Os Açores continuam a enfrentar um dos mais complexos desafios sociais da Região, a elevada prevalência de comportamentos aditivos e de dependência, pelo que iniciativas comunitárias ganham um renovado significado. É neste contexto que o Lions Clube de Rabo de Peixe se destaca como impulsionador de um projecto inédito: a criação de um Centro de Reabilitação e Reinserção Psicossocial e Educacional, pensado para dar resposta a uma lacuna histórica no arquipélago. Manuel Ledo, dirigente do Lions Clube de Rabo de Peixe é um dos rostos mais empenhados na concretização deste projecto, tem acompanhado de perto diversas respostas existentes no continente e procura agora adaptar aos Açores um modelo de tratamento e recuperação que una rigor técnico, humanização e integração comunitária. Nesta entrevista, explica a génese da ideia, os passos já dados, os desafios institucionais que persistem e a visão de futuro para um espaço que pretende acolher jovens — e menos jovens — em recuperação, oferecendo-lhes condições reais de reabilitação e reinserção social. Entre expectativas, obstáculos e compromissos, Manuel Ledo partilha connosco uma visão clara sobre aquilo que considera ser não apenas uma necessidade urgente, mas também uma oportunidade transformadora para a Região.
Correio dos Açores: Como surgiu a ideia de criar um espaço de tratamento e recuperação de jovens que saíram das malhas da toxicodependência ?
Manuel Ledo: Disseste muito bem; “jovens que saíram das malhas da toxicodependência” só acrescentava: “… e menos jovens”; isto porque o CENTRO está para jovens e menos jovens, mas também só recebe quem fez a desintoxicação fisiológica. A ideia surge pela não existência, nos Açores, de estruturas de Reabi L b litação/Reinserção Psicossocial e Educacional e pelo número muito elevado de psicodependentes nos Açores, sendo a nossa Região, considerada com a maior percentagem das Regiões do País.
Achas que o exemplo da Fazenda da Esperança no Brasil poderá ser replicado nos Açores?
Julgo que sim. O objectivo principal é: “recuperação de pessoas que buscam a libertação dos seus vícios, em especial do álcool e da droga” — As pessoas, com problemas de droga são admitidas, nas comunidades da Fazenda da Esperança, terão que se identificar com o carisma da Fazenda da Esperança onde podem encontrar a sua vocação na Igreja como parte da família da Esperança.
Qual tem sido a experiência histórica obtida em algumas respostas no Continente, e de que forma poderá inspirar o modelo açoriano?
A nossa experiência foi a de acompanhar durante todas as fases de tratamento de um doente/residente, dos Açores, numa Comunidade Terapêutica em Maçã; visitas a Comunidades em Fátima, Luso, Sintra e Almada. O Modelo que pretendemos implementar na nossa Comunidade Terapêutica, é fruto das visitas efectuadas, do acompanhamento do residente que referi e também de conversas tidas com toxicodependentes e de ex-toxicodependentes recuperados em comunidades no continente, também, muito do que consideramos mais adequado a um arquipélago e também acrescentamos alguns pontos que não encontramos nas comunidades visitadas mas que consideramos muito importantes para o sucesso da Reabilitação.
Em que fase se encontra actualmente o processo de implementação desse espaço em Rabo de Peixe?
Encontra-se a aguardar que seja efectuado Projecto de Arquitectura e respectivas Especialidades. O terreno que a Câmara Municipal da Ribeira Grande nos cedeu, fica situado não em Rabo de Peixe mas em Santa Barbara no local Chã do Rego D’ Água. Como se pode verificar o terreno situa-se no CENTRO da Ilha de S. Miguel e afastado da zona habitacional de forma a garantir a prevenção geral.
Qual é o envolvimento e compromisso formal do Lions Clube de Rabo de Peixe neste projecto?
É o de despoletar e sensibilizar o Governo, todos os partidos que constituem a Assembleia Regional, as Autarquias e Forças Vivas da Região, incluindo apoios provenientes de empresários que tenham em conta o projecto que temos em preparação e a importância que terá o “Centro de Reabilitação/Reinserção Psicossocial e Educacional dos Açores” (CRRPEA) para dar resposta à Toxicodependências. Temos consciência, que não vamos terminar com as grandes Chagas que aparecem todos os dias, gerando um crescimento assustador de dependências e dependentes na Região, mas temos a certeza que pelo projecto que temos em preparação podemos, se houver os apoios necessários para por de pé o projecto em causa, como acontece noutras localidades somos capazes de abrir novas portas a quem mergulhou nas “trevas” das dependências, abrindo um “caminho novo”. Para o arranque deste projecto o Lions Clube de Rabo de Peixe (LCRP) é o “motor” para a coordenação e implementação do Projecto, e já conta cedência do terreno de 32.000 m2; logo que o projecto de Arquitectura e Especialidades esteja pronto, e com aprovação do Câmara Municipal para propormos a sua candidatura à Fundação Internacional dos Lions, para sabermos o montante do apoio que for aprovado para o projecto. Logo que o projecto esteja elaborado faremos os contactos necessários com o Governo, com as Autarquias dos Açores e as Forças vivas da Região para lhes mostrar o projecto e sensibilizar-lhes para que sejam parte na caminhada que pretendemos projectar para abrir novos caminhos a quem se vê mergulhado em dependências que são um sofrimento para os próprios e para a família que sofre.
