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Açores e Madeira – Úteis no Mapa e Incómodos na Prática

Há uma ideia muito bonita, quase poética, inscrita na lei e repetida até à exaustão em discursos solenes. A continuidade territorial. Um conceito nobre, justo, constitucionalmente acarinhado, que garante, ou deveria garantir, que viver nos Açores ou na Madeira não transforma automaticamente um cidadão português num português de segunda. O problema é que essa ideia funciona sobretudo no papel. Na prática, no mar e no ar, a realidade é outra.
Não temos culpa de viver em ilhas. Não foi uma decisão estratégica para complicar a vida ao Estado nem um capricho exótico para encarecer serviços. Pagamos os mesmos impostos, cumprimos as mesmas obrigações, votamos nas mesmas eleições e somos chamados, sempre que convém, a reforçar a grandeza de Portugal e da União Europeia. Basta olhar para o mapa marítimo e perceber como os arquipélagos dão dimensão, peso geopolítico e importância estratégica ao país. Aí, somos muito úteis. Exemplares até.
Mas quando o assunto é transporte, mobilidade ou algo tão básico e obrigatório como o serviço postal, parece que passamos a viver algures entre o Polo Norte e uma colónia esquecida do século XIX. A continuidade territorial evapora-se. Fica o discurso. E sobra a paciência dos ilhéus.
No Natal, então, o cenário ganha contornos quase bíblicos. Encomendas que desaparecem, cartas que fazem turismo marítimo, prazos que se tornam meras sugestões. Os grandes directores e gestores, muito bem pagos e sempre criativos, surgem de cartola cheia de desculpas. O mau tempo. A lotação. A complexidade logística. Falta-lhes apenas admitir o óbvio. Dá menos lucro tratar os ilhéus como cidadãos com direitos.
Porque soluções existem. Não são mágicas. São apenas caras. Não há espaço para carga aérea numa época complicada do ano? Em vez de se encherem contentores e mais contentores de correspondência e encomendas e enviá-los de barco, condenando os clientes a esperar pelo menos uma semana pelas suas próprias coisas, porque não contratar uma empresa para realizar voos exclusivamente de carga? Custa mais do que meter tudo num contentor e despachar para o navio? Com certeza que custa. Mas isso chama-se cumprir contratos, respeitar obrigações e não colocar os interesses financeiros acima do serviço público. Tudo o resto são desculpas bem ensaiadas e mal disfarçadas.
E como se não bastasse, surge a mais recente pérola legislativa. A nova portaria sobre o subsídio de mobilidade. Aquela que agora quer exigir aos ilhéus declarações de não dívida à Segurança Social e às Finanças. Mas anda tudo doido? Querem ser mais papistas do que o Papa? Então não foi anunciado, com grande entusiasmo, que em Janeiro de 2026 a criação de uma plataforma digital teria como objectivo simplificar processos e não discriminar quem necessita de sair do seu arquipélago precisamente por dificuldades financeiras? Ou a simplificação afinal só se aplica a quem não precisa dela?
Não somos mendigos. Não pedimos favores. Exigimos direitos. Os mesmos direitos de qualquer cidadão que viva na Guarda ou em Lisboa. Sabemos que existe um mar imenso a separar-nos, mas nos dias que correm esse mar não pode continuar a ser visto como obstáculo. Deve ser uma ponte. Uma ponte aérea, marítima, logística e, acima de tudo, política.
Recuso-me a desistir. Recuso-me a ficar acomodado a este tratamento. O centralismo só beneficia quem está no centro das decisões. Se continuarem a pensar que os arquipélagos apenas dão despesa, mas ao mesmo tempo nos usarem para inflar mapas, estatísticas e discursos europeus, continuaremos a ser um país pequeno. Pequeno na visão. Pequeno na ambição. E perigosamente pequeno no respeito pelos seus próprios cidadãos.
Por: Carlos Pinheiro

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