Ecomuseu do Corvo desenvolveu a iniciativa “Faça uma Criança Feliz”, que decorre desde 2024 e que pretende promover a felicidade e a inclusão de todas as crianças da ilha. Na última edição foram recolhidos, com o apoio de todo o comércio local, entre 50 a 70 produtos para fornecer aos alunos do 1º, 2º e 3º ciclos. Ao ‘Correio dos Açores’, Deolinda Estevão, directora do espaço, afirma que a actividade “incentiva a compra consciente” e assume que é importante que a ideia não fique limitada apenas a alturas festivas. O local também integrou, este ano, o projecto HIGHRES, que visa habilitar as comunidades com competências para compreender, preservar, transmitir e promover a riqueza cultural
Correio dos Açores – Como surgiu a iniciativa “Faça uma Criança Feliz” e qual foi a principal motivação para a sua criação?
Deolinda Estêvão (Directora do Ecomuseu do Corvo) – O “Faça uma Criança Feliz” surgiu de forma muito natural, a partir da vontade de reforçar os laços comunitários e de criar um momento simples, mas significativo, de alegria partilhada. Não nasceu para responder a carências nem para substituir responsabilidades sociais, mas sim para afirmar um princípio essencial numa comunidade pequena como a nossa: ensinar a ser feliz fazendo os outros felizes!
Enquanto professora de formação, o trabalho com crianças e jovens sempre fez parte da minha identidade. Ao assumir a liderança do projecto do Ecomuseu do Corvo, defini desde o início que essa ligação não podia perder-se. Pelo contrário, fazia todo o sentido alargar o Ecomuseu àqueles a quem sempre me dediquei, aos meus alunos, às crianças e aos jovens da ilha, porque é junto deles que se constrói o futuro e porque acredito profundamente no valor educativo e humano desse contacto directo.
A iniciativa “Faça uma Criança Feliz” é apenas uma entre muitos projectos que desenvolvemos no espaço com crianças e jovens em idade escolar, integrando actividades educativas, culturais, e comunitárias ao longo do ano. A principal motivação é sempre a mesma: criar experiências com significado, promover o sentido de pertença e envolver a comunidade em gestos simples que deixam memórias felizes. Para nós, cuidar do património não é apenas preservar objectos ou tradições, é também cuidar das pessoas, dos afectos e das emoções que dão vida à ilha e garantem a continuidade da sua identidade.
Quais são os principais objectivos deste projecto solidário?
Os principais objectivos assentam numa lógica muito simples, mas profundamente humana: ser feliz fazendo os outros felizes. Em primeiro lugar, pretende-se promover a felicidade e a inclusão de todas as crianças, através de uma oferta simbólica feita em nome da comunidade, sem distinções, reforçando a ideia de pertença e de igualdade.
Ao mesmo tempo, a acção incentiva a compra consciente no comércio local, valorizando os pequenos negócios da ilha e criando uma dinâmica económica que beneficia todos. Há aqui uma preocupação clara em fazer bem, de forma responsável e enraizada no território.
Outro propósito central é o fortalecimento dos laços entre famílias, escola, serviços públicos e o Ecomuseu. O projecto só faz sentido porque é colectivo, porque junta diferentes actores em torno de um propósito comum e cria uma rede de cooperação real, não apenas simbólica.
Por fim, é dada uma atenção muito rigorosa à transparência em todo o processo de recolha e distribuição dos bens, garantido confiança, clareza e respeito por quem contribui e por quem recebe. No fundo, trata-se de uma ideia que transforma um gesto simples num acto comunitário com impacto emocional, social e educativo duradouro.
Há quanto tempo está a decorrer?
Decorre desde 2024, no âmbito de uma actividade geral intitulada “Férias de Natal no Ecomuseu do Corvo”. Esta última iniciou-se em 2021.
Como é que o comércio local pode fazer parte deste movimento?
O comércio local é um pilar fundamental deste movimento e participa de forma activa e responsável. As lojas aderentes, que são todas as que existem no Corvo: a loja do Cabral, a Loja da Fátima, a Mercearia Pedras e a Loja da Mãe, funcionam como pontos de recolha da iniciativa, acolhendo as caixas do “Faça uma Criança Feliz” e envolvendo directamente a comunidade num gesto colectivo de solidariedade.
Para além disso, alguns destes estabelecimentos associam-se através de descontos, o que permite que as compras sejam feitas de forma consciente e que o investimento fique na ilha, beneficiando directamente a economia local. É uma forma clara de mostrar que a solidariedade também pode, e deve, caminhar lado a lado com o apoio ao comércio de proximidade.
O Ecomuseu assegura toda a articulação logística, desde o levantamento das ofertas até à sua entrega às crianças, que acontece no âmbito da actividade “Bazar de Natal – Férias de Natal no Ecomuseu”. Esta pareceria valoriza o papel do mercado local não apenas como agente económico, mas como parte integrante da vida comunitária, demonstrando que as lojas da ilha são também espaços de compromisso social, proximidade e participação activa no bem-estar colectivo.
