Sandro Botelho, Fábio Costa, Rúben Metade e Ricardo Costa são atletas da equipa de futsal do Santa Clara que disputa o campeonato regional da modalidade. Recentemente, estes quatro jogadores sagraram-se bi-campeões mundiais de futsal adaptado. Ao ‘Correio dos Açores’, relembram o que sentiram pela primeira vez ao vestir a camisola da selecção, como são recebidos na selecção e deixam um apelo à AFPD: “tragam mais jovens e façam mais equipas no futsal adaptado”.
Correio dos Açores – O que é que significa para vocês serem bicampeões melhores de futsal adaptado?
Todos – Uma coisa única e muito importante para a gente, que somos os atletas que pertencem ao Santa Clara. Termos sido bicampeões é também muito importante para os Açores e vamos ver se conseguimos trazer, daqui a dois anos, o tri-campeonato.
Em termos de clube, o Santa Clara é um clube de referência a nível nacional. O é que vocês esperam agora do campeonato que vai-se iniciar em 2026?
Todos – Esperamos que as coisas corram melhor do que no ano passado. Este ano temos hipótese de vencer os vários troféus. Era muito importante para não só para nós mas também para o clube.
O Clube apoia-vos quando vocês precisam?
Todos – Temos apoio por parte do clube em tudo o que necessitamos. Se precisamos de alguma coisa, mesmo que seja algo banal, o clube é o primeiro a chegar-se à frente.
Na vossa opinião, porque é que o número de equipas que praticam futsal em São Miguel em vindo a diminuir?
Todos – Principalmente por falta de apoio financeiro. Quer por parte da associação, quer também por parte das entidades que regem o desporto.
As próprias juntas de freguesia e a Câmara também deveriam de apoiar mais as instituições. Especialmente quando chegamos a um patamar como a Terceira Divisão Série Açores, há que arranjar patrocínios. O desporto deveria de ser mais apoiado cá em São Miguel. Numa ilha tão grande, olhamos para a Terceira, por exemplo, e reparamos que o desporto lá consegue ser mais evoluído do que cá e não percebemos o porquê.
Temos grandes jogadores cá em São Miguel e, quem sabe, com mais apoio ainda poderiam aparecer mais.
Porque acham que existem tão poucos atletas no desporto adaptado?
Todos – Porque toda a gente nos vê como pessoas deficientes, apesar de não o sermos. Este é um projecto que nos foi apresentado e que nós decidimos aceitar.
Basta as pessoas virem ver os nossos jogos para perceberem como é a realidade das coisas. Já tivemos muitos adeptos de equipas adversárias que nos insultam no inicio do jogo, a dizer, por exemplo, que somos deficientes entre outros insultos, e que, quando acaba o jogo, estão a aplaudir-nos e a pedir desculpa. Hoje em dia, isto já não deveria de acontecer.
O desporto serve como meio de inclusão?
Todos – Claro que sim. Sabemos que existem pessoas que estão ao nosso lado e que têm menos capacidades do que nós e é por elas que jogamos. Para que possamos leva-las a patamares e a sítios que, sozinhas, seria muito mais difícil de chegarem lá.
Ainda se lembram do sentimento que sentiram ao vestir pela primeira vez a camisola da selecção?
Todos – Quando vesti pela primeira vez a camisola da selecção, não senti que estivesse a fazer desporto adaptado. Senti-me como se fosse uma pessoa importante
Como é que vocês foram recebidos na selecção?
Ruben Metade – Este ano foi a minha estreia e para mim foi um orgulho enorme poder representar a nossa Região e o nosso país. Receberam-me muito bem, foi como se tivesse a entrar para uma família. Recebi muito apoio, não só por parte dos meus colegas de equipa do Santa Clara, mas também por parte de todos os que integraram a selecção.
Todos – Na selecção temos uma coisa muito boa: a entreajuda que existe entre todos. Eles preocupam-se muito connosco, estão sempre em contacto connosco e há uma coisa que nos marcou a todos: lá não há distinção entre jogadores por serem de diferentes equipas. Somos uma família, somo uma selecção que representa Portugal. Já fizemos grandes amizades através desta interacção que temos.
São a única equipa de futsal adaptado que existe nos Açores. Deveria de haver mais equipas?
Todos – Antigamente já houve um campeonato regional de futsal adaptado. E não sabemos porque deixou de existir. Não sabemos se foi porque havia equipas que estavam habituadas a ser sempre elas a ganhar e agora já tinham mais competição, mas o certo é que agora já não há campeonato.
Como referimos chegaram a haver quatro equipas no campeonato regional: nós, uma do Pico, uma da Maia e outra da Terceira. E o regional tinha muita qualidade. Depois de começarmos a ganhar, o campeonato acabou. E é importante que todos os jogadores saibam que as derrotas serem para aprendermos e as vitórias também. E é assim que o desporto funciona, em qualquer modalidade.
Porque acham que existem tão poucos atletas açorianos a chegar à selecção nacional?
Todos – É uma questão de mentalidade. Há muitos jogadores que apenas jogam pelos prémios monetários e não pelo gosto à modalidade, seja ela qual for. Se formos perguntar a jogadores de grandes clubes, falamos de valores que ultrapassam os 200 euros por mês, e quando falamos com jogadores que estão em clubes onde existe mais união, os valores descem consideravelmente. E isso faz diferença.
Aqui, no Santa Clara, ninguém recebe dinheiro para jogar. E isto é muito importante. Estamos aqui apenas pela nossa vontade em querer continuar a jogar futsal. Mas temos algo que é muito importante: o nosso treinador. O mister Paulo Borges está sempre do nosso lado, e é fundamental para nós.
Gostaríamos de deixar aqui um pedido à Associação de Futebol de Ponta Delgada: tragam mais jovens para o futsal adaptado e criem mais equipas. É preciso abrir mais equipas com o escalão e sénior no futsal adaptado. Só desta forma poderemos chegar a um patamar mais elevado. Vemos muitas equipas no continente, do Norte ao Sul, sendo que no Sul tem duas ou três e no Norte deve chegar às 10. Somos um arquipélago com nove ilhas e, neste momento, somos a única equipa que tem futsal adaptado. Gostaria que os dirigentes de todos os clubes de São Miguel, e não só, pudessem pensar nessa hipótese para podermos jogar. Jogamos futsal adaptado porque é onde nos sentimos bem e é este o projecto que decidimos agarrar com unhas e dentes.
Frederico Figueiredo
