Celebra-se hoje o Dia Internacional dos Voluntários. Neste âmbito, o ‘Correio dos Açores’ esteve à conversa com Diana Pereira, gestora do “LIFE IP AZORES”. Esta iniciativa, que surgiu em 2019, tem como objectivo assegurar uma gestão integrada, eficaz e sustentável das áreas protegidas dos Açores, através da recuperação de habitats e espécies mais vulneráveis. A responsável afirma que o voluntariado é um dos pilares que sustentam o sucesso do projecto. Desde a sua fundação que já existiram mais de 60 acções de voluntariado, mobilizando aproximadamente 1300 pessoas.
Correio dos Açores – Qual é o objectivo do projecto “LIFE IP AZORES”?
Diana Pereira (Gestora do “LIFE IP AZORES”) – O “LIFE IP AZORES” é, antes de mais, uma ferramenta essencial para a concretização do Quadro de Acção Prioritária da Rede Natura 2000 nos Açores. Coordenado pela Secretaria Regional do Ambiente e Acção Climática, tem como objectivo central garantir uma gestão integrada, eficaz e sustentável das áreas protegidas do arquipélago, promovendo a recuperação dos habitats e das espécies mais vulneráveis, tanto em meio terreste como marinho, em conformidade com a Directiva Habitats e a Directiva Aves.
Através da sua implementação, pretende-se melhorar o estado de conservação de 100% dos ambientes e de pelo menos metade das espécies que actualmente se encontram em situação desfavorável. Para alcançar este compromisso, a iniciativa mobiliza fundos complementares, uma rede alargada de parceiros e a participação activa da sociedade, assegurando que os benefícios produzidos se prolonguem muito além da duração formal do plano.
Em última análise, visa deixar um legado duradouro para a biodiversidade açoriana, reforçando a resiliência dos ecossistemas face aos impactos das alterações climáticas e contribuindo para o cumprimento de metas estabelecidas pela União Europeia (UE), como a Estratégia da Biodiversidade 2030, o Regulamento de Espécies Exóticas Invasoras da UE e mais recentemente a Lei de Restauro da Natureza.
O projecto está em execução há quanto tempo? Pretende continuar?
É um projecto de grande escala e o primeiro integrado e aprovado em Portugal, co-financiado em 60% pela Comissão Europeia através do Programa LIFE. Representa um investimento total de 19,1 milhões de euros dedicados à preservação da natureza dos Açores. A sua execução iniciou em 2019 e prolonga-se até 2027, acrescidos de cinco anos adicionais de acompanhamento e controlo de resultados, conforme previsto para todos os projectos LIFE.
Para além da coordenação assegurada pela Secretaria Regional do Ambiente e Acção Climática, contamos com quatro parceiros fundamentais: a Direcção Regional do Ambiente e Acção Climática, a Direcção Regional de Políticas Marítimas, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves e a Fundación Canaria Reserva Mundial de la Biosfera La Palma. Esta rede de apoios garante uma abordagem multidisciplinar e integrada, essencial para a concretização eficaz dos objectivos definidos.
Quanto à continuidade, ela é não apenas desejável, mas indispensável. A Secretaria Regional do Ambiente e Acção Climática pretende deixar bases sólidas de conservação, equipas técnicas e operacionais capacitadas e uma estrutura de trabalho que permita manter, ampliar e replicar as acções iniciadas. É importante reconhecer que os desafios relacionados com a conservação da natureza e o restauro dos ecossistemas não terminam em 2027, e queremos assegurar que a Região está preparada para enfrentá-los com conhecimento, experiência e capacidade instalada no terreno.
Em que medida é que o voluntariado é fundamental para o sucesso da iniciativa?
O voluntariado é um dos pilares que sustentam o sucesso do LIFE IP AZORES NATURA. Para além de reforçar as equipas técnicas no terreno, os voluntários têm um papel decisivo na continuidade dos trabalhos de campo.
Mas a sua importância vai muito além da vertente operacional, aproxima a comunidade dos valores naturais do arquipélago, promove a ciência cidadã e contribui para ampliar o alcance das mensagens e dos resultados. Cada pessoa que participa torna-se embaixadora do património natural açoriano, ajudando a construir uma cultura de responsabilidade ambiental e participação activa.
