmacológico para utentes sem médico de família, a realização de tratamentos invasivos e hospitalares, a organização conjunta de workshops e sessões de esclarecimento para profissionais de saúde, doentes, cuidadores e cidadãos, o encaminhamento de pessoas com dor crónica para a ADDCA, o apoio à divulgação das actividade da associação nas várias especialidades, a definição de critérios de referenciação e a colaboração/divulgação nos workshops que venham a ser organizados em conjunto.
No dia dedicado ao Simpósio Internacional de Dor Crónica participaram, além do presidente e da vice-presidente da ADDCA, o Director Regional da Saúde, Pedro Paes, o eurodeputado Paulo do Nascimento Cabral e a vice-reitora da Universidade dos Açores, Susana Caldeira.
Realizou-se ainda um painel sobre a Dor na Região Autónoma dos Açores, seguido de um painel sobre a Ciência da Dor, com intervenções de João Ribeira, enquanto neuropsicólogo, da investigadora do ISCTE Sónia Bernardes e de Valentina Malafoglia, investigadora da ISAL Fondazione, em Itália.
Decorreu também um painel dedicado à Dor na Medicina Familiar e outro sobre a Prevenção da Dor, com profissionais de saúde da região e vários testemunhos de utentes.

José Henrique Andrade

Edit Template
Notícias Recentes
Espaço Canoa inaugurado em Rabo de Peixe para valorizar a identidade marítima e dinamizar a economia local
Homem de 30 anos detido na Lagoa por tentativa de homicídio
Assistentes operacionais da Escola Roberto Ivens dizem basta ao banco de horas e exigem pagamento de serviços extracurriculares
TAP vendida à Lufthansa com obrigatoriedade de continuar a prestar serviço público às Regiões Autónomas
Câmara de Ponta Delgada aprova voto de pesar pelo falecimento de Jorge Delmar
Notícia Anterior
Proxima Notícia

Copyright 2026 Correio dos Açores