Memória viva e eterna!
Num mundo que estava cada vez mais perigoso.
O cerco à Paz e às Instituições Democráticas apertava-se.
Tal como nos anos 20 e 30 do século passado, hoje nos anos 20 do século de todas as descobertas, global e digitalizado, eles aí estavam os sósias de Hitler e Estaline, o inferno e o demónio, como lhes cognominou Churchill.
Imprevisíveis, inconstantes, autocratas, demagogos e populistas, para desgraça da Humanidade, a liderar as maiores potências mundiais.
Esperança e luz num tempo de trevas, a encíclica do Papa Francisco intitulada Fratelli Tutti (Todos Irmãos), assinada no dia de S. Francisco de Assis, colocava o foco na Fraternidade e Amizade Social, como caminho seguro no combate às desigualdades, ao ódio e ao medo.
Vinha na linha das anteriores, mas também no substrato da Exortação Evangelli Gaudium, onde duma forma desassombrada utilizava a expressão “Esta Economia que Mata” para criticar o capitalismo sem limites, advertindo para a desigualdade e exclusão social, apelando aos políticos para que garantissem a todos os cidadãos “trabalho digno, educação e cuidados de saúde”.
Sabe-se que nalguns círculos, até da própria Igreja, este tema não foi bem recebido.
Aliás, o mesmo já tinha acontecido quando Francisco se insurgiu contra o aborto e a eutanásia, muitas vozes, não as mesmas, igualmente o tinham criticado duramente.
Alguns colunistas financeiros e até comentadores católicos, apologistas das doutrinas ultra liberais e da inevitabilidade dos poderosos mercados financeiros ficaram furiosos, chamando-lhe “marxista”.
Eis senão, quando Francisco desconcertou-os.
Decidiu visitar a Roménia, país onde apenas 5% eram católicos.
Beatificou sete bispos romenos, mártires às mãos do regime ditatorial comunista.
Na encíclica “Todos Irmãos”, Francisco criticava o individualismo, que vinha a neutralizar a noção do bem comum, que deverá ser um dos objectivos primordiais de toda a Humanidade e fez um apelo à fraternidade, rejeitando uma certa “cultura do descarte”, que mais não fazia do que retirar dignidade aos seres humanos, exemplificando com o abandono dos mais velhos, atitudes racistas, desprezo pelos miseráveis, ódio aos migrantes e aos refugiados.
Noutra passagem da encíclica, Francisco voltava a incomodar e a inquietar os espíritos mais acomodados quando criticava os que negavam os atentados ao ambiente, os que defendiam certas formas de liberalismo económico, responsável por deixar para trás os mais pobres.
O lema da Revolução Francesa “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, adoptado por diversos povos, tinha vindo a falhar ao longo dos tempos, porque deste tripé, para além de numas experiências terem dado mais enfoque na igualdade, noutros na liberdade, esqueceram sempre a fraternidade, lema entretanto recuperado pelo Papa Francisco.
Os igualitarismos, de que o comunismo foi exemplo, falharam.
Do mesmo modo os excessos do liberalismo tinham conduzido ao aumento das desigualdades e das tensões sociais e políticas.
Quer num caso quer noutro, a Fraternidade estava sempre ausente.
A globalização estava a ter como consequência, para além de todos os méritos atribuídos, o crescimento dos nacionalismos anti-imigração que começava a ter receptividade nalgum eleitorado que habitualmente votava à esquerda.
Por outro lado, estava a assistir-se a duas formas de mudar a globalização.
Através do nacionalismo de direita, que combatia o fluxo de trabalho, daí defenderem medidas contra os imigrantes.
A outra era de esquerda e de combate à livre circulação de capitais.
Na Europa, estava a criar-se um sistema de livre circulação de fluxo de capitais sem qualquer controlo e sem tributação comum, pelo que a tão falada e sempre adiada harmonização fiscal, se tornava cada vez mais premente.
O sistema de tributação penalizava as classes baixas e médias, enquanto as grandes fortunas arranjavam sempre forma de transferirem, num ápice, os seus rendimentos “para outro lado qualquer sem que ninguém ficasse a saber para onde iam parar e se pagavam ou não impostos”.
Contrapondo a esta velha luta inglória entre o capital e o trabalho, uma vez mais, a mensagem da Boa Nova de Jesus, pela Voz de Francisco interpelava o comum dos cidadãos.
Pessoas, sociedades e nações deviam – se abrir ao outro, reconhecendo a sua dignidade, promovendo o perdão e a reconciliação, rejeitando individualismos, tribalismos ou nacionalismos, que levariam ao “mundo fechado”.
As religiões continuavam a ser peça fundamental na construção da fraternidade e amizade.
Fiel à mensagem nova de Jesus e do fundamental cristão, Francisco sabia que estava a afrontar os poderosos destes novos tempos, tal como Pedro e demais companheiros, o fizeram nos primeiros anos de evangelização, afrontando a maior potência daqueles tempos, o imbatível Império Romano, mas conseguiram, e três séculos passados, a Boa Nova dava os seus frutos, e todo um colosso imperial quedava-se perante a Voz que interpelava, incomodava, inquietava e desassossegava.
Finaliza-se citando Leão XIV, sucessor de Francisco:
“A esperança cristã, à qual a Palavra de Deus remete, é certeza no caminho da vida, porque não depende da força humana, mas da promessa de Deus, que é sempre fiel”.
Por: António Benjamim