Num tempo em que a comunicação rápida se apoia em slogans apelativos, tornou-se quase habitual encontrar campanhas publicitárias que anunciam produtos “sem químicos”, como se isso fosse sinónimo de pureza, saúde ou segurança. A expressão, apesar de eficaz do ponto de vista comercial, é profundamente enganadora. O grande problema é que reforça uma perceção errada e muito difundida: a ideia de que os “químicos” são substâncias artificiais, perigosas e inevitavelmente nocivas. Mas a ciência diz outra coisa — e é justamente essa distância entre o discurso popular e o conhecimento científico que vale a pena esclarecer.
A palavra “químico” tem uma história longa. Na sua origem, designava as substâncias estudadas pela Química, a ciência que investiga a composição e as transformações da matéria. Porém, ao longo do século XX, o termo começou a ganhar outro significado na linguagem comum, sobretudo a partir da explosão industrial do pós-guerra. Com a produção massiva de pesticidas, fertilizantes sintéticos, solventes e plásticos, surgiram também incidentes ambientais e consequentes problemas de saúde. Estes estavam associados ao mau uso, à falta de regulação ou ao desconhecimento dos efeitos a longo prazo. Exemplos incluem: a contaminação por PCBs (policlorobifenilos), usados em transformadores elétricos e mais tarde identificados como poluentes persistentes. Também a acumulação de metais pesados como o mercúrio, que esteve na origem do desastre de Minamata no Japão. Os efeitos neurológicos da tinta com chumbo em ambientes domésticos e os ftalatos usados para flexibilizar plásticos, cuja exposição prolongada motivou estudos e restrições regulamentadas. Estes exemplos ilustram como a ausência inicial de controlo e avaliação de risco permitiu a utilização de substâncias cujo impacto só se tornou claro muitos anos depois.
Face a estes e outros exemplos, a imprensa e o discurso político passaram, então, a usar a palavra “químicos” como sinónimo de “produtos artificiais perigosos”. A correção científica perdeu-se e, com ela, a noção de que tudo, absolutamente tudo, é feito de químicos.
A realidade é muito mais simples do que muitas vezes imaginamos: qualquer substância com composição definida é um químico. Não existe vida, nem matéria, sem química. A água que bebemos, H₂O, é um químico. O oxigénio que respiramos, O₂, é um químico. O sal que usamos na cozinha (NaCl), o açúcar da fruta (frutose, C6H12O6), a cafeína do café (C8H10N4O2), o ferro do nosso sangue (Fe2+ e Fe3+), o cálcio dos nossos ossos e dentes (Ca3(PO4)2), o ácido lático no iogurte (C3H6O3), o dióxido de carbono que expiramos (CO2), o flúor na pasta de dentes (F-), a cicuta (C17H22O2), … tudo são químicos.
Até aquilo que consideramos “natural” é, inevitavelmente, química pura. Uma flor liberta centenas de compostos químicos cuja composição exata lhe confere um odor característico. Um morango contém dezenas de moléculas diferentes responsáveis pelo seu sabor inconfundível; um simples limão é composto por água, ácido cítrico, vitamina C, óleos essenciais e uma enorme variedade de compostos orgânicos. Todas estas substâncias são “químicos”.
O nosso corpo é um laboratório químico altamente sofisticado. A cada segundo, transforma o que comemos em energia, constrói proteínas a partir de aminoácidos, produz hormonas como a insulina, sintetiza neurotransmissores como a dopamina e regula níveis de colesterol e triglicerídeos (todos eles essenciais para a vida, desde que em equilíbrio). O cérebro é movido por reações químicas, os músculos contraem-se graças a processos químicos; até as emoções têm assinaturas químicas próprias.
Por isso, afirmar que algo é “sem químicos” é tão absurdo, do ponto de vista científico, como dizer que um objeto é “sem matéria”. Não é possível existir um alimento, um cosmético, uma planta, um sistema eletrónico ou um ser vivo que seja “livre de químicos”.
Mas se é assim, porque persiste a associação negativa? A resposta está na confluência de vários fatores.
Primeiro, o impacto real de alguns compostos mal utilizados. Casos como o inseticida DDT e o herbicida glifosato (C3H8NO5P), persistentes no ambiente e que marcaram a agricultura do século XX. As substâncias industriais como os clorofluorcarbonetos (CFCs), também persistentes no ambiente e que contribuem para a destruição da camada de ozono. Ou ainda o gás mostarda (C₄H₈Cl₂S) e o gás sarin (C₄H₁₀FO₂P) usados como armas. Todos contribuíram para instalar na memória coletiva a ideia de que os químicos são essencialmente disruptivos e perigosos. A controvérsia em torno de alguns químicos, não decorre necessariamente de falta de estudos, mas sim da complexidade inerente à avaliação de risco e da necessidade de equilibrar evidência científica, regulamentação e preocupações sociais.
Segundo fator, a sedução da palavra “natural”, que nos remete para uma sensação de segurança instintiva, mesmo quando a realidade não corresponde a essa intuição (a cicuta é natural e mata mesmo a baixa concentração enquanto o paracetamol é sintético e salva vidas). Quando falamos de químicos seguros, o mais importante não é o facto de algo ser natural ou sintético, mas sim a quantidade a que estamos expostos. Mesmo substâncias potentes tornam-se seguras quando usadas nas doses certas, e substâncias comuns podem ser prejudiciais quando ingeridas em excesso.
Por fim o terceiro fator, o marketing: “sem químicos” vende. E vende precisamente porque parece oferecer simplicidade num mundo percebido como complexo e artificial.
A ciência não nos diz que devemos evitar os químicos. Pelo contrário: ensina-nos a conhecê-los e a utilizá-los de forma responsável. A desinformação, essa sim, é perigosa — sobretudo quando conduz o público a rejeitar ferramentas essenciais para a saúde, a alimentação, a higiene ou o bem-estar. Talvez seja hora de reformularmos o discurso: não existem produtos “sem químicos”; existem produtos com químicos seguros, bem estudados e aprovados. E isso, sim, deveria ser motivo de confiança.
Da agricultura à eletrónica (sim, a eletrónica hoje em dia possui muitos compostos químicos como terras raras (La, Eu, Tb…) e semicondutores (Si, Ge…), dos detergentes aos materiais de construção, dos medicamentos às tintas, vivemos rodeados de químicos. Sem eles, regressaríamos a um mundo onde a vida era mais curta, mais difícil e muito menos segura. O que realmente importa não é a origem das substâncias, mas sim a sua segurança para o ambiente e seres vivos, a forma como são usadas e a robustez das regulamentações que controlam a sua produção e aplicação.
É legítimo querer químicos seguros. O importante é compreender que a segurança não depende de ser natural ou sintético, mas de ciência e boa regulamentação.
Por : Ana M. L. Seca