A liderança política também reconhece este valor, o Secretário Regional do Ambiente e Acção Climática, Alonso Miguel, tem sublinhado a relevância do envolvimento da sociedade civil como condição indispensável para garantir que o trabalho iniciado perdura no tempo. O voluntariado, nesse sentido, não é apenas um complemento, é uma força motora para a mudança, capaz de assegurar que a manutenção da natureza nos Açores é uma missão partilhada e contínua.
Que actividades é que o projecto já desenvolveu este ano em conjunto com os voluntários?
Ao longo deste ano, desenvolveu-se várias acções com o apoio indispensável dos mesmos. Destacam-se, em particular, as iniciativas de remoção de espécies exóticas invasoras e a plantação de espécies endémicas, essenciais para a recuperação e reforço dos habitats naturais. Em diversas intervenções, eles também participaram na monitorização das áreas restauradas, contribuindo para o acompanhamento científico da evolução dos ecossistemas.
A estas actividades junta-se igualmente o envolvimento no programa SOS Cagarro, uma das maiores campanhas de voluntariado ambiental dos Açores, na qual centenas de participantes colaboram no salvamento de cagarros juvenis durante o período de queda. Esta participação reforça o compromisso com a protecção não só dos habitats, mas também dos seres mais emblemáticos da Região.
As tarefas atribuídas variam consoante o perfil, formação e objectivos de cada um, permitindo adaptar as operações às suas competências e garantir uma experiência útil, eficaz e enriquecedora. Esta flexibilidade valoriza o contributo individual de cada voluntário e potencia o impacto colectivo na protecção da biodiversidade.
Quantos voluntários é que se inscreveram neste ano? Tem existido algum aumento?
Em 2025, foram promovidos mais de dez trabalhos de voluntariado, envolvendo cerca de 400 intervenientes. Desde do início do movimento, em 2019, já tiveram lugar mais de 60 acções, mobilizando aproximadamente 1300 pessoas, números que reflectem o crescente interesse da comunidade na preservação da natureza.
A este envolvimento soma-se ainda a participação no SOS Cagarro, que continua a ser uma das campanhas mais expressivas da Região em termos de voluntariado ambiental. Todos os anos, centenas de pessoas, residentes e visitantes, juntam-se para salvar o animal, reforçando o impacto colectivo das atitudes de preservação.
Nos últimos meses, tem-se registado um aumento notório no número de interessados, especialmente entre estudantes estrangeiros das áreas de conservação, biologia e gestão ambiental, que aproveitam a sua estadia no arquipélago para colaborar no terreno. Este crescimento deve-se também à disponibilização de uma nova plataforma de inscrição no website, que tornou o processo mais simples e eficiente, facilitando a análise, gestão e integração dos interessados.
Como é que as pessoas podem participar e cooperar convosco?
Os interessados podem aceder ao nosso website, no separador “Voluntariado” onde encontrarão um formulário de inscrição e informações úteis.
Em alternativa, podem contactar-nos directamente por e-mail, indicando a ilha onde pretendem colaborar e as suas datas de disponibilidade. Todos são bem-vindos a participar, conhecer o trabalho desenvolvido em cada uma das ilhas e perceber o contributo real que cada acção tem para a preservação e para os serviços dos ecossistemas.
Qual é o perfil mais comum de voluntários? Que ilha conta com a maioria?
O perfil mais frequente corresponde a estudantes, maioritariamente estrangeiros, ligados à conservação da natureza, biologia e áreas afins. Muitos chegam através de programas académicos ou de grupos organizados por universidades e escolas, sendo comum a participação de turmas inteiras, para as quais são planeadas actividades específicas durante a sua estadia.
A ilha de São Miguel concentra a maioria das tarefas e, consequentemente, o maior número de voluntários. Esta predominância deve-se sobretudo à sua maior acessibilidade, capacidade logística e facilidade em acolher grupos numerosos, factores que facilitam a organização e o impacto.
Que impacto já observaram nas espécies e habitats conservados através das intervenções?
Desde o seu arranque, os resultados têm sido expressivos e já é possível observar melhorias claras na recuperação dos habitats e no reforço populacional de diversas espécies ameaçadas. Em cerca de 1453 hectares intervencionados, distribuídos pelas nove ilhas, tem-se consolidado avanços notáveis tanto ao nível do restauro ecológico como da produção de conhecimento científico.
