Jorge Rita foi condecorado pelo Presidente da República com o grau de Comendador da Ordem do Mérito Empresarial, na classe do Mérito Agrícola, distinção que reconhece o contributo dado ao sector agrícola e ao movimento associativo açoriano e nacional. Nesta entrevista, o presidente da Associação Agrícola de São Miguel e da Federação Agrícola dos Açores descreve o momento da condecoração, faz o balanço do ano no sector e deixa um alerta: “aquilo que se ganha no sector leiteiro não é suficiente para se viver com a dignidade e com a exigência emocional que os lavradores põem na sua vida”.
Correio dos Açores – O que sentiu ao receber a comenda?
Jorge Rita (Presidente Associação Agrícola de São Miguel e da Federação Agrícola dos Açores) – Senti uma alegria enorme e uma grande satisfação. Deixou-me com uma grande nostalgia. Chegar a um momento destes e ser agraciado com uma comenda, é algo que para mim era impensável.
Fez-me vir ao meu passado e à minha infância, o que os meus pais representavam para mim, sobretudo a minha mãe. E perceber que quando somos persistentes, resistentes, resilientes, trabalhadores, com dedicação e paixão sempre aparece algo diferente na nossa vida e nas nossas carreiras. E acho que foi o corolário da dedicação que eu tenho no sector agrícola desde sempre. E também tem a ver, essencialmente, com a distinção do desempenho que tenho tido ao longo dos anos. Mas é um misto de grandes emoções.
Também tem muito a ver com a questão da família, nomeadamente da minha esposa, das minhas filhas, dos meus irmãos, dos meus pais, dos meus amigos, mas há algo que nunca poderia esquecer: só cheguei a esse patamar porque existe agricultura e porque existem agricultores. Porque existe uma organização como esta e porque existem os nossos colaboradores.
Portanto, é o somatório de todas essas vantagens e essas valências que fui tendo ao longo do tempo. A minha experiência profissional como bancário, que também foi sempre dedicada à agricultura, os anos que já levo aqui como agente do Movimento Associativo Regional, a nível Açores e a nível Nacional, e com o crescimento das instituições e do sector, tudo isso fez com que, possivelmente, tenha sido este o reconhecimento.
No final das contas, acabo por ser um privilegiado por ter estado sempre no momento certo e na altura certa ao longo dos anos. Tive a felicidade de fazer os 50 anos da Associação, também tive o privilégio e o gosto de homenagear os meus antecessores, e sou aquele que teve esse benefício, claro, de fazer os 50 anos e agora também foi o corolário dessa homenagem que é do reconhecimento do mérito, para mim é essa a condecoração de Comendador.
Não é que a palavra em si vá modificar qualquer parte da minha vida, mas é um orgulho enorme para mim, para os meus, para todos aqueles que confiam e que acreditaram em mim ao longo dos anos e que sabem e que contaram com aquilo que foi, da minha parte, a disponibilidade total de sempre.
Então tem valido a pena essa dedicação toda à agricultura?
Para mim vale sempre a pena, até porque tive tantas oportunidades para ir para outras áreas, mas dei sempre prioridade a esta, porque é a que gosto, é onde me sinto confortávele e onde vivo o dia-a-dia com muita paixão. E não há nada que pague isso. Chegar a essa altura da vida, em que estou perto da reforma, com vida e saúde e ainda ter o privilégio de ser condecorado desta forma, e são poucos os que têm essas condecorações, valeu a pena todo o esforço, toda a dedicação, os sacrifícios que fiz e que a minha família fez. Valeu a pena tudo aquilo de que abdiquei ao longo dos anos para estar dedicado a 100% às causas agrícolas.
Sempre achei que tinha valido a pena e claro que agora, com esses reconhecimentos todos, ainda sinto mais orgulho; Não é que este orgulho faça com que mude qualquer posição da minha pessoa, porque eu serei sempre o Jorge Rita da mesma forma, mas que este prémio que me foi atribuído a mim, é bom que ninguém se esqueça que é um prémio da agricultura açoriana e até mesmo a nível nacional.
Apesar deste prémio ter-me sido atribuído a mim, toda a agricultura se deve sentir elevada e a dignidade que nós temos incutido no sector perante tudo e todos, penso que a agricultura vive um momento muito alto em termos de credibilidade.
Referiu que está perto da reforma. É algo em que já começa a pensar?
Esse pensamento para mim não existe. Apesar da minha idade me levar para a reforma, sinto-me muito confortável com o meu trabalho. Gosto daquilo que faço e enquanto eu puder, enquanto eu tiver esse gosto, esta paixão, este entusiasmo e dedicação para continuar a trabalhar, enquanto as pessoas continuarem a confiar em mim, podem contar com a minha total disponibilidade. A idade da reforma existe, mas não contem comigo para me reformar.
