O Natal é vivenciado por todos de forma diferente e única. Ao crescer, vamos tendo noção que a magia do Natal está nas pequenas coisas. Ao ‘Correio dos Açores, José Cabral explica qual é o significado do natal para si, que tradições familiares tem, se o consumo está a tomar conta do Natal e afirma: “Belo é confrontar-se com a palavra de Deus que se vai confirmando – o Espírito Santo renova em si todas as coisas.”
Qual é o significado do Natal para si?
Padre José Cabral – O Natal é uma época do ano que segundo a revelação cristã na qual estou inserido se celebra liturgicamente o mistério da encarnação de Cristo, o seu aparecimento no tempo e espaço com o intuito da condução do género humano à glória divina.
A celebração do Natal no nosso meio inspira-se na reunião da família. O convívio e confraternização estende-se a diversos ambientes, dos amigos ao grupo de colegas de trabalho, das escolas e demais instituições que levam a cabo festas e convívios neste sentido. Culminando na reunião fraterna da família na consoada onde acontece a troca de ofertas e presentes na alegria da confraternização com grande atenção às crianças.
Nesta época também surgem outras actividades como a visita a presépios montados para o efeito, a leitura de um conto ou história de Natal, visionamento de um filme alusivo à época e a participação em concertos de algum grupo musical como coros ou filarmónicas que trazem na beleza da música um brilho especial a este tempo.
Ocorrem também um pouco por todo o lado campanhas de solidariedade a que os corações adocicados pelo cheiro do Natal se lembram do seu semelhante que porventura pode encontrar-se em situação de necessidade. A partilha traz sempre uma alegria maior que no meu entender é indescritível e que muitos são sensíveis na generosidade.
Uma boa parte das famílias ainda banhadas pela tradição acorrem às celebrações litúrgicas, nomeadamente a missa do galo ou a do dia e a do fim de ano (Te Deum). Assim manifestam e expressam a sua fé.
O meu Natal é vivido neste contexto e abraçando estas realidades que acabo de mencionar. Não prescindo essencialmente da celebração da fé servindo o povo de Deus através das comunidades que sirvo concretamente como vigário paroquial nos Arrifes, e do convívio com os meus familiares.
Como era o Natal na sua infância?
Das minhas memórias mais vivas da minha infância o Natal era sobretudo a consoada que a minha mãe preparava com todos os familiares. Questão de honra, não podia faltar ninguém. Também à mesa não faltava lugar para alguém que à última da hora notássemos que estaria sozinho e necessitado nessa época. A troca de presentes. E a missa. Isto sempre foi o coração do Natal. Aos poucos e a crescer também o mistério da fé foi-se vislumbrando cada vez mais. A relação de fé com o divino, com o Deus menino e tornado homem, trouxe e continua a trazer um sentido de plenitude à minha existência porque o convite permanece para ser da Sua família. Filhos de Deus. Concidadãos do céu. “Esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.” – Aqueles que vivem da Palavra de Deus e da sua vontade a tem como prioritária. A beleza do Natal no meu olhar enraíza-se aqui.
Que tradições familiares tem para esta época?
Não tenho propriamente tradições. Tento entrar no espírito das tradições que me aparecem e conheço e vivo-as no encanto e na beleza que elas contém. Porém, a tradição de Natal que mais aprecio é o presépio com a sagrada família. Esta para mim é o coração de todas as tradições que conheço. Há uma frase cliché entre nós que “o Natal é quando o homem quer…, todos os dias podem ser Natal!” E neste sentido a presença apenas do menino Jesus no meu presépio lá em casa é de todos os dias é de todo o ano. Encanto-me, porém, com outras tradições de Natal, mas esta em particular é a mais querida e preferida para mim.
Há alguma tradição que mantenha até hoje? Se sim qual?
Como acabo de partilhar o Menino Jesus e a Sagrada Família no presépio são e serão sempre para mim o coração vibrante do Natal, aliás de todos os natais. Lembro que já me encontrei numa situação de ter oferecido em jeito de amizade e por apreciar muito presépios alguns presépios a uma pessoa amiga que faz colecção de presépios e que os já teve expostos lá para os lados do Nordeste por onde passei como pároco. Saber que lá estão é também celebrar o Natal com aquela pessoa e com a sua família. A propósito há uma diversidade de representações neste sentido e uma delas que tive a oportunidade de conhecer e apreciar foi a imagem de Nossa Senhora a conduzir uma “Vespa” (mota italiana) com o São José sentado na traseira do banco da mota com o menino Jesus ao colo a fugir para o Egipto ameaçados por Herodes. Encantador!!!
Na sua opinião, tem-se perdido o espírito natalício?
