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Ou a doença súbita da falta de memória

As vítimas não eram uns cidadãos quaisquer.
A síndroma apoderou-se duns quantos, que já eram tantos. Notáveis. Eram uma elite dum Portugal, que quase agonizava. Porquê?
Porque havia uns tipos que viviam acima das suas posses. Foi? O elevador “social” avariava. Não arrancava da cave. Muitos até ficavam pela subcave.
Foi a bancarrota?
O País para sobreviver, teve de ir aos “fundos”, quer internacionais, quer europeus.
Quase se afundava no fundo dum poço de lama corrosiva e mal-cheirosa.
No meio do lamaçal, era possível enxergar uns “seres”, que se tentavam baldar, de “colarinhos brancos” para um qualquer “paraíso”, onde podiam, ainda, rir e gozar o que lhes sobrava em ganância e falta em ética e moral.
Tudo era legal. Parecia peremptório de escritórios de advogados com nome feito na praça da especialidade.
Afinal “a doença” era geral e surgiu na América, com créditos de risco, a que faltavam garantias.
Estava-se em 2007/2008. Em Portugal um banco de Investimentos das elites, era acusado de fraude fiscal, branqueamento de capitais e peculato.
Oportuno ter fixado estas palavras, porque nos anos seguintes, iriam ser utilizadas muitas vezes.
Seguiam-se outros bancos e outras grandes empresas de referência.
A responsabilidade era atribuída aos que ficavam bloqueados na “cave”, e aos que, entretanto, emigravam e ficavam desempregados. Tremendo equívoco.
Conclusão a que chegavam, embora com visível embaraço, comentadores e analistas, especialistas nestas matérias.
Apenas se lhes podia assacar uma ínfima parte da raiz do imbróglio criado.
O único erro, que se lhes podia atribuir, era terem sido pessoas de bem e cumpridoras.
Alegadamente, todo este “fartar vilanagem”, terá sido praticado por alguns “tipos” moradores em condóminos de luxo ou em palacetes da “linha” ou da “quinta”.
Alguns. Porque outros, entretanto, puseram-se ao “fresco” ou ao “sol”, consoante os “paraísos” na terra, escolhidos.
O mal já estava feito e o Portugal “feito num oito”.
Seguiram – se Investigações, arguidos e prisões preventivas.
As comissões de inquérito, na “casa da democracia”, sucediam-se.
Foram chamados a depor, desde reguladores, ex-ministros, empresários, homens de negócios, banqueiros, gestores de méritos premiados, até investidores “profissionais de casino”, com a escola toda, graduados nas melhores universidades de renome internacional e com o domínio completo das novas tecnologias.
Já era tanta a revolta e algum “vómito” que alguém ao lado, com jeito para as cantigas ao desafio, mal rimadas, cantarolava, que tanta falta fazia, não um Salazar, mas um Marquês de Pombal.
Ainda outro, acrescentava, que era por estas e por outras, que os populistas candidatos a ditadores, começavam a proliferar cada vez mais.
“À política o que é da política, à justiça o que é da justiça”, declarava convictamente um governante, a propósito dum outro antigo colega, entretanto, preventivamente preso.
Eis quando um conceituado Professor e Juiz Conselheiro numa das muitas conferências que proferia o contradizia. “ …O que é da Justiça também é da política…”
O governante habituado a sorrir, desta vez, o sorriso saiu-lhe mais para o amarelo.
Também um já galardoado prémio Nobel da Economia, contradizia alguns “jovens turcos”, quando defendia “o que é da economia também é da política”.
Jovens “promessas” do neo-liberalismo, com uma verve inflamada, vinham defendendo o primado da economia sobre a política, com os resultados a que todos assistiam.
Entretanto nas comissões de inquérito, as audições continuavam, todos os notáveis cidadãos chamados a depor, perante os deputados do povo, eram acometidos duma doença súbita “amnésia”, eram as convenientes faltas de memória a fazer das suas e a requerer com urgência a presença dum neurologista.
Foi confrangedor e até patético, assistir e ver, tais altos responsáveis, a serem acometidos do mesmo mal, amnésia, que já parecia quase uma “pandemia”.
A crise financeira internacional, com a queda dum dos maiores bancos mundiais, nada lhes dizia?
Continuaram a surgirem problemas pelo mundo fora, a exigirem mais líderes e políticos, que assumissem responsabilidades, com memória, do que técnicos com “amnésia”, por mais currículos que tivessem.
Existem características exigidas a um Líder, que por melhores que sejam as escolas frequentadas e os conhecimentos do digital que detenham, podem ajudar, mas não são tudo.
O carácter dum Líder que se preze, a par do bom senso e qualidades “de chefia naturais”, é também, o saber assumir responsabilidades.
E já agora terem memória, quando a hora de prestar contas, chegar, quer nas vitórias e, muito em particular, nas derrotas.
Termina-se citando Luís de Camões: “O fraco rei faz fraca a forte gente”.
Por: António Benjamim

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