Que balanço faz do sector agrícola em 2025?
Este aconteceram muitas coisas positivas ao sector e a mim pessoalmente. Tivemos os 50 anos, fui homenageado também pela Associação Agrícola da Terceira e ainda tive a homenagem máxima de Comendador seguido de outra, no dia a seguir, feita pela CAP em que sou o seu dirigente mais antigo em actividade.
Para além dessas homenagens, o sector atravessa, se calhar, um dos melhores momentos dos últimos tempos. Ao nível do leite, o preço que é pago não é aquele que nós pretendíamos, e não estamos a ganhar o que devíamos ou merecíamos, mas também não podemos dizer que está numa situação, até hoje, que não é, no meu ponto de vista, uma situação entre a receita e a despesa das mais confortáveis dos últimos tempos.
Para colmatar esta situação, e porque o sector do leite também vive, e muito, do aproveitamento das vacas, vitelos e de alguma carne de transformação em novilhos ou vitelões que estão a preços como nunca, ou seja, o leite está num preço estabilizado, mas a carne está a preços incríveis, com grande destaque em relação aos últimos anos e eu penso que essa parte deve estar para durar ainda nos próximos tempos.
Há poucos animais, houve pandemias, epidemias e problemas sanitários em alguns países, e ainda vai demorar para se repor os efectivos pecuários para produção de carne.
Nas outras áreas de produção agrícola, todas elas estão numa boa fase. Houve uma redução de custos/produção em algumas áreas e, essencialmente, o aumento das receitas. Na prática, o ano de 2025 pode-se considerar foi um dos melhores anos, dos últimos tempos, em matéria da agricultura.
A situação difícil que nós percebemos é a falta de calendarização dos pagamentos do Governo Regional dos Açores. E a situação das intempéries constantes que causam muitos prejuízos em alguns agricultores, no caso concreto do sector leiteiro, que tem a ver com a situação dos milhos forrageiros e dos prejuízos avultados que tiveram. O Governo Regional, durante este ano, tem vindo de encontro ao que são as nossas reivindicações, é justo que se diga, mas o compromisso que existe tem de ser rigorosamente cumprido. Tem havido alguns atrasos e é importante que eles sejam repostos rapidamente para a credibilidade do próprio Governo. Se há algo que eu prezo e muito ao longo da minha carreira é a palavra e o compromisso.
Os pagamentos provavelmente não serão todos pagos até ao final do ano, mas é bom que se agilize. Porque nós estamos a desafiar os Governos há muitos anos e tudo o que são verbas da União Europeia estão calendarizadas e são pagas. O que falha, normalmente, são as comparticipações regionais e nacionais, o que e é lamentável. Tem que se criar uma calendarização rigorosa para que haja previsibilidade dos agricultores também de fazer os seus pagamentos, porque depois o que acontece normalmente, é que as organizações que estão à volta a proteger o sector são as mais prejudicadas e são aquelas que depois ficam os pagamentos por fazer, ficam tudo a aguardar. É importante, por isso, nós quando discutimos planos e orçamento, quando é favorável temos consciência que sim, mas quando não é favorável, obviamente que temos de dar nota, e no caso concreto a Federação não deu nota positiva, foi nota negativa a este plano, várias razões. Portanto, todo esse trabalho do Governo nos pagamentos atempados também fará sempre com que os agricultores possam confiar e que podem e devem continuar a investir.
Recentemente fez um apelo à indústria dos lacticínios. Há a probabilidade de o preço do leite baixar no próximo ano?
Já se notam algumas descidas no mercado, temos de ser realistas e sérios na nossa análise. O grande mercado de proximidade em que a Região tem mais impacto a nível dos seus produtos tem a ver com o continente de Espanha. E a Espanha até aumentou o preço de leite. E enquanto a Espanha, que está próximo de Portugal, com o mercado mais próximo, aumenta o preço de leite aos produtores, a nível nacional parece que essa tendência pode não aumentar, mas diminuir, eles vão ter algumas dificuldades nessa diminuição. Se não houver descidas no continente não faz sentido haver descidas na Região Autónoma dos Açores.
Até porque nós continuamos com um diferencial de 4 a 5 cêntimos a nível nacional e 10 cêntimos a nível médio da Europa, ao dia de hoje.
Mas, as nossas indústrias, normalmente, sobem sempre de forma reactiva. Não há proactividade nas subidas. Primeiro sobe em toda a Europa e ficamos a aguardar, durante seis meses, para que haja estabilidade de mercados. Mas quando existem descidas, quase dos primeiros a descer. Essa filosofia das indústrias tem que mudar e o desafio que nós fazemos às indústrias, já há algum tempo, é que hoje existem alternativas ao sector leiteiro.