O espírito natalício não se perde. Transforma-se à medida que as pessoas o vivem com mais ou menos distância do seu centro que é Jesus Cristo, feito homem. As diversas realidades que as pessoas vivem e os fenómenos sociais próprios da secularização aparecem e vão-se afirmando, no meu olhar, surgem e dialogam ou apresentam-se para dialogar. Ora, assistimos e participamos na realidade comercial do Natal que se tem vindo a impor e que por mais que possa ser “brilhante”, as luzes, porque o Natal é a festa da luz, Jesus é a luz do mundo; o Natal comercial, dizia, pode também ofuscar as sensibilidades mais superficiais. Contudo nem tudo é mau. Quem sabe se esta realidade que habitualmente rotulamos de pejorativa pode suscitar no ser humano uma atenção especial para evoluir, melhorar de vida, contribuir generosamente para alguém necessitado (?)… Vivo o Natal sempre nesta perspectiva de esperança de que todas as realidades são sinais sensíveis e oportunas também para mim, para me despertar em relação aos meus mais próximos e para com Deus…, Ainda o outro dia a propósito de uma vizinha que me é próxima pela amizade, veio pedir um conselho. E o diálogo, a partilha de problemas, a postura serena, o saber esperar acabaram depois das palavras por se tornar realidade. Uma alegria e uma paz duradoura com cheiro a Natal…
Há quem diga que o Natal está muito consumista. Concorda?
O fenómeno do consumo está presente em todo o tempo do ano com outros momentos a que o comércio se apresenta mais agressivo no seu marketing com objectivos específicos e o Natal não escapa a esta realidade a que as pessoas respondem e correspondem com a sua resposta mais consumista. Na dialéctica das palavras da sua questão não é o Natal que é consumista, mas as pessoas que o podem ser ou ter uma posição de adesão a uma atitude mais consumista. É uma forma de estar e interagir na sociedade complexa onde vivemos. Como o ser humano é um ser de necessidades e para estas precisa de respostas, o consumo tem sido maioritariamente a resposta, talvez a mais fácil, de usar e que traz consigo a aproximação ao “ter”. Jesus, a sua mensagem e os valores cristãos encontram-se exactamente no extremo oposto do “ter”, porque para a alegria e sabedoria de viver conta verdadeiramente o “ser”. Traduzindo, para se ser feliz, o segredo está no “ser”. Ser generoso, ser para o outro… Muito embora o fenómeno consumista nos possa iludir no caminho da felicidade sobretudo quando nos deixamos agarrar ao “ter”. O “ter” para dar e o dar para fazer o outro “ser” é a solução. No fundo é o espírito de Natal que aqui se propõe. Propunha talvez um exercício. Imagina que não tens carteira, ou poder de compra ou mesmo nada para comprar o que ainda poderias oferecer?
Como podemos mudar isso?
Todo o tempo é oportuno para mudar. E a mudança verdadeiramente a acontecer deverá ser no olhar das pessoas. O olhar com espírito crítico para a realidade e integrá-lo com a esperança da vida eterna é ter em conta que as minhas decisões e escolhas tem repercussão para além da vida neste mundo como que tem implicações em efeito de prolongamento na outra margem da vida para a glória divina. O que ando a construir no meu viver? O que gostaria de manter? O que gostaria de alterar? O céu se fosse obra minha, como seria? O sentido do Natal passa profundamente por aqui. Dies natalis. O dia que verdadeira e inteiramente nasces para Deus, para a eternidade. O teu dia de Natal, o teu dia de nascimento para a plenitude da vida. Estás preparado para o melhor? Para aceitar o que Deus tem para ti? O teu e o meu olhar estão prontos para a mudança radical de vida que implique entrar no coração de Deus e viver da sua santidade, da sua glória? Ele, Deus está pronto para te receber e certamente te acolher como Jesus categoricamente o assumiu. Para entrardes no Reino dos Céus tereis de ser como as crianças…, simples, humildes, coração aberto…
Como podemos fazer com que as pessoas voltem a celebrar o Natal como antigamente?
Não me preocupo com o passado nem com falsos saudosismos. Porque vivemos no presente e caminhamos para o futuro. A vida é uma realidade dinâmica e em constante mudança. Então o Natal como tempo oportuno vem sempre a propósito das vivências já passadas e das que pretendemos construir no presente com os olhos no futuro. O mais inspirador na realidade do Natal, do nascimento é a expectativa, a esperança de uma nova vida na pessoa que nasce e se desenvolve e que com ela vem a novidade. O desafiante do tempo e da realidade do Natal é o dinamismo da surpresa e da novidade do tempo. Belo é confrontar-se com a palavra de Deus que se vai confirmando – o Espírito Santo renova em si todas as coisas. Convidar as pessoas que tenham um olhar novo, uma vida renovada. Fresca. Plena. Aberta ao seu semelhante, ao próximo que precisa. E Agir em conformidade. No “outro” vive um “eu”. E o “eu” é um “outro” para o “outro”. Como podes fazer feliz o “outro” que é um “eu” como “tu”? E como integras Deus que é o essencialmente e totalmente Outro e que lugar tem este no teu “eu” que tem fome de infinito?
Que mensagem gostaria de deixar nesta quadra natalícia?
Nada de novo debaixo do céu. Vaidade das vaidades. Tudo é vaidade! Só não é vaidade amar e servir. Deixo ficar uma sentença que aprendi de um sábio: “Ama, reza, trabalha e diverte-te tudo na sua justa medida”. Santo Natal!
Frederico Figueiredo
