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O que foi aquilo ali em baixo no Paraíso?

A Cova do Milho. Um bairro de casas velhas. Cheio delas. Pouco ou nada conhecia daquilo ali em baixo com casas por isso quis saber como era aquilo com casas. E com gente. Antes de ir à História dura e pura daquele sítio, quis conhecer a História dali como a contam alguns dos seus últimos moradores. Vai daí e falei com José da Silva. Vai daí e falei com o Carlos Santos. O Carlinhos Buraca (leia-se Biraca). Dois ‘pequenos’ para cima dos sessenta e alguns tremoços. Jogámos juntos à bola no nosso Ideal. Fomos a equipa que, a partir do mês de Dezembro não perdeu um jogo e ganhou tudo o que havia a ganhar. Como prémio e engodo para a época seguinte fomos jogar à bola à América e ao Canadá. Até 12 de Março, Mestre Gil jogou connosco. Nesse jogo, despediu-se. Ia tirar Educação Física ao Canadá. Se vos disser que Mestre Gil é o Professor Doutor José Carlos Teixeira, e que, afinal, acabou por tirar Geografia, não vão acreditar à primeira. Nem tão-pouco que o Roberto da Maia é o Roberto Rodrigues, o que tirou Direito, enquanto dava aulas. Hoje autor de obra publicada. O guardião das memórias da sua Maia. E o João Correia (aliás, João Moniz da Silva) que, enquanto dava aulas de Educação Física, tirava Direito e jogava connosco? E que eu próprio tenha jogado nessa equipa? Nos estágios, enquanto os meus companheiros se divertiam nas cartas, eu ‘marrava’ para as frequências de História da Universidade dos Açores. A intensa alegria que vivi ao ganharmos três troféus nessa época de 1977/78, não ficou atrás da que senti ao tirar a Licenciatura, o Mestrado e o Doutoramento. De certa maneira, até foi maior. Era a festa de uma terra inteira. Até muitos ‘tarraços,’ os rivais do Águia, entraram na festa. A festa conheceu três Sábados. Sábado 21 de Maio, festejou-se o Torneio da Primavera; Sábado 3 de Junho, festejou-se o campeonato; Sábado 29 de Julho, festejou-se a Taça de São Miguel. A festa de 29 de Julho foi a mais rija das três, pois ganháramos ao Clube Desportivo Santa Clara. Ninguém chamou a polícia. Apesar do alarido que fizemos. Coincidiu com a festa da Conceição. Onde nasci. Na segunda-feira, apanhámos o avião para Boston. O José e o Carlinhos eram ‘barras’ à baliza. Fora do campo, pelavam-se por pregar partidas. De piadas. Dentro do campo, nada disso. Não havia brincadeiras. Grande equipa. Isso foi tudo em 1977/78. A Cova do Milho, por aquilo que lhes ia ouvindo da boca deles, fora um dos ‘grandes’ viveiros do Ideal. O António Buraca, tio do Carlinhos, foi guarda-redes do Ideal Novo desde a década de quarenta até quase finais da de cinquenta. O Olivério Buraca, pai do Carlinhos, foi defesa do Ideal até morrer. Ao contrário da rocha – o Curral -, um todo nada à frente, aí para a banda do mar, onde eram quase todos vermelhos do Águia, a Cova do Milho era quase toda verde do Ideal. Pondo fim a esta arenga inicial para aquecer, vou às Histórias que os dois me foram contando.
O José da Silva Cagão (ficava ruim que nem uma barata quando o tratavam assim) nasceu ali em baixo na Cova do Milho em Janeiro de 1952. O pai era peixeiro. Ia de cestos às costas a pé à Lagoa. A Rabo de Peixe. Onde houvesse peixe lá ia ele. Depois vendia o peixe pelas ruas da Ribeira Grande. José tem um irmão acima dele, o Fernando. Que fez o Ultramar e lá deixou uma perna. Num acidente estúpido numa Unimog. Distraído. Na brincadeira. A perna ficou entalada entre dois Unimogs. Na Guiné? Em Angola? Deram-lhe o apelido de Dragão. E um irmão mais novo. Não me lembro do nome dele. Fernando e este irmão mais novo foram durante anos contínuos do Ideal. José está reformado de uma loja de Ferragens. A casa onde nasceu ficava quase em cima, do lado direito de quem sobe, antes de chegar ao torreão actual. Havia casas por ali abaixo. Brincavam descalços à bola e ao pião naquele outeiro. De terra. Com covas. E pedras. Havia por ali uma figueira e eles atiravam-lhe pedras para fazer cair os figos. Havia fome. Tomavam banho na ribeira e no poço da Helena. Depois dessa primeira casa, como a casa estivesse a cair aos bocados, a família foi morar para uma outra casa perto do moinho junto à ponte Grande (a dos Oito Arcos). A casa tinha um quintalinho voltado para a ribeira. A seguir a essa casa, foram morar de renda para a casa por cima da loja do Sr. Pontes. Na Praça. Isso quando a Câmara estava a acabar com as casas dali. Depois dali, para uma casa na rua da Praia. José mora ainda hoje por ali perto na travessa da rua da Praça.
