A Federação Agrícola dos Açores (FAA) expressou a sua “preocupação e indignação” perante o anúncio da Lactogal de uma redução de 3 cêntimos por litro no preço pago ao produtor, com efeito a partir de 1 de Janeiro de 2026, no território continental.
Segundo o comunicado de imprensa publicado pela FAA, “esta decisão, tomada de forma unilateral, atinge de imediato uma grande percentagem de produtores e poderá provocar uma reacção em cadeia, conduzindo a novas descidas por parte da restante indústria”. Nos últimos dias, de acordo com a nota, a FAA já tinha alertado para este cenário e, pela voz do seu presidente, pediu “bom senso” ao sector industrial, lembrando que “os preços pagos aos produtores açorianos são os mais baixos do país, deixando muitos produtores no limiar da sobrevivência, sem capacidade para suportar despesas ou investir”.
A Federação relata que a gravidade desta decisão é reforçada pelas recentes propostas de revisão da Política Agrícola Comum (PAC), que “apontam para uma redução de 20% nas verbas do próximo Quadro Financeiro Europeu (2028-2034) e para a extinção do POSEI, que seria integrado num fundo de coesão gerido pelo Estado, com perda total de autonomia regional”.
Para a FAA, a descida anunciada pela Lactogal “compromete a viabilidade económica das explorações, desmotiva os produtores, acelera o abandono da actividade e coloca em causa o futuro da produção de leite”. A Federação recorda que os preços praticados pela indústria nas ilhas “nunca acompanharam as subidas registadas no continente e na Europa, pelo que considera injustificável o argumento da suposta evolução negativa dos mercados europeus para legitimar esta decisão”.
A FAA reiterou o seu empenho na defesa dos produtores e rejeita qualquer redução do preço do leite à produção e, de igual modo, anunciou que, caso esta descida se verifique nos Açores, irá activar os mecanismos de defesa necessários para contrariar o que classifica como “uma agressão injustificada à agricultura regional”. A entidade referiu ainda que o leite produzido no arquipélago alcançou, nos últimos anos, padrões de elevada qualidade que a indústria continua, lamentavelmente, sem conseguir valorizar.
Por fim, a Federação exige respeito pelos produtores e alerta que “sem matéria-prima, a indústria não tem futuro”. Ao mencionar que a produção de carne surge como “alternativa mais fácil, mais barata e mais lucrativa”, a organização lembra que “se estamos condenados a viver juntos, não podem uns prosperar enquanto outros ficam para trás”.
“Num contexto em que tudo aumenta e há falta de mão-de-obra, como pode a indústria justificar descidas no preço do leite pago a quem produz? Para onde quer levar os produtores?”, questiona o presidente da Federação Agrícola dos Açores, Jorge Rita.
José Henrique Andrade