Sabendo que o sector leiteiro é aquele que tem maior peso na economia da Região. Mas com a dificuldade da mão-de-obra, com a renovação geracional que é preciso continuar a fazer e que os jovens não estão com essas atitudes das indústrias, o baixar constantemente e pressionar o preço do leite, são situações que as indústrias têm que começar a repensar e não basta só a Associação Agrícola de São Miguel fazer, sozinha, desafios aos jovens, com os concursos e o chamar.
Temos um quadro comunitário de apoio à porta, com a entrada de jovens agricultores, a modernização das produções e um grande investimento. Se a indústria baixa o preço de leite, não pode contar que os agricultores vão continuar a fornecer o mesmo leite. Existe, hoje, a possibilidade da redução e é paga. Aquilo que as indústrias querem que se faça na Europa nós já estamos a fazer na Região mas existe outra situação que é a reconversão.
Não podem vir acusar-me de querer carne e não querer leite. Nós. Na Federação Agrícola, queremos muito leite e muita carne mas com sustentabilidade para toda a fileira. Os produtores têm que ganhar e o sector leiteiro é uma autêntica escravatura que as indústrias não valorizam. Trabalham 365 dias por ano.
Por exemplo, tivemos a situação dos milhos forrageiros, ainda se está a recolher milho com prejuízos grandes e a indústria não perguntou às associações nem à Federação como estava a situação dos agricultores. Para eles somos nós que temos de ter alimentos disponíveis e dar assistência técnica. O leite e os animais podem sofrer penalizações porque os alimentos podem não são muito bons. E para se compensar isso, tem de se investir mais e isso não é possível baixando o preço do leite.
As indústrias têm de repensar este sistema, pois nós também temos as nossas armas e podemos utilizá-las.
Fizeram recentemente mais um concurso da Holstein-Frisia, que balança faz da edição deste ano e, para si, o que significa poder organizar um concurso tão prestigiado quanto esse?
É um orgulho enorme, em nome dos agricultores dos Açores e no caso concreto de São Miguel. Fazer dois concursos numa ilha com a dimensão da nossa é motivo de muito orgulho para a produção. E fazer com a qualidade, obviamente, que tem a parte da nossa organização, é bom que não se esqueça que Associação também é parte da organização, mas também tem muitos patrocinadores que fazem com que se consiga pôr de pé estes concursos.
Toda esta organização, toda esta marca que nós temos em termos destes concursos é algo que as pessoas percebem o gosto e a paixão com que se está nessa vida. Entristece-me que as indústrias não reconheçam essa paixão e este gosto pela agricultura, no caso concreto pela produção de leite.
Se fosse industrial dos lacticínios passava 24 horas com os produtores, a incentivá-los nos prémios, com as famílias. Chego à conclusão que alguns também gostam de ganhar dinheiro com a matéria-prima que os agricultores têm.
E isto não é uma boa filosofia nem tão pouco comercial, nem é criar empatia entre a indústria e a produção. Nós estamos condenados a viver juntos e quando nós estamos condenados a viver juntos temos que procurar a melhor maneira de vivermos e convivermos todos bem. É preciso os dois estarem bem para as coisas fluírem com muito mais com muito mais credibilidade, muito mais seriedade e com muito mais futuro. Da parte das indústrias, às vezes, e não são todas, vê-se um distanciamento dos seus próprios produtores. E é triste que se faça essa análise porque esses concursos servem, essencialmente, para demonstrar aquilo que a excelência do trabalho que tem sido feito, a excelência das nossas vacas e o gosto. Nós estamos a assistir aqui a uma quantidade de jovens, raparigas e rapazes muitos jovens, nesses concursos, de forma apaixonada, e isso tem que ser valorizado. A Associação faz tudo para que sejam valorizados.
Penso que a indústria e o Governo Regional, mas no caso concreto da indústria estamos a falar do sector leiteiro, têm que estar muito atentos a esses pequenos grandes pormenores, porque as pessoas depois fartam-se. Temos aqui um problema gravíssimo que é a confiança de jovens para o futuro, que neste momento não existe como já existiu no passado, e se as indústrias mexem nos preços de leite automaticamente isso vai ser mais uma derrocada para além da falta de mão-de-obra.
A falta de mão-de-obra no sector é brutal. Todos sofrem mas o sector leiteiro é que mais sofre. Porque nós podemos remediar com horas extraordinárias em alguns sectores de actividade, no sector leiteiro são 375 dias por ano. É preciso que a nossa sociedade também perceba que esse é um sector brutal em termos de trabalho, dedicação, de sacrifício, com prejuízos, mau tempo. É uma vida muito dura, que aquilo que se ganha no sector leiteiro não é suficiente para se viver com a dignidade e com a exigência emocional que os lavradores põem na sua vida.
Frederico Figueiredo