Um dos marcos mais significativos foi o estabelecimento, na Ponta do Castelo (Santa Maria), do primeiro Acordo de Custódia da Natureza nos Açores, uma área totalmente dedicada à defesa dos habitats e das espécies ali presentes. Paralelamente, foram identificadas 102 novas populações de flora nativa e endémica, abrangendo 19 espécies-alvo. Só nas áreas geridas pela Secretaria Regional do Ambiente e Acção Climática, já foram plantadas mais de 44 000 plantas nativas, herbáceas e arbóreas, contribuindo directamente para a restauração de meios naturais.
A instalação de 22 km de vedação nas ilhas do Pico, Faial e Corvo tem sido igualmente determinante, permitindo excluir gado de áreas sensíveis e promovendo o restauro de turfeiras e outros espaços vulneráveis. No controlo de ameaças, foram intervencionados mais de 120 hectares com acções de remoção de espécies exóticas invasoras, reduzindo de forma significativa a pressão sobre os ecossistemas nativos. Já a instalação de ninhos artificiais para aves marinhas em vários ilhéus tem contribuído para o aumento do sucesso reprodutor de espécies emblemáticas do arquipélago.
No domínio do conhecimento científico, o projecto trouxe avanços relevantes. Um exemplo marcante foi a detecção, pela primeira vez, do morcego-dos-Açores (Nyctalus azoreum) nas ilhas das Flores e do Corvo, ampliando a compreensão sobre a distribuição desta espécie endémica e reforçando a importância da monitorização.
Em conjunto, estes resultados demonstram que o LIFE IP AZORES NATURA está a gerar impactos concretos, duradouros e essenciais para a sustentação dos seres e dos habitats em todo o arquipélago, contribuindo de forma inequívoca para a protecção do património natural açoriano.
Que desafios têm enfrentando ao longo dos anos?
Temos enfrentado diversos desafios que exigem uma gestão adaptativa e soluções continuamente ajustadas. Entre os mais significativos destaca-se a rápida expansão das espécies exóticas invasoras, que obriga a intervenções regulares e de larga escala para evitar a degradação dos habitats naturais.
A dificuldade de acesso a áreas remotas é outro obstáculo importante, tornando algumas acções de campo particularmente complexas e exigentes em termos logísticos. A isto soma-se a dificuldade que é gerir operações distribuídas por nove ilhas, cada uma com realidades ecológicas, sociais e operacionais distintas.
A sensibilização da população permanece uma necessidade constante, sobretudo perante o aumento do turismo, que pode intensificar a pressão sobre zonas naturais sensíveis. Paralelamente, têm ocorrido conflitos associados à actividade agrícola, incluindo a vandalização de vedações e situações de pastoreio ilegal, que comprometem o restauro do ambiente e exigem respostas rápidas e coordenadas.
Em conjunto, estes factores reforçam a importância de uma colaboração contínua entre entidades públicas, comunidade local, sector agrícola, operadores turísticos e restantes agentes socioeconómicos, garantindo que a guarda da natureza nos Açores seja uma responsabilidade partilhada e eficaz no longo prazo.
Como avaliam o impacto das comunidades locais no projecto?
O impacto das comunidades locais resulta de um trabalho diário, persistente e de proximidade. Numa primeira fase, é fundamental que as pessoas conheçam a ideia. Numa segunda, que participem e compreendam a importância da diversidade de acções que desenvolvemos em prol da conservação. A sensibilização tem sido um dos pilares centrais do LIFE IP AZORES NATURA, e o envolvimento crescente demonstra que esse esforço está a produzir resultados concretos.
As acções dirigidas às escolas têm sido especialmente relevantes, representando um avanço significativo na educação ambiental, sobretudo através da Oferta de Actividades de Sensibilização Ambiental Escolar da Secretaria Regional do Ambiente e Acção Climática. Paralelamente, temos desenvolvido iniciativas temáticas de grande alcance, como a campanha dedicada à espécie invasora erva-das-pampas (Cortaderia selloana), distribuída a todos os municípios e juntas de freguesia. Esta campanha permitiu alertar para a rápida disseminação da espécie e incentivar práticas de controlo. Desde então, recebemos feedback muito positivo de várias ilhas que já iniciaram acções mais informadas e proactivas.
De forma geral, o impacto é bastante positivo, a cada deslocação, notamos que um número crescente de pessoas já ouviu falar do LIFE e reconhece o trabalho que está a ser feito em terra.
Ainda assim, continua a existir muito por fazer, sobretudo no combate e no controlo das espécies exóticas invasoras, que permanecem um dos maiores desafios à preservação da natureza. Superá-los exige um esforço contínuo, colaborativo e cada vez mais participado por toda a comunidade.
