Após oito anos desde o seu primeiro projecto, a evolução e o crescimento de Valério culminam no novo álbum do músico micaelense, intitulado “Bancos à Beira-Lua”. Em entrevista ao Correio dos Açores, o artista revela que este trabalho “explora muito mais o mundo acústico” e marca também a primeira vez em que todos os instrumentais são de produção própria: “Quando fiz o meu primeiro projecto, tinha quase nenhuma noção musical, apenas uma paixão enorme pela escrita. Neste álbum, tudo é completamente diferente”. A temática central do álbum aborda a saudade de casa, a retrospecção, o orgulho insular, diferentes formas de amor e também a frustração, oferecendo um retrato íntimo e sensível das experiências e emoções do músico.
Correio dos Açores – Como descreverias a evolução do teu som desde o último projeto até este novo álbum?
Valério (músico) – Houve um interregno de 8 anos, por isso eu diria que, no mínimo, a evolução será notória aos ouvidos de quem acompanha o meu trabalho. Cresci bastante musicalmente durante esse período e, mesmo não estando ativo publicamente, continuei sempre a criar e a explorar em busca de novas sonoridades. Há muitas, muitas músicas que escolhi não colocar no álbum, acabando por fazer uma versão condensada, para quem sabe depois ter a oportunidade de fazer, por exemplo, um Volume 2. Este álbum explora muito mais o mundo acústico e é também o primeiro álbum em que todos os instrumentais são de produção própria. Confesso que foi algo que demorou a aprender, porque quando fiz o meu primeiro projeto tinha quase nenhuma noção musical, apenas uma paixão enorme pela escrita. Neste segundo álbum, “Bancos à Beira-Lua”, tudo é completamente diferente.
O álbum tem alguma mensagem central ou temática que queiras que o público perceba?
Acima de tudo, quero que o público encontre, interprete e perceba a sua própria mensagem. É um projecto bastante eclético na sua génese, então há muitos significados a serem encontrados. Podemos ir de um hip-hop mais underground, na faixa “AZ”, que luta para conseguir marcar uma posição no panorama nacional e expor a realidade cultural insular, até um R&B romântico, na faixa “Azeviche”, que nos transporta para um amor transatlântico. O álbum começou por ser sobre a sensação de voltar a casa, à ilha, pela primeira vez após muito tempo fora, depois de se ter saído pela primeira vez. A partir daí, os outros e variados sentidos foram simplesmente crescendo. Resumindo, aborda muita coisa: essa saudade de casa, a retrospecção, o orgulho insular, vários tipos de amor, frustração. Diria que é uma jornada interior, mas também sobre aquilo que nos é adjacente
Como é o teu processo de escrita e produção? Costumas começar pelas letras ou pelo beat?
Não há nenhum processo específico. As ideias surgem e eu vou anotando-as, gravando-as, e algumas acabam por ter a sorte de continuar a ser trabalhadas e esculpidas com o tempo, outras nem por isso. Escrever e criar são, portanto, necessidades minhas para manter o meu bem-estar. Acabo por não ficar tão focado em como se dá esse processo em si; ele simplesmente acontece. Normalmente o beat surge primeiro, mas o oposto também acontece com frequência, sendo a letra a determinar qual será a melodia principal, por exemplo, que vai guiar o instrumental, e isso varia de tema para tema
Trabalhaste com outros artistas neste álbum? Como foi a experiência de colaboração?
Tive o prazer de trabalhar com alguns artistas muito talentosos, e é genuinamente a melhor parte do processo. Há sempre algo a aprender quando vemos a mestria dos outros em áreas completamente fora da nossa zona de conforto. Desde o groove da bateria do João Freitas, ao baixo do Gabriel Salles, às guitarras do João Silva, à voz da Joana Pacheco, entre outros. Existiu, de facto, essa vontade de explorar e colaborar, e acho que este disco é um pouco a porta de entrada para esse mundo acústico e colaborativo, que eu ainda não tinha aberto antes
Quais são os planos para 2026?
Quero, sem dúvida, desenvolver uma apresentação ao vivo para este álbum, criar um concerto que possa ficar na memória e destacar-se. Convidar artistas amigos e envolvidos neste álbum, poder desenvolver um espetáculo de luz e som que prenda a audiência durante o tempo de atuação. Sei que vai acontecer, só não há data marcada ainda. O outro compromisso que já fiz comigo é que não quero demorar mais 8 anos até lançar outro projecto e, deste modo, é garantido que, talvez mais em breve do que se espera, tenhamos novamente música nova minha. Para já, é desfrutar do álbum, que ficará disponível a partir do dia 28 de Dezembro.
José Henrique Andrade
