S&N Intercut Films é sinónimo de Nelson Correia e Sílvia Melo, a dupla que conquistou um espaço de destaque na produção audiovisual açoriana. Constituída em 2019, mas alimentada por uma vida inteira de paixão incondicional pelo cinema, a produtora conta com mais de 30 videoclipes com artistas regionais, enquanto na forja está uma curta-metragem e outros projectos ambiciosos. A nomeação para o Azorean International Film Festival é apenas um dos sinais de reconhecimento por um projecto que tem em Nelson Correia o seu grande pilar. Consumidor compulsivo de filmes (mais de 6.000) e literatura, e admirador confesso de Quentin Tarantino, Wes Craven ou do cinema Giallo, começou a imaginar planos e enquadramentos ainda em criança e acredita que a magia do cinema está, sobretudo, em saber manipular o espectador.
Correio dos Açores – De onde vem o seu fascínio pela Sétima Arte?
Nelson Correia (produtor de vídeo da S&N Intercut Films) – Nasci com o cinema à minha volta, porque o meu pai era apaixonado por essa arte. Ele tinha uma máquina de projecção e captação de 8 mm, antes de um leitor VHS. Além disso, levava-me muitas vezes às salas de cinema. Quando nasci, o meu pai já não tinha a máquina de projecção em funcionamento, e foi então no Coliseu Micaelense que tive o meu primeiro contacto com esse tipo de equipamento. Lembro-me de ter ficado fascinado com todo o ambiente e com os cartazes dos filmes nas portas do Coliseu. Entretanto, o meu maior fascínio pelo cinema vinha de casa, pois o meu pai era coleccionador de filmes.
Houve algum filme que lhe mudasse o rumo da vida?
Enquanto criança, o primeiro filme que verdadeiramente me marcou foi o “Demons”, um filme de terror italiano, de 1985. Não pelo filme ser muito especial, mas porque era algo que não devia de ver aos sete anos. A partir dos 15 anos comecei a frequentar os clubes de vídeo e a descobrir o “grande cinema” – filmes mais “artísticos”, franceses, alemães, etc. Algo muito importante, e que ficou comigo, é que desde criança brincava como se os meus olhos fossem uma câmara. Eu “fazia” os meus filmes assim, sem máquinas, enquanto os meus pais achavam estranho. Curiosamente, no filme inspirado na vida de Steven Spielberg, “Os Fabelmans”, vemos a personagem a fazer isso com um comboio. Digamos que é o mundo visto aos olhos de um realizador. De resto, desde novinho que era obcecado por edição, sem saber o que isso era. Eu gravava partes de filmes de cassete para cassete, misturava diálogos e compilava as minhas cenas preferidas dos filmes.
Existe, para si, o conceito de “filme perfeito”?
Já vi mais de 6000 filmes. Sei isso porque tenho uma conta no Letterboxd (rede social dedicada ao cinema). Mesmo assim, não consigo definir um conceito para “filme perfeito”. Adoro o “Cinema Paraíso”, porque é precisamente um filme sobre cinema. A mesma coisa com “Os Fabelmans” ou “A Invenção de Hugo”. Esses são os temas que me marcam mais como cinéfilo. Em temas gerais, um dos meus filmes preferidos é o “Azul”, da trilogia “Três Cores”, realizada pelo polaco Krzysztof Kieślowski, mas há uma lista infindável de filmes que me fascinam. Todavia, os melhores filmes, na minha opinião, são os de baixo orçamento, porque o realizador vê-se obrigado a engenhar.
Para agudizar o seu gosto pelo cinema, trabalhou num clube de vídeo…
Aos 18 anos tinha de arranjar emprego para ajudar em casa. Como passava a vida nos videoclubes, estava sempre a perguntar se precisavam de empregados. Acabei por ficar dez anos a trabalhar num videoclube, tempo esse que, no entanto, podia ter aproveitado para explorar outras áreas. De qualquer forma, sentia-me em casa, e a conversa diária era inevitavelmente sobre cinema. Em certo dia, o gerente da Castello Lopes Cinemas foi ao videoclube e perguntou-me se queria trabalhar como projeccionista. Foi uma oportunidade de sonho, que, no entanto, durou apenas três anos, pois a projecção em 35 mm terminou com a entrada dos sistemas digitais.
Tem formação académica na área do audiovisual?