Como se articula a missão do Lions Clube com o combate às toxicodependências na comunidade?
MELVIM JONES, Fundador do Lionísmo, se tivesse vivido no final século XX e XXI, a sua preocupação em vez de ter sido a cegueira teria sido as dependências; pois as drogas são como se sabe um flagelo que destrói famílias, aumenta a criminalidade e tem um custo muito elevado para a saúde bem como para a economia Regional. O Lions Clube ao decidir criar o CENTRO dá oportunidade, de usar aquelas infra- estruturas para que os utentes possam renascer para a família e para a comunidade.
Qual será o papel do Governo Regional dos Açores neste empreendimento?
Desde logo precisamos de apoio para a Elaboração do Projecto de Arquitectura e Especialidades. (o Lions de Rabo de Peixe, já solicitou uma reunião com a Secretaria, que tutela a saúde e a solidariedade social, para mostrar o anteprojecto que temos e esclarecer dúvidas que poderiam surgir). Ainda não tivemos resposta mas vamos insistir no pedido de reunião e evitar que tenhamos de fazer um “edital” pedindo para sermos recebidos pela Senhora Secretária Regional para apresentarmos a nossa proposta que inclui uma proposta para criarmos uma IPSS.
Como se caracteriza a colaboração coma Câmara Municipal da Ribeira Grande, que já cedeu o terreno?
Caracterizamos como óptima. A Câmara, na pessoa do ex-presidente Dr. Alexandre Gaudêncio, cedeu-nos um terreno de 32.000 m2, e o actual presidente, Dr. Jaime Vieira, também se propôs a continuar a apoiar o projecto.
Existem outras instituições, publicas ou privadas, envolvidas ou convidadas a participar desse esforço?
Ainda não formulamos um convite aos putativos parceiros, porque só o faremos quando tivermos o projecto de Arquitectura e Especialidades pronto. O Lions Club de Rabo de Peixe, como promotor do projecto, pretende convidar, para parceiros:
Fundação dos Lions Internacionais;
Secretaria Regional da Saúde e Solidariedade Social (SRSSS);
Secretaria Regional da Educação, Cultura e Desporto (SRECD);
Secretaria Regional da Agricultura e Alimentação (SRAA);
Câmaras Municipais dos Açores (AMRAA);
Casa de Saúde São João de Deus;
ARRISCA;
Alternativa;
Cresaçor;
Associação Agrícola de São Miguel;
Terra Verde – Associação de Produtores Agrícolas dos Açores.
Que tipo de abordagem terapêutica e social será aplicada no espaço?
O plano terapêutico será proposto para cada doente/residente, por toda a equipa técnica após a avaliação psicológica e psiquiátrica, de forma que seja potenciado a eficácia da reabilitação. Este plano terapêutico deverá ter em conta as seguintes actividades:
A psicoterapia individual e de grupo, que será um instrumento/ferramenta de forma a desenvolver a capacidade de resolução de problemas;
A terapia ocupacional será através:
Das tarefas do dia-a-dia (fazer a cama, arrumar o quarto, preparação das refeições, etc.);
Do trabalho a cuidar dos animais do CENTRO e da agricultura quer nas estufas, quer ao ar livre;
Das actividades de lazer, exercícios físicos quer no ginásio interior, quer no exterior, jogos desportivos e de sala;
Actividades de educação visual e tecnológico;
Desenvolvimento de actividades que facilitem a inserção ou reinserção social;
Integrar ou reintegrar na actividade laboral com apoio de algumas instituições locais, tais como: Autarquias, Associações Agrícolas e Pecuárias, Câmaras do Comércio e Indústria de Ponta Delgada, Angra e Horta.
No aldeamento a construir, haverá uma ermida que servirá de um espaço de reflexão e também servirá para os residentes que desejarem e podem participar na Missa Dominical e apoio espiritual por um Sacerdote.
Quais são as infra-estruturas para desenvolver as actividades?
No início pensamos em construir todas as valências em monobloco, depois consideramos que seria melhor construir moradias pré-fabricadas para que os doentes/residentes se sentissem mais como sua residência familiar. A construção em moradias transmite, aos residentes, estarem num aldeamento.
