Pedro Silva, de 26 anos, proprietário da food truck “Já Marchava”, na Ribeira Grande, participou na presente edição do MasterChef Portugal depois de a mulher o ter inscrito como surpresa. O cozinheiro madeirense, que reside actualmente em São Miguel, explica que a sua cozinha é influenciada pelas tradições açorianas e madeirenses e apesar de não ter alcançado o top-16, destaca que a experiência o ensinou a manter a calma, a ser criativo sob pressão e a acreditar mais no seu trabalho.
Correio dos Açores – Como surgiu o gosto pela culinária?
Pedro Silva (Participante no MasterChef Portugal) – O meu gosto pela culinária nasceu muito antes de pensar em ter um negócio. Sempre fui apaixonado por comida simples, saborosa e bem-feita, daquelas que juntam pessoas e criam momentos. Com o tempo, fui experimentado, aprendendo receitas novas, adaptando outras e descobrindo que cozinhar não era apenas um hobby, mas algo que realmente me dava prazer. A ideia de transformar essa paixão em algo maior surgiu naturalmente.
Quis criar algo meu, que reflectisse o que gosto de fazer e que pudesse levar sabor e boa energia às pessoas, assim nasceu o “Já Marchava”. Hoje, continuo a aprender todos os dias, mas a base mantém-se: adoro cozinhar porque a comida tem o poder de fazer as pessoas felizes.
Como surgiu a oportunidade de participar num programa como o MasterChef Portugal?
A motivação surgiu de forma muito orgânica, depois da minha mulher ter feito a inscrição de surpresa. Sempre tive um grande amor pela culinária e, à medida que fui evoluindo e ganhando confiança na cozinha, comecei a sentir que precisava de um novo desafio, algo que me tirasse da zona de conforto e me permitisse mostrar aquilo que sou capaz de fazer.
O MasterChef Portugal apareceu como uma oportunidade única, um palco onde poderia aprender, crescer, testar limites e partilhar o meu estilo com pessoas que também levam esta arte a sério. Mais do que competir, foi a vontade de viver uma experiência transformadora, rodeado de chefs e amantes da gastronomia, que me motivou a dar este passo. Participar foi uma forma de honrar o meu percurso, colocar-me à prova e mostrar a mim mesmo que a minha paixão pela cozinha merece ser levada ao nível seguinte.
Quais foram os maiores desafios ao participar num programa desta dimensão?
Fazer parte de algo desta dimensão trouxe vários desafios, muitos deles inesperados. Um dos maiores foi lidar com a pressão do tempo, ali tudo acontece muito rápido, e é preciso pensar, criar e executar com uma precisão quase cirúrgica. Também houve o factor emocional.
Estar rodeado de pessoas muito talentosas faz-nos querer dar sempre o máximo, mas ao mesmo tempo exige força mental para não deixar que a comparação ou o nervosismo atrapalhem.
No fim, todos esses obstáculos ajudaram-me a crescer, tanto como cozinheiro como pessoa. Aprendi a manter a calma, a ser criativo sob pressão e a acreditar mais no meu próprio trabalho.
Como é que a gastronomia insular influenciou o seu estilo de cozinhar?
A gastronomia dos Açores e da Madeira teve uma grande influência no meu estilo de cozinhar. De ambas as regiões, herdei o respeito pelos ingredientes locais e pela simplicidade que deixa o sabor falar por si.
Dos Açores, trouxe a ligação forte ao mar, aos cozinhados lentos e ao conforto dos pratos tradicionais. A forma como se valoriza o produto, seja um peixe fresco ou um tempero caseiro, ensinou-me a preparar com autenticidade. Da Madeira, inspirei-me nos sabores vivos, nas marinadas, nos assados e no equilíbrio entre doçura, acidez e frescura que são as suas características.
Actualmente, o meu estilo é uma fusão dessas duas identidades, são comidas que respeitam a tradição, mas com liberdade criativa e sempre com foco em transformar alimentos simples em experiências ricas de sabor.
Tem algum prato de assinatura? Qual foi a característica do seu prato que o fez chegar até à fase dos duelos?
Neste momento não tenho nenhum prato de assinatura definido, mas para esta etapa apresentei um prato que representa dois pilares muito fortes da Madeira, os pescadores de peixe-espada preto e os produtores de banana da Madeira. Escolhi esta refeição porque junta duas matérias-primas que, além de serem símbolos da Região, contam uma história de esforço, tradição e identidade. A combinação do sabor delicado do animal com a doçura característica da fruta cria um equilíbrio que surpreende, mas que continua profundamente local.