Conclui o curso online de edição Film Editing Pro. É um curso muito bom, exaustivo, em que há videoaulas, trabalhos de casa, etc. Porém, o mais importante é percebermos que o que está por trás da edição audiovisual é a parte teórica, mais do que a parte prática, ao contrário do que as pessoas pensam. É fundamental perceber a linguagem cinematográfica quando olhamos para imagens. Por exemplo, se quisermos fazer um vídeo humorístico com um vídeo sério, temos de saber o tom certo a aplicar. Aconteceu muito isso durante o curso: enviavam-nos uma cena de acção para montarmos, e depois pediam-nos para lhe darmos um tom de comédia. Este é um dos desafios de um editor.
Já pensou em dar formação?
Estive a dar formação recentemente, mas apenas com o intuito de recrutar colaboradores para a S&N Intercut Films. No entanto, gostava de dar formação ao público em geral, porque há conhecimentos que gostava de passar a outras pessoas.
Como é constituída a orgânica da S&N Intercut Films?
Além de mim, o projecto é composto pela Sílvia Melo. Entretanto, temos parcerias com fotógrafos e organizadores, mas na área dos casamentos. Na área dos videoclipes a única parceria que temos é com a maquilhadora Raquel Silva. Eu sou o único que se ocupa desta actividade a tempo inteiro.
Como apaixonado pela literatura, é também responsável pela maioria dos guiões que acompanham os vídeos…
Gosto muito de literatura, não apenas na área do cinema, porque os livros estimulam muito a criatividade. Gosto particularmente de escritores considerados “pesados”, como Lev Tolstói, Fiódor Dostoiévski ou José Saramago, mas também Stephen King, principalmente quando aborda os assuntos de forma existencialista.
Que parte da produção de um vídeo é mais exigente?
O que me dá mais trabalho é filmar, é a parte de que gosto menos. Gosto mais de escrever. Não significa que não goste de filmar, mas quando estou a filmar o meu foco já está na edição. No fundo, para estarmos nesta área temos de ser “contadores de histórias”. Gosto de ser versátil e desafiar os meus limites. Aliás, todos temos criatividade, basta treiná-la.
Houve algum trabalho particularmente difícil de executar?
Dos 35 videoclipes que produzi desde 2019, “The Lament of Phaethon”, de A Dream of Poe, foi a minha maior e mais trabalhosa produção. No entanto, o mais complexo foi o “Recomeçar”, dos Alquimia, filmado no Teatro Micaelense. Além da enorme responsabilidade de respeitar a mística e as cores daquela sala, o sincronismo entre som e imagem tinha de ser particularmente perfeito.
Acha que o cinema actual está um pouco estéril devido à utilização excessiva de tecnologia?
Se falarmos de cinema de Hollywood, sim. Está, de facto, a limitar-se ao CGI (Computer-Generated Imagery), aos efeitos e ao blockbuster. Mas já é assim há algum tempo. Entretanto, a questão do streaming também está a influenciar essa situação. Antigamente, íamos ao cinema e só conseguíamos ver esse filme em vídeo cerca de seis meses depois. Agora é tudo muito mais rápido e tendencialmente comercial. O tipo de filme mais selectivo começa a estar cada vez mais arredado das salas de cinema.
Como aficionado dos filmes de terror, os efeitos especiais cativam-no particularmente?
Eu não gosto de CGI, por si só. Se vir um filme todo feito nestes moldes, levanto-me e vou-me embora. É preciso saber trabalhar essa técnica. Por exemplo, ainda conseguimos ver hoje em dia os primeiros dois filmes da saga “Alien” como se fossem novos. Existem ali “efeitos práticos”, mecânicos. Encontramos um CGI bem feito no “Parque Jurássico”, por exemplo. É uma mistura de stop motion (técnica de animação sequencial) e CGI. Além disso, entendo que o melhor filme de terror é aquele que cria suspense e nos faz imaginar. Não aquele muito explícito. Como exemplo, o primeiro capítulo da saga “Halloween” não mostra um pingo de sangue. O mesmo acontece com “Psycho”, de Alfred Hitchcock, na mítica cena do duche. Parece que estamos a ver alguma coisa, mas não estamos. Essa é a magia do cinema. O truque está em saber manipular o espectador.
É inevitável falar do papel da IA na produção audiovisual, e nas artes em geral. Que leitura faz do impacto que podem vir a ter essas ferramentas na criação de conteúdos?
A minha opinião é muito simples: a IA deve servir de apoio técnico. Não sou contra. No entanto, a partir do momento em que essas ferramentas nos fizerem o trabalho todo, não evoluímos em termos criativos. Aliás, a IA só vai copiar aquilo que já foi inventado. O certo é que o acesso generalizado a este tipo de ferramentas torna a questão complexa. O problema já se nota na música, como no caso dos burlões no Spotify, mas ainda não tanto no cinema. Entendo que, no futuro, o cinema será uma arte para elites, como outras. Neste momento, o cinema não é tão respeitado porque está em todo o lado, algo banalizado. Temos de nos adaptar à realidade da IA, mas, mais do que isso, é preciso desenvolver uma vontade de evoluir. Com a IA e os canais de streaming, as salas de cinema só vão conseguir atrair público se criarem algo extra-filme, uma experiência mais imersiva.
