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“A rádio, através do som, canaliza toda a vida universal”, afirma Tiago Ribeiro

Entre a ilha e o país no seu todo, entre o silêncio do quarto onde se ensaiam vozes e o microfone que hoje fala para milhares, Tiago Ribeiro construiu um percurso feito de palavras, escuta e pertença. Natural de São Miguel, é actualmente uma das vozes mais reconhecíveis da rádio pública nacional, levando consigo a cadência, a memória e a identidade açoriana.
Nesta entrevista ao Correio dos Açores, o comunicador da Antena 3 revisita a infância micaelense, a descoberta da rádio como lugar de criação e a transição da RDP Açores para a esfera nacional. Fala do peso das origens, da poesia possível no quotidiano radiofónico, do improviso sustentado por rigor e equipa, e da rádio como último reduto de intimidade num mundo cada vez mais visual e acelerado.
Com um discurso afectivo, Tiago Ribeiro partilha também os encontros que o marcaram, os desafios de representar os Açores no panorama mediático nacional e os sonhos que prefere não antecipar. Uma conversa sobre escuta, responsabilidade e amor ao ofício, onde a rádio surge não apenas como meio, mas como casa e horizonte.
Correio dos Açores: Tiago, quando pensas no menino micaelense que foi — em que momento percebeu que a palavra teria lugar central na tua vida?
Tiago Ribeiro (locutor da rádio Antena 3) – Essencialmente, através dos outros. São sempre as palavras dos outros que nos encaminham perante nosso próprio pensamento. A nossa passagem por este mundo seria bem mais triste se à vida não oferecêssemos, todos os dias, um larguíssimo conjunto de palavras ao mundo.

Lembras-te da primeira vez que ouviste rádio e pensaste: “Eu quero estar desse lado da voz”?
Não creio haver um momento, assim, com esse carácter imediato em que isso seja o gatilho para o que alguém vai fazer o resto dos seus dias no mundo. Foi crescendo, foi coisa que foi crescendo e, dentro de mim, a pequena voragem de ouvir cada vez mais rádio e de, nisso, surgir um processo muito comum em várias artes, a mimetização, no lugar do meu quarto e do meu íntimo, surgiram as imitações, as vozes, a música. Tudo se foi desenvolvendo dentro de mim, gigantemente assim.

A tua passagem da RDP Açores para a Antena 3 foi um salto enorme. Como aconteceu esse convite e esse momento de transição para a rádio nacional?
Foi uma continuidade de muito trabalho. Penso pouco na qualificação ou nessa quantificação do salto. Foi uma escada, foi genuinamente uma escada realizada (e ainda a realizar, diariamente) degrau a degrau. Sei que soará a cliché, mas eles existem para prestação dos exemplos e da condição universal a que todos respondemos: tudo é evolutivo, tudo é uma sequência. E essa passagem Antena1 Açores para Antena3 entronca nesse mesmo ideal pelo qual edifico a minha vida.

Qual foi o maior desafio profissional ou emocional quando deixaste a RDP Açores e passaste a falar para todo o país?
Não deixar a decisão apagar tudo o que tinha sido o meu percurso e escolhas, até então. Os sítios maiores tendem a deixar-nos essa borracha sobre as origens. Brinco frequentemente com os meus amigos de que, efetivamente, ninguém parece ser de Lisboa. É preciso conhecer muita gente para, num determinado caso, nos apercebermos de que a sua família tem raízes seculares nesta cidade. Guardei quase todos os dias esses ensinamentos e essa riqueza de ser de onde sou. Pudesse eu deixar isso em cada um que me ouve, a certeza de que têm em mim um continuado embaixador da minha origem.

Em que medida a tua identidade micaelense — os ritmos, as pausas, os silêncios dalgumas conversas — marca o teu estilo enquanto comunicador?
Nunca pensei objectivamente sobre isso. Acredito, obviamente, haver uma qualquer toada na forma como nos expressamos. Até a escolha vocabular, os gatilhos que soltam determinadas conversas e ideias. A língua portuguesa sendo a nossa grande riqueza (e Pátria), estende-se a lugares muito fascinante dentro do cosmo das ilhas. Há, como todos sabem, aqui uma conservação gramatical muito fascinante, palavras que se não saíssem da boca aqui, já não existiriam na língua de Camões.

Ser ilhéu influencia o teu processo criativo?
Totalmente, no princípio e no fim do que sou sempre respondo pela minha identidade adquirida e trabalhada, desses dias todos de Açores dentro de mim.

És muitas vezes descrito como um poeta do microfone. A poesia para ti é um ofício disciplinado ou um estado de espírito permanente?
Não sei se isso é tão elogioso como parece, à primeira-vista. Brinco. Acho que isso terá que ver com o lugar onde executo o meu amor, a grande casa da rádio pública portuguesa. A sua diversidade, o exercício continuo de se realizar em frentes muito distantes da grande maioria das outras rádios. Vivem-se tempos do não incómodo, das duzentas músicas de seguida, dos prémios estratosféricos, das rádios a disputarem um público matinal baseado nos decibéis de risos com que são feitos. Um mercado e os seus números, puramente isso. Do outro lado da fronteira, os vários canais de rádio pública a exigirem outros padrões e obrigações, a esticar-nos também a língua portuguesa para ser um exercício pleno. A ser isso, será essa a explicação mais notória dessa poesia de microfone descrita.

