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Artigo científico alerta para a vulnerabilidade das ilhas europeias às alterações climáticas e defende políticas específicas para contextos insulares

O investigador do Instituto IVAR da Universidade dos Açores, Artur Freire Gil, integra a equipa internacional autora do artigo científico “The land use–climate change–biodiversity nexus in the perceptions of European islands stakeholders”, que analisa de forma integrada os desafios ambientais, sociais e económicos enfrentados pelas ilhas europeias num contexto de rápidas transformações globais. Com base em questionários aplicados a “stakeholders” de 21 ilhas, o estudo revela que a variação da temperatura e a desflorestação são percepcionadas como os factores mais críticos, sublinhando a necessidade de políticas públicas específicas e de estratégias ajustadas às realidades insulares.
O investigador do Instituto de Investigação em Vulcanologia e Avaliação de Riscos (IVAR) da Universidade dos Açores, Artur Freire Gil, integrou uma equipa internacional responsável pelo artigo científico intitulado “The land use–climate change–biodiversity nexus in the perceptions of European islands stakeholders”. Este trabalho analisa de forma integrada os principais desafios ambientais, sociais e económicos enfrentados pelas ilhas europeias num contexto marcado por rápidas e profundas alterações globais, resultantes da intensificação das alterações climáticas, das transformações no uso do solo e da crescente pressão humana sobre os ecossistemas.
De acordo com o estudo, para promover estratégias eficazes de adaptação e mitigação das alterações climáticas é fundamental compreender as perspectivas, percepções e lacunas de conhecimento dos “stakeholders”, isto é, todas as partes interessadas, incluindo indivíduos, grupos ou organizações que têm interesse, influência ou que são directamente afectados pelas decisões e resultados associados a políticas públicas, projectos ou actividades económicas. Esta compreensão torna-se particularmente relevante quando se trata de actores envolvidos em funções e sectores que são afectados, directa ou indirectamente, pelas alterações climáticas e pelas mudanças no uso do solo.
Com esse objectivo, o estudo baseou-se na aplicação de questionários a um elevado número de participantes distribuídos por 21 ilhas ou grupos de ilhas europeias. Esta abordagem permitiu recolher percepções locais sobre transformações ambientais em curso e sobre os seus impactos nos serviços dos ecossistemas (ou serviços ambientais), ou seja, os benefícios que a natureza fornece às sociedades humanas e que são indispensáveis à sua sobrevivência, estando intimamente associados à qualidade de vida e ao bem-estar das populações.
As visões analisadas incluíram variáveis climáticas como a temperatura, a precipitação, a humidade, a ocorrência de eventos extremos e o vento, bem como alterações no uso do solo, nomeadamente processos de desflorestação, degradação costeira, protecção de habitats, instalação de infra-estruturas de energias renováveis, preservação de zonas húmidas e outras variáveis relevantes. Foram igualmente consideradas dimensões sociais e económicas, entre as quais a proliferação de espécies invasoras, a escassez de água ou de energia, problemas de infra-estruturas, constrangimentos económicos ou medidas de austeridade, reflectindo a elevada complexidade e interdependência dos vários sistemas insulares.
Os dados recolhidos foram analisados com recurso a técnicas de “machine learning” (sistemas computacionais que permitem treinar modelos a partir de grandes bases de dados) possibilitando quantificar a importância relativa de cada variável na percepção dos impactos ambientais por parte dos participantes.
Segundo os resultados do estudo, a principal característica associada às alterações climáticas é a variação da temperatura, enquanto, no caso das alterações no uso do solo, a desflorestação surge como o factor mais relevante. Os resultados indicam ainda que os participantes tendem a percepcionar os impactos das alterações climáticas nos serviços dos ecossistemas como predominantemente negativos, sendo a destruição de habitats naturais e a perda de biodiversidade identificadas como as variáveis mais críticas.
O trabalho sublinha que, apesar das ilhas representarem apenas uma pequena fracção da superfície terrestre do planeta, “albergam mais de um terço da biodiversidade global”, o que as torna particularmente vulneráveis às alterações climáticas, à perda de habitat e à crescente pressão humana. Nesse sentido, o estudo destaca que “as ilhas europeias enfrentam desafios únicos no que respeita aos serviços dos ecossistemas, incluindo a vulnerabilidade às alterações climáticas, a perda de habitat, a poluição e a introdução de espécies invasoras”.
Outro aspecto central abordado prende-se com a pressão exercida pelo turismo e pelas crescentes necessidades energéticas. O artigo refere que os problemas relacionados com a energia, desde a escassez energética até aos desafios associados à instalação de infra-estruturas de energia eólica e solar, figuram entre os principais riscos decorrentes das alterações climáticas e das mudanças no uso do solo. Apesar do seu papel crucial na transição energética e na redução das emissões de gases com efeito de estufa, estas infra-estruturas podem contribuir para a fragmentação de habitats e para a perda de biodiversidade, ao ocuparem áreas agrícolas ou naturais sensíveis.
O estudo realça ainda a importância da dimensão social na análise dos impactos ambientais. Segundo os autores, “a percepção é uma avaliação subjectiva de um conceito ou sensação, influenciada por interesses, experiências de vida e pelo ambiente envolvente”, podendo variar de forma significativa entre diferentes ilhas e entre distintos grupos sociais. Por essa razão, defendem que “é necessária uma abordagem interdisciplinar que integre as ciências sociais, climáticas, ambientais e biológicas”, de modo a captar a complexidade dos problemas e a diversidade de perspectivas existentes.
Os investigadores afirmam que, “tanto quanto sabemos, este é o primeiro estudo que investiga de forma integrada a interacção entre as alterações climáticas, as alterações no uso do solo, a biodiversidade e as opiniões dos ‘stakeholders’ nas ilhas”, sublinhando assim a relevância científica e política do trabalho desenvolvido no contexto europeu.
O artigo conclui que as questões relacionadas com a água, a energia e os desafios associados às energias renováveis representam preocupações sérias para as partes interessadas das ilhas, sendo necessárias medidas de gestão adequadas e políticas públicas específicas para enfrentar estes problemas. Os autores defendem ainda que “podem ser necessárias políticas europeias específicas para as ilhas”, salientando a importância de integrar factores climáticos, ambientais, sociais e económicos no desenho de estratégias eficazes e sustentáveis de adaptação e mitigaação
JHA

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