Se permites, passava a descrever a memória descritiva do projeto:
10 moradias de 3 quartos cada para residentes;
2 moradias de 2 quartos para os monitores durante todas as noites e fins de semana;
1 moradia de 4 quartos para os gabinetes de saúde (médico, enfermeiro, psicólogo e assistente social);
1 moradia sem divisórias, só com casa de banho; para trabalhos de grupo de psicologia com os residentes e reuniões com a equipa técnica do centro (área com cerca de 50 m2);
1 moradia sem divisórias, com casa de banho e sala com cerca de 5 m2 para os paramentos; Ermida de 10 x 5m2;
1 moradia sem divisórias, com casa de banho;
1 moradia com cerca de 50 m2, sem divisórias, com casa de banho para sala de formação, EVT e outras;
1 moradia com 2 divisórias para cozinha com capacidade de servir 40 refeições e refeitório com capacidade para as mesmas. O refeitório também servirá para ocupação de tempos livres e lazer;
Uma moradia com cerca de 50 m2 para Serviços administrativos e conselho de administração;
Construção de 3 estufas com 250 m2 cada para a produção de hortícolas e frutícolas;
Montagem de um reservatório com capacidade de 200 m3, para captar água das estufas;
Construção de uma pocilga com capacidade de 50 porcos de engorda e uma maternidade para 3 porcas;
Construção de 1 aviário para cerca de 200 frangos de engorda e 100 poedeiras;
Construção de 1 viteleiro para 15 vitelos (3 fases: Cria, recria e engorda, 5 por cada fase);
Construção de uma vacaria para 3 vacas de leite;
Preparação de uma área para cultivo de frutícolas e hortícolas ao ar livre;
Construção de 1 canil com capacidade de 6 cães de estimação.
Qual a duração média previstas de permanência dos utentes no CENTRO?
A duração irá depender do diagnóstico e prognóstico efectuado pelo gabinete de saúde, constituído por: psiquiatra, psicólogo(a), enfermeiro(a) e assistente social. A previsão será, em princípio, de 8 a 14 meses.
Quais as expectativas para os efeitos desse projecto na dinâmica social e comunitária de Rabo de Peixe?
As expectativas são boas para Rabo de Peixe como também para as freguesias de onde provêm outros utentes/residentes.
A iniciativa pretende também trabalhar com famílias e redes de apoio social dos dependentes?
Um dos pontos que consideramos ser um factor que aumentará o sucesso, é o trabalho a ser desenvolvido com as famílias ou com quem o doente residente convive. o CENTRO intervém na preparação e acompanhamento da família e toxicodependente em reabilitação, de forma que esteja em condições no pós-tratamento; no pós-reabilitação, prevenção de recaída, através de reuniões mensais (tipo alcoólicos anónimos), e da disponibilidade psicológica diária, presencial ou via telefone.
O projecto tem uma vertente educativa ou preventiva dirigida aos jovens?
Sim. O CENTRO pretende trabalhar na prevenção, como parceiro das equipas de saúde, já criadas, que têm a sua intervenção junto das escolas. No período de internamento será facilitado aos que não têm escolaridade obrigatória a possibilidade de virem a adquiri-la. Todos os residentes terão a possibilidade de participarem em acções de formação para adquirirem competências profissionais.
Como se prevê assegurar a sustentabilidade financeira do projecto a longo prazo?
Pretendemos reunir com quem tutela a Saúde e Solidariedade Social e a Educação, para encontrarmos uma forma de financiamento; nós sugerimos a criação de uma IPSS ou outra forma de financiamento encontrada na reunião. Convém não esquecer que esse projecto contribuirá para dar cumprimento ao programa político da SRSSS. No objectivo de “reforçar as políticas de promoção de estilos de vida saudáveis, e fortalecer as estruturas regionais de prevenção e combate às dependências”. Como o público-alvo são os sem-abrigos, e estes são naturais dos Concelhos da Região, também, as autarquias poderão encontrar uma forma de apoio financeiro. Os doentes/residentes, também contribuirão financeiramente para o CENTRO, através da ergoterapia desenvolvida através da horto -fruto- florícola e pecuária, que para além de serem actividades de reabilitação e formação, também servirá para o auto consumo dos doentes/residentes do CRRPEA e da comunidade mais próxima, na venda dos excedentes. Convém não esquecer que o CENTRO irá contribuir para ser parceiro pró-activo do Governo no que diz respeito às dependências.
Há planos para expansão futura ou integração do Projecto com outras iniciativas de reinserção profissional?
Neste momento, ainda não. Mas, após 3 ou 4 anos de actividade poder-se-á pensar na expansão e na integração com outras iniciativas de reinserção profissional se a comunidade açoriana considerar conveniente e o CENTRO ter respostas credíveis.
Que mensagem gostaria de transmitir à comunidade e às autoridades sobre a importância desse projecto para os Açores?
Consideramos que este Projecto é muito importante para os Açores que são das poucas regiões de Portugal que não tem nenhuma infra-estrutura dessa natureza. Esta infra-estrutura, com o seu modelo terapêutico, será uma mais-valia para a Região, pois alguns dos nossos toxicodependentes, não terão necessidade de se deslocarem para fora da Região. Este CENTRO aqui na Região proporcionará a continuação do seu trabalho no pós-tratamento, não só dos ex-residentes do CENTRO como de outros que se trataram fora da Região. O CENTRO será um grande contributo para a melhoria da vida dos ex-residentes, seus familiares mais próximos e a comunidade onde irão viver, pois deixam de ser um “custo” e passam a ser cidadãos que contribuirão para a sociedade através dos impostos do seu trabalho. Este projecto também pretende dar competências/ferramentas aos residentes num espírito de uma economia solidária e circular. Estas competências adquiridas facilitarão a aquisição de emprego ou a criação do seu próprio emprego, tão fundamental para evitar a recaída.
António Pedro Costa