Como foi a recepção da comunidade aquando o projecto? Aderiram ou sentiu falta de apoio?
A recepção da comunidade tem sido, de forma geral, muito boa. No entanto, este é um processo que exige tempo, continuidade e proximidade — condições que nem sempre são fáceis de garantir em todos os locais. Há zonas onde a colaboração surge de forma mais imediata e espontânea do que noutras, mas o mais importante é que, progressivamente, o empenho colectivo tem permitido que as iniciativas avancem e ganhem consistência.
É igualmente fundamental destacar o papel dos Serviços de Ambiente e Acção Climática de cada ilha. As suas equipas, vigilantes, operacionais e técnicos, têm sido determinantes para assegurar o sucesso do trabalho no terreno, funcionando como a ponte directa entre o projecto e as comunidades locais. Sem este apoio de proximidade, a implementação de muitas das intervenções não seria possível.
De que modo é que equilibram o cuidado da natureza e as actividades humanas?
Na Região Autónoma dos Açores, este aspecto tem de caminhar lado a lado com sectores como a agricultura e o turismo. Procuramos esse equilíbrio através do diálogo, da capacitação e da sensibilização, mostrando que os ecossistemas que protegemos prestam serviços essenciais e contribuem para o bem-estar das populações.
Por isso, temos investido em capacitação externa e sensibilização dirigidas ao público em geral, mostrando de forma clara a importância destes habitats e o papel que cada pessoa pode desempenhar na sua protecção. O equilíbrio constrói-se através do diálogo, do envolvimento e da valorização do território, garantindo que o desenvolvimento humano e a conservação caminham lado a lado.
Que parcerias é que desenvolveram ao longo do tempo?
Estabelecemos diversas parcerias que têm sido essenciais para ampliar o impacto da conservação. Um dos exemplos mais significativos foi o primeiro Acordo de Custódia da Natureza dos Açores, na Ponta do Castelo (Santa Maria), resultado de uma colaboração directa com o proprietário para garantir a protecção activa daquela área. Paralelamente, reforçámos o trabalho com escolas, autarquias, juntas de freguesia e várias associações, incluindo Associações de Agricultores, especialmente no Pico, onde a instalação de vedações tem exigido uma articulação próxima e contínua.
Criámos igualmente no website um separador dedicado a fundos e oportunidades de financiamento, para apoiar entidades e cidadãos interessados em candidatar-se a diversos avisos ligados à manutenção, educação ambiental ou desenvolvimento sustentável. Para além disso, mantemos um forte contacto com outras ideias, dentro e fora da região, para partilha de boas práticas e desenvolvimento de soluções conjuntas para desafios comuns. Estas parcerias têm sido fundamentais para fortalecer o ambiente nos Açores e para garantir uma abordagem cada vez mais colaborativa.
Que mensagem gostaria de deixar para este Dia Internacional do Voluntariado?
A nossa mensagem é, acima de tudo, de reconhecimento e sensibilização. O voluntariado é fundamental para assegurar a sustentabilidade ambiental dos Açores, envolvendo não só a comunidade local, mas também muitos visitantes internacionais que se juntam a nós num esforço conjunto de preservação dos ecossistemas.
Queremos que cada vez mais pessoas se interessem por estas temáticas e tenham a curiosidade de conhecer o trabalho que está a ser feito no terreno. O progresso alcançado só foi possível graças ao empenho de todos, incluindo os voluntários que, com dedicação e espírito de missão, contribuem para proteger a biodiversidade do arquipélago.
Cada atitude, por pequena que seja, tem um impacto real na natureza e na qualidade de vida das comunidades. O voluntariado demonstra que a protecção é um esforço colectivo e que, juntos, podemos fazer a diferença.
Considera importante assinalar esta data?
Sim, é fundamental assinalar esta data. O Dia Internacional do Voluntário valoriza quem dá o seu tempo e energia em prol do bem comum e ajuda a reforçar a importância da participação cívica na protecção da natureza. É também uma oportunidade para inspirar mais pessoas a envolverem-se, mostrando que o contributo individual é essencial para enfrentar desafios como o restauro dos ecossistemas e o controlo de espécies invasoras. Celebrar esta data é reconhecer o papel central dos voluntários e renovar o compromisso de trabalhar juntos pelo futuro dos Açores.
Diogo Simões Pires
