O escritor João Pedro Porto lançou o seu novo romance, “A Multiplicação dos Milagres”, uma obra que une a sua escrita às pinturas de Urbano, autor de 22 trabalhos inspirados nos pálios de Siena e de Veneza. No livro, o leitor é conduzido à vida de Berto Brizi, um editor turinense radicado em Milão que, mergulhado entre o hedonismo e a preguiça, cria três génios literários fictícios. João Pedro Porto espera que os leitores “encontrem beleza, mesmo no horripilante (…) algo entre a sombra e a luz e que “se deixem ampliar por histórias e lendas”.
Correio dos Açores – Este romance concretiza um sonho antigo de unir a sua escrita às pinturas de Urbano. Como nasceu essa vontade e de que forma o processo colaborativo influenciou a narrativa?
Conheço o trabalho do Urbano desde criança, e sempre me viram siderado para as suas obras. O percurso da sua arte desenvolve-se, creio, sempre como um livro, começado pela reflexão sobre a existência, feito crescer pela experiência, e disposto assente no seu tempo. Lá estão todos os grande temas da existência humana. E isso interessa-me desde sempre. Quanto era pequeno demais para as prateleiras a meio das estantes, e em muitas ocasiões em casa da Professora Gilberta Rocha, sentava-me nos degraus a olhar uma outra escada num quadro do Urbano. Uma escada sem chão nem destino, simplesmente uma escada. Até hoje vejo-a como a mais apta metáfora para uma vida. O meu editor, o Sr. Ernesto Resendes ofereceu-me uma gravura, muitos anos mais tarde, em que se vê uma figura feminina em plantio, sementando a primavera. A alegoria continuou-me, então. A obra do Urbano ocupa-me o imaginário, e é natural que sempre me tenha transbordado para a escrita.
O que surgiu primeiro: a história de “A Multiplicação dos Milagres” ou a ideia de integrar trabalhos visuais inspirados no Pálio de Siena e no de Veneza?
É importante dizer-se que este livro não foi uma colaboração, no sentido em que as obras do Urbano já existiam, e não influenciaram a escrita. Encontrámo-nos depois. Após os seus estudos em Londres, e na senda de Goethe, o Urbano fez a sua peregrinação a Itália, e dessa viagem brotou todo um corpo artístico original que rivaliza com os esboços venezianos e as aguarelas de Joseph Mallord William Turner. De Signac a Monet, do Tintoretto ao Renoir, os grandes lá estiveram. O Urbano, um deles. Anos depois da sua grande peregrinação, e já depois deste romance estar escrito em duas versões, a portuguesa e a inglesa, e de ter sido aceite por algumas editoras em Inglaterra, eu e o Urbano encontrámo-nos em conversa e tema. Apercebemo-nos desta confluência feliz, e preferi trazer o livro para casa, para a editora do nosso grande amigo Ernesto Resendes, que completou, assim, a tríade necessária ao projecto.
Berto Brizi é um editor hedonista que inventa três génios literários e que depois é confrontado por eles. O que o fascinou nesta premissa?
Sou leitor de Italo Calvino desde que Urbano Bettencourt mo apresentou, ainda a tempo de me ser uma das maiores referências no mundo da ficção. Li depois Pirandello, e mais alguns autores maiores da ficção – e, quando o digo, refiro-me a escritores que preferiram inventar pessoas reais, lugares reais, tempos reais, mas inventados, e mais reais por isso. Parece um paradoxo, mas se a vida é ficção, também a ficção é vida. E, por muitas vezes, senão todas, confundem-se. Isso interessa-me na arte mais do que qualquer outra coisa. O acto criativo é precisamente isso. Assim que se cria, existe. E se existe, de que múltiplas maneiras existe? Berto Brizi vai descobri-lo no livro, para grande angústia sua. E para nosso grande prazer, espero.
Estes “três génios literários” representam algo na cultura contemporânea, no papel do editor, ou são sobretudo uma metáfora pessoal?
Estes três, esta trindade de grandes, verdadeiros mentirosos ou falsos reais, surgiu-me do mesmo modo como surgiu ao meu personagem principal. É claro que os três permitem montar narrativas e dinâmicas diferentes entre si. Quão depressa a invenção se torna cânone é, evidentemente, uma mensagem pertinente nestes dias de notícias falsas, em que a mentira tem o mesmo valor da verdade, talvez até mais.
De que forma a mentira e a verdade, temas centrais no romance, dialogam com o próprio acto de escrever ficção?
É, se o quisermos, um diálogo directo. Ambas acabam por ser o mesmo cabelo da mesma trança, e cabe ao leitor destrinçá-las. Facto e verdade não são, como sabemos, o mesmo. Toda a nossa visão do mundo é própria, circunstancial, subjectiva, relativa, … Que tentemos encontrar visões comuns, e que partamos de universos internos coincidentes, seja em análise ou no estabelecimento de linhas humanistas globais, e que na arte encontremos um lugar de paralaxe, em que nos permitamos a ampliar as nossas visões com as visões dos outros, é algo que tem de sobreviver aos nossos tempos incertos. De resto, Paulo José Miranda, por exemplo, fez sair este ano um livro com o título “Máquinas de Ficção” (Editorial Caminho, 2025), composto por recensões literárias a livros e autores inexistentes. Helder Macedo, no seu livro “Tão Longo Amor tão Curta a Vida” (Editorial Presença, 2013), faz o seu principal, que recebe de um amigo uma história inverosímil, criar uma versão ficcional dessa história, em vez do novo romance que tinha iniciado. Italo Calvino inventa-nos cidades invisíveis, relatadas por Marco Polo ao grande Kan. Borges inventará tantas outras verdades. Todo este acto de escrever ficção é aquilo que de mais próximo teremos do verbo criar.
A história segue por uma Itália nunca nomeada, quase mítica. Porque escolheu este caminho em vez de identificar explicitamente o país?
Porque há coisas que transcendem os nomes que lhes damos. Sim, para mim o principio é a palavra, mas depois dela tudo se acrescenta como na imagem de Roma que nos dá Freud. Um acervo de tempos, cidades em cima de cidades, a cidade eterna. Há uma razão pela qual todos os ditos grandes fizeram peregrinações àquele país. É um verdadeiro concentrado humanista, de arte e de História. Se de um alambique pingasse a humanidade, caída ao mediterrâneo, faria aquela língua maior de terra.
Como descreveria a voz narrativa deste livro, em comparação com a dos seus romances anteriores?
Não me cabe ouvir a minha própria voz. Como a qualquer pessoa que se ouça, nunca vou ouvi-la como é na realidade. Se isso não é outra alegoria para o que temos aqui falado… Posso dizer que me é um livro particularmente querido, pois dedico-o à minha Mãe, que me apresentou a Itália numa grande viagem formativa, e já repetida por muitas, muitas vezes. Para mim, há um meridiano que passa em Londres, Paris e depois dobra em ligeiro ao oriente para passar pela “bota”, que se faz de regressos. Vivo aí mais do que em qualquer outro lado, especialmente em sonho lúcido, recordação, …
O que espera que os leitores encontrem neste livro que talvez não encontraram nos seus trabalhos anteriores?
Talvez uma luminosidade própria daquela geografia. Uma que incide sobre os prazeres de estar vivo, e os preços que a existência nos cobra por isso. Espero que os leitores encontrem beleza, mesmo no horripilante, como encontramos num Caravaggio, algo entre sombra e luz. E que se deixem ampliar por histórias, lendas, …, que este livro seja ele mesmo uma peregrinação goethiana, uma viagem, e um lugar de regressos.
José Henrique Andrade