Carlinhos Buraca nasceu também na Cova do Milho. Nasceu no dia 1 de Outubro de 1957 na casa da avó Dilia da Conceição China e do avô Manuel dos Santos Buraca. A parteira foi a mulher do Cebola barbeiro. É o mais velho de três irmãos. O irmão a seguir a ele, que também nasceu na Cova do Milho, e também jogou no Ideal, a central, é o Fernando, aqui conhecido por Fernandinho Buraca, que é três a quatro anos mais novo do que Carlinhos. Vive em Toronto. Canadá. A irmã já não nasceu ali. Vive na Ribeira Grande. Na Matriz. O apelido Buraca vem do lado do avô Manuel porque a avó era dos China. A casa da avó Dília era a terceira a contar das antigas escadas (que substituíram o antigo outeiro de terra batida) que desciam do Teatro à Cova do Milho. A primeira era a casa do João Luciano, ficava mesmo defronte de uma fonte de água, a seguir, era a da avó Dília. Era uma casa muito pequenina. De pedra solta. Um quarto e uma cozinha. De chão de terra batida. Coziam pão no forno. Até se secava roupa à boca do forno. Tinha uma lâmpada eléctrica fraquinha que o Morgado (Estrela Rego) pusera. De resto, era o candeeiro a petróleo. As necessidades eram lá para fora. Na estrumeira. Num quintalinho pequeno que dava para a ribeira. Defronte da Dília morava uma mulher que fazia cordas e capacheiras. Saiu de lá antes da avó. Foi morar para os lados do Bandejo.
Olivério Santos, o pai do Carlinhos, o Olivério ‘Buraca,’ tinha trinta e três anos quando morreu no dia 9 de Setembro de 1962. Trabalhava à quinzena para a Câmara. Na altura, partia pedra na ribeira junto ao moinho da ponte grande (Oito Arcos). A Câmara estava a construir os alicerces da obra do Paraíso Infantil. Viera a casa comer. Deu-lhe um enfarte. E morreu. Deixou a mulher grávida da Nivéria. Se tivesse nascido rapaz, seria Olivério. A esposa de Olivério, Alcida da Costa Correia, era filha do galocheiro Manuel Pedro de Santa Luzia – Rua Estêvão Alves. É irmã de Manuel Pedro. Há uma diferença de dez anos entre eles. Manuel jogou no Ideal. Nunca vi ninguém cabecear como ele. Cem, duzentos, trezentos, e não parava, contra a parede da sala do ‘Quino’ no clube da rua Direita (Rua El-rei D. Carlos I). A bola não caía. Jogador fino. Foi carcereiro da Câmara antes de embarcar para a América. Antes disso, fora caiador da Câmara. Depois de terem morado em casa da tia Noémia, mulher do tio António Buraca, Alcida comprou uma casa na rua Vigário Matias. A casa número 36. Viveu viúva e faleceu em 2010, 47 anos depois de Olivério.
O Tio António Buraca, irmão de Olivério, diz que nasceu na primeira oitava do Natal do ano de 1919. O Governo diz que nasceu a 3 de Janeiro de 1920. Era analfabeto, fugia à escola com o Edmundo ‘Garrida’ para ir jogar à bola e tomar banho para a Areia (Monte Verde). Era uma maneira de não ir ao mato à lenha. Foi lenhador, batedor de calçada e cabouqueiro. Trabalhou na calçada da estrada da Lagoa do Fogo. Teve o seu maior desgosto em 1956. Estava-se a organizar o Futebol Clube da Ribeira Grande (junção do Ideal e do Águia, que nunca devia ter acabado). Como era analfabeto, não pôde ser inscrito. E não jogou. O desgosto foi tal que jurou a si próprio não voltar a pôr os pés no campo da bola. Jogara no Campo das Reses e mais o irmão inaugurara contra o Águia em Junho de 1952 o Campo Novo. Foi promessa de político. Cedo voltou ao campo. Estava sempre lá caído. O seu poiso favorito no campo era atrás das redes junto à entrada principal do campo. Não dizia palavra. Só olhava. Olhos brilhando de alegria. Olhos baços de tristeza. De resto, parado. Uma estátua. Sempre de cigarro de mortalha no canto da boca. Morreu a 6 de Setembro de 2007, aos 87 anos. Noémia, que era Dias Branco, da Ribeira Seca, faleceu a 1 de Julho de 2016. Com 92 anos. O irmão Olivério jogou no Ideal e no Ribeira Grande. E quando esteve na tropa jogou em Ponta Delgada no Clube União Micaelense.
