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Santa Maria, o princípio

A 17 de janeiro de 2008 foi inaugurada a Estação de Rastreio da ESA, pelas mãos de Mariano Gago e com o apoio institucional de Carlos César e José Contente. Esse momento marcou o primeiro passo para a construção do setor da economia do espaço nos Açores. Trata-se de um domínio altamente competitivo e que exige uma visão estratégica não passível de limitações de gabinetes governamentais.
Fui representante dos Açores na Associação NEREUS – Network of European Regions Using Space Technologies – entre 2009 e 2012, e nessa experiência tornou-se evidente a nossa incapacidade quando comparada com outras regiões europeias dotadas de visão, estratégia e poder de decisão bem definidos. A agilidade institucional que observei em Bruxelas contrastava profundamente com a rigidez de um setor que, nos Açores, estava então — como se pretende agora — dependente de uma Direção Regional sem capacidade executiva adequada às exigências do mercado espacial.
Na altura, não existia um quadro legislativo que permitisse atuar com rapidez e eficácia. Hoje, apesar de alguns avanços, continuamos sem verdadeira autonomia no setor espacial. As decisões continuam limitadas e dificilmente acompanham a dinâmica de um mercado que, então como agora, ultrapassa largamente a escala da economia local.
Nos Açores, em Santa Maria, temos algo que não se compra: a localização. Mas localização sem rumo é oportunidade perdida. Definida que está a estratégia, importa criar conhecimento e riqueza a partir deste potencial. Tal como acontece no setor do mar, continuamos “em órbita”, sem afirmar a nossa autonomia e transformar estas vantagens naturais em desenvolvimento efetivo para o território e para as pessoas.
Uma política espacial bem desenhada transforma visão em progresso e prepara a Região, em articulação com a política nacional, para os desafios e oportunidades. A estratégia definida cumpre estes princípios, importa uma governação clara e competente, suportada por um quadro regulatório moderno, simples e flexível, capaz de atrair investimento privado sediado nos Açores e fomentar conhecimento – porque não avançar com os preparatórios do curso de Engenharia Espacial na Universidade dos Açores?
Tudo o que é dispensável são entraves políticos e administrativos — especialmente quando alguns, enquanto deputados, menosprezaram com ironia o investimento espacial do Governo dos Açores. O setor espacial exige profissionalismo, competência e visão, não “politiquices”, nem mais burocracia.
Substituir a Estrutura de Missão dos Açores para o Espaço (EMA-Espaço) por uma Direção Regional é um erro estratégico e condicionará, com repercussões inatingíveis, o desenvolvimento deste sector.
A Região precisa de diversificar a sua economia, hoje dependente do turismo e da agricultura. Temos condições únicas para desenvolver dois pilares estratégicos: o mar e o espaço. O crescimento económico sustentável de áreas emergentes vai muito para além do local e não é compatível com amarras políticas e estruturas que travam a ação.

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