Quais são os desafios que a iniciativa enfrenta?
Um dos principais desafios, é garantir que o gesto não fique limitado às épocas festivas, como o Natal e que a lógica de cuidado, partilha e envolvimento comunitário tenha continuidade ao longo do ano. É fácil mobilizar atenções em momentos simbólicos, o mais exigente é manter viva esta atitude no quotidiano, de forma consistente e sustentável.
Outro desafio passa por preservar o seu carácter genuíno, evitando que se transforme num acto automático ou meramente assistencial. Isto só faz sentido enquanto gesto consciente, transparente e colectivo, onde todos sabem por que participam e qual o impacto real da sua contribuição.
Há também um trabalho constante de articulação entre diferentes entidades, famílias, escola, comércio, serviços públicos e Ecomuseu, que exige tempo, diálogo e compromisso. Num território pequeno, isso é simultaneamente uma vantagem e uma responsabilidade acrescida. No fundo, o grande desafio é este: transformar um gesto simbólico num hábito comunitário duradouro, capaz de acompanhar o crescimento dos mais novos e fortalecer, a longo prazo, os laços que nos unem enquanto comunidade.
Quantos produtos foram recolhidos?
Na última edição foram recolhidos entre 50 a 70 itens, incluindo brinquedos, livros, material escolar, chocolates e bolachas. É importante sublinhar que somos uma sociedade pequena e que o número de crianças abrangidas é reduzido. Trata-se apenas dos alunos do 1º, 2º e 3º ciclos, num total aproximado de 25 miúdos participantes, o que permite um acompanhamento muito próximo e cuidado.
Mantemos sempre o registo dos produtos por categorias, precisamente para garantir uma distribuição equilibrada, ajustada à idade da cada menina e menino. Esta atenção ao detalhe reflecte a escala da nossa população e a forma como trabalhamos: com proximidade, transparência e respeito, assegurando que cada atitude chega de forma justa e significativa a quem o recebe.
Qual o impacto que esta acção tem na vida das crianças e famílias?
O impacto que tem, e que intencionalmente procuramos que tenha, vai muito além da entrega de uma oferta. O “Faça uma Criança Feliz” gera bem-estar emocional, porque faz com que cada jovem se sinta visto, incluído e valorizado pela sua comunidade. Esse reconhecimento, sobretudo em idades tão formativas, tem um peso real na auto-estima e na forma como se relacionam com o lugar onde vivem.
Para as famílias, reforça o sentido de pertença e de confiança numa comunidade que cuida, que coopera e que se organiza de forma transparente. Não é um gesto isolado, é uma experiência partilhada que envolve o comércio, a sociedade e o museu, criando uma rede de proximidade que se sente no dia-a-dia.
Outra consequência importante é a criação de hábitos de colaboração. As crianças crescem a ver e a participar em acções colectivas, percebendo que fazer parte de uma comunidade implica também dar, partilhar e cuidar dos outros. Esse envolvimento prolonga-se naturalmente para outras actividades do Ecomuseu, criando uma relação continua, afectiva e educativa com o projecto. No fundo, pretendemos que esta iniciativa contribua para formar cidadãos mais colaborantes, empenhados em contribuir para a sua gente e para a felicidade do outro.
A comunidade tem aderido a esta iniciativa?
Sim. A adesão tem sido muito positiva, com a participação de residentes, comerciantes, visitantes e com o envolvimento de outros parceiros institucionais.
Que mensagem gostaria de deixar à comunidade
Gostaria de deixar à comunidade da ilha do Corvo um agradecimento profundo e sincero. Aqui cada gesto conta e tem um impacto real, não há participações pequenas, há apenas contributos que fortalecem a nossa rede de afectos e solidariedade.
Cada atitude, por mais simples que pareça, ajuda a manter viva a tradição do cuidado mútuo que distingue a nossa ilha.
Mais do que oferecer presentes ou organizar actividades, estamos a cultivar um património humano feito de relações, empatia e responsabilidade partilhada. Juntos, garantimos que este se mantém forte, solidário e capaz de acompanhar os nossos miúdos no crescimento, criando uma sociedade mais coesa e feliz.
O que motivou o Ecomuseu a integrar o projecto europeu HIGHRES?
O Ecomuseu do Corvo integrou o projecto europeu HIGHRES com o objectivo de reforçar a resiliência do património cultural imaterial da ilha através de metodologias inovadoras, como o storytelling digital e a gestão participativa. O museu foi seleccionado como estudo de caso, destacando tradições como o ciclo da lã, o culto do Espírito Santo, o léxico corvino e práticas agrícolas, que passaram a ser documentadas e divulgadas com ferramentas digitais.
Este projecto, financiado pelo programa Erasmus+, visa capacitar as comunidades rurais com competências para compreender, preservar, transmitir e promover a sua riqueza cultural imaterial de forma criativa e acessível, ampliando a visibilidade e a relevância destas tradições no século XXI. A experiência permitiu ainda ao Ecomuseu trabalhar em rede com parceiros europeus, garantindo que a herança imaterial continue vivo e acessível às gerações futuras.