Quando te escutam sentimos que há tanto do improviso como da cultura literária. O que é preparado e o que nasce no momento?
Há muita preparação na rádio. Um nível de previsibilidade que passa por uma equipa muito estruturada e altamente especializada. Da pessoa que faz a playlist, às pessoas que as programam. Depois, mais especificamente o programa que faço, o Logo Se Vê. Temos uma produtora, temos três repórteres alocados ao programa e ainda co-apresento esse show todos os dias com a Teresa Oliveira. Somos muitos e todos o programa é uma coisa nova, é um exercício de recebermos pessoas de mil e uma artes, histórias que nos interessem, protagonistas que sempre queremos revelar ao país. E isso, deverá perceber, exige muita previsão, muitas reuniões e um guião que, sendo partido muitas vezes, está lá e é um chão sólido por onde navegamos todos os dias.

Foste reconhecido pela Câmara Municipal de Ponta Delgada — como recebeste esta homenagem e o que significa para ti ser uma voz que representa os Açores no panorama nacional?
Um gesto de muito carinho da minha CMPDL, em nome do seu presidente, Pedro Nascimento Cabral, que me parece gostar de baralhar um pouco a receita clássica das homenagens que, quase sempre, surgem quando o homenageado está com os pés-para-a-cova, ou quando determinada instituição e colectividade estão nas ruas da amargura. Se eu estiver num dos dois cenários, ainda me não apercebi disso. Recebi isso com muito amor e partilha para com a minha família, em particular a minha avó que me acompanhou nessa tarde muito bonita de junho. Memórias que contam e que se guardam vida-fora.

Que significado tem para ti o Festival TREMOR, comparativamente aos que fazes cobertura radiofónica no Continente?
É a minha equipa, são as minhas gentes, é a minha ilha. Sendo um festival onde o artista, todos os anos, mais importante do cartaz é a ilha, só posso estar inteiro aqui. E isso não é antagonismo a todos os muitos outros lugares onde a Antena3, mas perceberão todos que este acontece na cidade onde nasci e manterei ligações umbilicais para sempre. Mas, reforço, há um carinho tremendo pelas pessoas que continuam deste evento, em particular o Kitas (Luís Banrezes), um homem do norte que escolheu há quase duas décadas os Açores para se estabelecer e fazer sonhar, gerar vida ai e desenvolvimento.

Há algum entrevistado ou momento radiofónico que te tenha transformado ou marcado de forma profunda?
Tenho sido abençoado pelos encontros. A rádio tem-me dado uma grande porta de circulação de gente essencial à minha vida. Sou um eterno espectador, um eterno ouvinte. Adoro descobrir os outros, saber-lhes da sua criação e processos. Como imagina, a lista que aqui podia constar encheria já algumas páginas desta edição do jornal. Mas vou contar a história do avesso: houve uma pessoa que desejei mais-que-tudo entrevistar e nunca aconteceu. Primeiro por uma série de não respostas, depois, porque lhe entrei na vida e a repetição desses convívios (eram almoços quinzenais, durante 5 anos) fizeram-me ser devolvida a ideia de por que razão não gravávamos conversas. Já não estava interessado nisso, era já a minha história e vida em comum que só a nós os dois dizia respeito. A minha admiração é tamanha por ele que, por raridade, faço esta frase absoluta: o maior escritor de canções deste país, uma das vozes mais marcantes e um verdadeiro artesão pleno, incluindo-lhe uma vida cheia e uma obra relevantíssima em toda a cultura musical do século XX. Fausto Bordalo Dias. Foram vocês que ficaram a perder.

A rádio tem uma intimidade única — é quase um sussurro. Acreditas que a relação entre locutor e ouvinte é mais próxima do que noutros meios?
Totalmente, totalmente isso. Estou num jornal a elogiar o meio dos meios, aquele que centrifuga tantos saberes e pluralidades para fazer uma coisa que é só sua. A rádio, através do som, canaliza toda a vida universal. Nela todos os ciclos do dia respeitados, nela o imediato que ainda hoje está ombro-com-ombro com qualquer rede social digital. Mas, tudo se apagando, a rádio sustenta-se, aguenta-se. Na catástrofe e nos grandes feitos, uma voz sairá do rádio para nos guiar neste mundo.

Qual é o teu ritual antes de entrar no ar? Silêncio, café, leitura, música?
Agitação plena. Encontro de equipa e agarrar um sorriso onde ele estiver para fazer a diferença na vida de alguém, todos os dias sempre isso.

Num tempo de podcasts e redes sociais visuais, onde vês o futuro da rádio tradicional?
Uma arca de Noé. A arca talvez seja a própria rádio. Não sei, ajudem-me a pensar melhor nisso.

Que conselho deixarias aos jovens açorianos que sonham um dia falar para o país, como hoje o fazes?
Apaixonem-se por uma coisa e queiram muito fazer a diferença através dessa expressão. Sejam o calceteiro que vai ao Japão mostrar essa arte. Sejam o lavrador que é agraciado com distinções de excelência de outros lugares do mundo. Sejam mesmo a diferença neste mundo, não há línguas ou fronteiras que o impeçam. Sonhem tão alto quando parece ser o tecto do próprio universo.

Há algo que ainda desejas fazer na rádio — um formato, um programa, uma experiência — que ainda não concretizaste?
Não me faria essa maldade. Deixarei a ansiedade encostada na paragem, a viagem está mesmo a acontecer. Se esta entrevista estiver a encontrar um ouvinte muito desligado, que se atreva a ir ligar um rádio e ouvir o que de lá estão a mostrar ao universo. Seja a minha rádio, seja a Asas do Atlântico, seja a Atlântida onde tudo comecei, seja onde for, ouçam rádio.

Qual é a voz que o Tiago Ribeiro ainda procura — dentro e fora de si?
Acordar amanhã e ter novas histórias para viver ao microfone. Tenho-me encontrado sempre nesse exercício circular e perfeito.

António Pedro Costa

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