Apesar de ter feito reportagens de casamentos, foi através do heavy metal que projectou a S&N Intercut Films. Este género musical combina melhor com os seus ideais enquanto produtor de vídeo?
Tudo começou por mero acaso, numa boleia com o vocalista dos Drakh. Ele convidou-me para fazer um videoclip da sua banda e, a partir daí, estabeleci-me na vertente musical mais “pesada”. Para mim, é mais fácil criar algo relacionado com “terror” e “drama” do que com algo mais alegre. Tem que ver com a música que sempre ouvi e com o tipo de literatura que consumo. O certo é que, desde então, tenho feito imensos amigos e conhecido muitos artistas de grande talento. Só sinto pena que ainda se continue a dar demasiada importância aos artistas que vêm de fora, quando os de cá são incrivelmente talentosos. É curioso ver o espanto das pessoas quando conhecem as nossas bandas através dos videoclipes da S&N Intercut Films. O problema continua a estar na mentalidade e na opinião pública.
Que perspectivas de crescimento tem para a S&N Intercut Films?
É lógico que é um sonho ter um grande estúdio, mas esta é uma área muito dispendiosa. No entanto, são esses objectivos que nos fazem crescer. Tenho de aplicar certos preços aos meus trabalhos, caso contrário o projecto nunca irá crescer. Por exemplo, a qualidade do som é fundamental. Costumo dizer que 70% do que “vemos” é som. Se tivermos uma má imagem, ainda passa despercebido, mas se tivermos um mau som toda a gente vai reparar. Posto isto, tenho muitas perspectivas de investimento. A S&N Intercut Films vai crescer adquirindo material, informação e conhecimento na área. É preciso ser ambicioso.
Um dos seus videoclipes foi nomeado para o Azorean International Film Festival. Como está a viver o momento?
Antes de mais, este evento despertou-me particular curiosidade, não só por ser um festival, mas também por ser no Teatro Micaelense. Inscrevi o “The Lament Of Phaethon”, de A Dream of Poe, porque, essencialmente, tinha o sonho de ver um trabalho meu projectado numa sala que me é muito cara. Ganhar o prémio é-me indiferente. Ficaria feliz, mas não é esse o meu objectivo. O mais importante é continuar a trabalhar.
Entre os seus próximos trabalhos está uma curta-metragem. O que nos pode revelar a esse respeito?
Antes de mais, não me vou cingir a promoção no YouTube. Esta é uma produção de autor, com financiamento próprio, até porque tem características que obrigam a uma total liberdade criativa. Será algo muito à minha imagem, existencialista, e não propriamente vulgar. Tem a sua profundidade e filosofia. Na verdade, é uma ideia que nunca vi explorada. Posso dizer que a curta foi escrita no início do ano passado, mas parei porque ainda não tinha definido um desfecho para a narrativa. Enquadraria este trabalho nas categorias drama, suspense e humor negro. Estamos neste momento a ensaiar os diálogos, com os actores Miguel Raposo e Pedro Andrade, dois músicos conhecidos do nosso meio. O único paralelo que consigo traçar é com o filme “Aberto até de Madrugada”, escrito pelo Quentin Tarantino, em termos de desenvolvimento da narrativa. Creio que o projecto deverá estar concluído no final de Fevereiro. Depois pretendo que seja enviado para vários festivais.
O que acha que falta nos Açores para atrair pessoas para a produção cinematográfica ou audiovisual, em geral?
Têm-se feito trabalhos, e há açorianos a ir para fora da Região. Infelizmente, ainda existe a mentalidade nos Açores de que é preciso tirar um curso universitário para se ser cineasta. Porém, essa ideia está mais que rebatida, pois sabe-se que há casos de grandes realizadores, como Quentin Tarantino, que dizem que não precisavam dos cursos. Eu não tive possibilidades financeiras para isso, e mesmo que tivesse nunca senti propriamente essa convicção. Pelo que vejo, os cineastas portugueses com formação universitária dificilmente vivem desta área. Por fim, diria que não preciso de apoios financeiros para fazer os meus trabalhos. Do que preciso mesmo é de espaços para filmar. Essa tem sido a minha maior dificuldade. É frustrante contactar entidades para requisitar espaços públicos e sermos completamente ignorados. O Teatro Ribeiragrandense tem sido a excepção.
NMC