António Buraca teve de Noémia, que era da Ribeira Seca, a Beatriz, a Dília (está no Canadá), a Espírito Santo, o Humberto (por essa ordem) e o Ricardo que mora na Ribeirinha (muito mais novo do que os irmãos). Beatriz, a mais velha dos irmãos de António e de Olivério, casou nova, casou com o Ernesto Ambrósio. Foram ainda sem filhos de barco para a América. Para Plymouth. António dos Santos Buraca era dez anos mais velho do que o irmão Olivério. E nove anos mais novo do que a irmã Beatriz. Beatriz morreu com mais de 90 anos em Plymouth. Escrevia à família mas desde que saiu da Ribeira Grande nunca mais voltou à Ribeira Grande. Quando o sobrinho Carlinhos foi com o Ideal à América, no verão de 1978, o José Morgado, irmão do cunhado Duarte Morgado (casado com Nivéria), chegou a ir com ele a Plymouth à procura da tia. Com grande desgosto, não a encontrou. Nem notícias dela. Há coisa de uns cinco anos, Carlinhos foi surpreendido pela visita à Ribeira Grande de umas filhas da tia. Já tinham mais de 70 anos.
Carlinhos havia de ter, diz-me, para aí uns quatro para cinco anos quando se mudou lá para cima. Quer dizer para a rua do Saco. Quer dizer para a rua António Augusto da Mota Moniz. Nome do Presidente que transformou a Cova do Milho em Parque Infantil. Melhor: Paraíso Infantil. A avó foi a última a sair da Cova do Milho. De primeiro, ainda morou numa garagem que pertencia ao genro Ernesto Brasídio. Depois, comprou uma casa na rua do Saco com um quintal que quase chegava ao moinho junto à ponte dos Oito Arcos. Na rua do Saco, ao lado da casa dela era a casa da Filomena. Ao lado da Filomena era a da Noémia. A nora. Quem não tinha quintal era o Arrenegado. E o pai do Eduardo Carvoeiro. O maior era o do polícia Baptista (pai de Abílio e de Liberal Baptista). Ia mesmo quase à ribeira. Os quintais de jeito, os maiores da Cova do Milho pertenciam às casas da rua do Saco. Havia lá milho. Pouco, mas havia. Batata. Couves. Dília cegou aos 82 anos. Foi então morar com a nora Noémia. Morreu aos 92 anos, no dia 14 de Maio de 1985. O marido falecera dez anos antes, com 78 anos, a 15 de Abril de 1965. Dois anos depois do filho Olivério.
O avô, Manuel dos Santos, era vinhateiro do Senhor Morgado. Havia sido antes peixeiro. A Dília era uma mulher pequenina. Era a Presidente da Junta da Cova do Milho. Diz o neto a brincar. Criou o Sr. Morgado no Adro das Freiras. O pai do Dr. Estrela Rego. Depois foi para Ponta Delgada. Levava à segunda e à sexta a roupa lavada do Dr. Estrela Rego. Lavava a roupa na ribeira. Com anil. Punha-a a secar em cima das pedras. Lençóis ficavam brancos. Chegava à Ribeira Grande na camioneta da tarde e o neto em pulgas já sabia que ela trazia pão e manteiga branca. Comiam sempre pão de milho com manteiga amarela. Até aos 13 anos era só pão de milho. Aquela consolava. Uma sardinha de Lisboa dava para três. A gente ia pela escada do Teatro comprar à loja do João Pascoal. A gente tomava banho na ribeira e no poço da Helena. Minha mãe não gostava. Minha avó virava-se para minha mãe: Alcida, o rapaz está aqui comigo! Era com calções Adidas marca incoiro que a gente tomava banho. Pega-se a rir. Jogava-se à bola. Onde já não havia casas. A gente escorregava pela erva abaixo até à ribeira. E do outro lado da ribeira também. Aquilo ali não tinha muro. Na rua do Saco, todos os Domingos, o Sr. Agostinho Feio, o bisavô da Rafaela, que trabalhava com o Dr. Jorge, mandava-me fazer sempre o mesmo mandado: comprar dois litros de vinho. A Sr.ª Cabral, na rua da levada, rua do Arco, hoje Eduíno Rocha, também me pedia mandados. Nunca parava. No Verão, às quartas, já com o Parque Infantil, as meninas do Asilo iam das 4 às 7 brincar no Paraíso. A gente atirava pedras. Queria aquilo só para a gente. Despedindo-me dos dois ex-companheiros de equipa, vou agora tentar mergulhar o mais fundo no fundão do Poço do Paraíso. Tentar ver se vejo mais sobre a História daquele local. Mais sobre os seus inícios. Mais sobre os nomes do local. Mais. Se possível. Sem obrigar as provas a dizer o que desejaria que dissessem? Prometo.
Por: Mário Moura

Ponte do Paraíso,
Cidade da Ribeira Grande

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