A qualidade que me fez chegar à fase de eliminação foi exactamente essa capacidade de honrar a origem dos alimentos, transformando algo simples em algo com significado, em algo que não é apenas comida, mas sim uma homenagem que mantém viva a gastronomia do arquipélago madeirense.
O que é que sentiu ao ser um representante das suas origens? Sentiu o apoio da comunidade?
Representar os Açores e a Madeira foi uma experiência profundamente marcante. Senti-me responsável por duas culturas riquíssimas, cada uma com a sua identidade, tradições e forma única de viver a culinária.
Levar estas raízes duplas para a televisão foi um orgulho enorme, era como se carregasse duas casas comigo, a força e a autenticidade açoriana e a criatividade e intensidade dos sabores madeirenses.
Quanto ao apoio da comunidade, senti-o de forma muito clara. Recebi mensagens, partilhas e palavras de incentivo que me deram força em cada fase. Foi um apoio genuíno, sentido, que me fez perceber que não estava apenas a representar-me, mas sim dois arquipélagos que vibram, torcem e apoiam com o coração.
Quais foram as maiores lições tiradas desta experiência?
As maiores lições que tirei desta experiência vão muito além da cozinha. Em primeiro lugar, aprendi a confiar mais em mim e no meu instinto culinário. Quando estamos sob pressão, percebemos que a técnica é importante, mas a verdadeira diferença está na autenticidade e na capacidade de manter a calma.
Outra grande lição foi perceber o valor de representar as minhas raízes e como as refeições podem ser uma forma poderosa de contar histórias. Levei comigo a certeza de que, quando cozinho com identidade, estou sempre no caminho certo, sendo que também aprendi muito sobre resiliência.
Nem sempre tudo corre como planeado, mas saber adaptar, reagir rápido e continuar a lutar foi fundamental. E, talvez o aspecto mais bonito de todos, foi perceber o apoio das pessoas. Receber tantas mensagens, sentir-me acompanhado e ver que a minha participação inspirou outros reforçou a ideia de que a cozinha é uma ponte.
Quais os planos para o futuro?
Os meus planos para o futuro passam por continuar a fazer crescer o meu trabalho, mas também por lutar por condições mais justas para os pequenos negócios locais. Infelizmente, tenho sentido falta de apoio da autarquia em relação ao meu ‘food truck’, o que torna mais difícil desenvolver um projecto que podia contribuir ainda mais para a economia e para a oferta gastronómica.
Acredito que, com um pouco mais de colaboração e visão, o concelho poderia valorizar quem trabalha e investe localmente. Um dos meus objectivos é conseguir um sítio mais central para estacionar a carrinha, um local onde haja mais movimento, mais visibilidade e onde eu possa servir quem já é cliente fiel e também quem ainda não conhece o que eu faço. Seria uma forma de potenciar o negócio e dar aos Açores, e à Madeira, a representação que merecem no meu menu.
Quero também expandir os meus serviços de Chef em casa, levando a gastronomia madeirense a mais pessoas de forma personalizada, intimista e especial. Acredito que existe uma procura crescente por experiências culinárias diferentes, e a cozinha madeirense, com a sua identidade própria, merece esse destaque.
O futuro, para mim, é continuar a crescer, a representar bem as minhas origens e a criar oportunidades mesmo quando o apoio institucional não acompanha o esforço de quem trabalha todos os dias para fazer a diferença.
Gostaria de deixar uma mensagem à comunidade?
Se pudesse deixar uma mensagem à comunidade, seria antes de mais um muito obrigado. Nada disto faria sentido sem o vosso apoio, a vossa energia e a forma como me apoiam sempre, mesmo nos momentos mais desafiantes.
Quero que saibam que cada prato que preparo, cada projecto que abraço e cada passo que que dou é também por vocês, pela nossa cultura, pela nossa identidade e pelo orgulho de representar as duas regiões onde quer que vá.
Peço também que continuem a apoiar o que é nosso, os pequenos negócios, os produtores locais, os artesãos, os que trabalham todos os dias para manter vivas as tradições das ilhas. Quando a comunidade se une, tudo cresce.
E, por fim, deixo uma promessa, vou continuar a trabalhar com dedicação, criatividade e respeito pelas nossas raízes. Enquanto tiver apoio, vou sempre procurar honrar as zonas que me formaram, dento e fora da cozinha.
Diogo Simões Pires