Qual foi o contributo que o museu retirou desta integração?
A presença trouxe-nos um conjunto de contributos muito concretos e valiosos. Além de reforçar a nossa compreensão sobre o património intangível, permitiu-nos ganhar capacitação digital significativa e dominar metodologias para criar narrativas audiovisuais que dão voz às tradições locais através de ferramentas contemporâneas.
Passámos a utilizar abordagens que envolvem activamente as pessoas como co-produtoras, integrando processos de recolha e partilha que ultrapassam o papel tradicional do museu. Promovemos inventários participativos, realizamos entrevistas de vida e dinamizamos oficinas que mobilizam a comunidade de diferentes faixas etárias, fortalecendo a ligação entre a herança, as memórias pessoais e a identidade colectiva.
Estas práticas não só ajudam a conservar expressões culturais, como rituais, saberes tradicionais e o léxico local, como também lhes dão visibilidade criativa e acessível através de histórias digitais, ampliando a participação e o conhecimento dentro e fora da comunidade.
De que forma o HIGHRES ajudou a reforçar laços entre a comunidade, património e identidade local?
Ajudou a reforçar ao consolidar um modelo de participação activa, onde os residentes deixam de ser apenas sujeitos entrevistados e passam a ser co-criadores. Através da recolha de memórias, fotografias, entrevistas de vida e actividades educativas, o programa envolveu diferentes gerações na documentação e valorização das tradições corvinas.
Esta abordagem torna-nos num espaço vivo, que não se limita a preservar objectos ou histórias, mas que reflecte as práticas, os valores e as memórias dos próprios corvinos. O resultado é uma riqueza cultural imaterial mais presente no dia-a-dia das pessoas, reforçando o sentimento de pertença, a ligação à ilha e a consciência de que cada habitante tem um papel activo na transmissão das tradições às gerações futuras.
Que resultados concretos o programa alcançou no Corvo?
O projecto HIGHRES não apenas permitiu documentar e divulgar o património imaterial do Corvo, mas também abriu novas perspectivas para melhorar o nosso trabalho no futuro. Foi elaborado um manual de boas práticas sobre identificação, gestão participativa, narrativa digital e promoção dos bens culturais que não são palpáveis, onde são analisados os trabalhos desenvolvidos e identificadas áreas de melhoria.
Além disso, existe uma área de formação online com módulos sobre narrativa digital da fortuna cultural imaterial, complementada por uma aplicação web que reúne todos os materiais adaptados ao formato de aprendizagem electrónica.
Estas ferramentas permitem ao Ecomuseu consolidar competências digitais e pedagógicas, aplicar metodologias inovadores e participativas, e continuar a envolver a sociedade de forma criativa e estruturada, garantindo que a história da ilha é preservada, transmitida e valorizada de forma sustentável.
Que impacto foi gerado a nível local e na população?
O impacto será sobretudo a longo prazo. Estas iniciativas não gerem transformações imediatas, mas proporcionam ferramentas e experiências que irão, gradualmente, aumentar a coesão social, criar oportunidades para o turismo cultural sustentável e melhorar as nossas práticas de investigação e educação patrimonial.
O estudo realizado no âmbito do HIGHRES permitiu-nos também identificar claramente as nossas áreas fortes e de melhoria. Verificamos que nos destacamos na participação activa da população, envolvendo residentes como co-criadores e fortalecendo os laços entre património, identidade e cidadania. Este reconhecimento posiciona-nos como uma referência internacional em práticas de salvaguarda do mesmo, reforçando a sua capacidade de inovar e de partilhar boas práticas com outras comunidades e museus da Europa.
Quais são os planos para o futuro?
Para o futuro, o Ecomuseu integra agora uma parceria europeia, com um projecto que se irá iniciar em Janeiro de 2026 intitulado “EcoArt- Ecomuseums and Community Museums for Climate Action and SDGs”, também financiada pelo projecto Europeu Erasmus +.
Esta experiência visa transformar os ecomuseus em centros de acção, aprendizagem e partilha de boas atitudes, onde cultura, património e sustentabilidade se cruzam. Pretende fornecer ferramentas práticas, formação online, mentoria e oportunidades de troca de boas práticas entre museus e comunidades europeias.
Entre os parceiros estão instituições da Áustria, Espanha, Polónia e Itália, incluindo o Klimabündnis Oberösterreich, La Ponte Ecomuséu, Fundacja MiLA, Università degli Studi di Milano-Bicocca e TRUCIOLI APS – Ecomuseo del Castagno dell’Etna.
Com esta parceria, pretendemos dar um passo importante para unir preservação cultural e acção ambiental, fortalecendo o seu papel como centro, envolvendo a comunidade, oferecendo experiências educativas e contribuindo para um futuro mais sustentável para a ilha e para o continente europeu.
Diogo Simões Pires
