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Manual do Recém-Chegado

Chegou a Portugal. Ótima escolha. A sério. É um país bonito, seguro, cheio de boa comida e com uma luz que faz milagres, sobretudo ao fim da tarde. Parece tudo simples à primeira vista. Não é. Mas também não é exatamente mau. É… diferente.
Portugal funciona. Convém esclarecer isto logo. Funciona, sim. Só não funciona como provavelmente espera. Aqui as coisas acontecem devagar, com desvios, interrupções e explicações pelo meio. Muitas explicações. Às vezes mais explicações do que acontecimentos.
Se alguém lhe disser que algo “está em análise”, aceite que acabou de entrar numa espécie de sala de espera metafísica. Pode ser rápido. Pode nunca mais ouvir falar disso. Ninguém está a ser mal-educado. É assim que se faz.
A burocracia, por exemplo, não é um problema. É um estilo de vida. Os papéis circulam, desaparecem, reaparecem, pedem outros papéis amigos e exigem carimbos que ninguém sabe bem onde se obtêm. Haverá sempre um documento em falta. Mesmo quando foi o próprio Estado que o emitiu. Especialmente nesses casos.
A habitação é outro capítulo. Viver em Portugal tornou-se um luxo silencioso. Comprar casa implica salários que não combinam muito bem com a realidade nacional e uma relação longa, profunda e algo tóxica com o banco. Arrendar é mais simples: paga-se muito, recebe-se pouco e evita-se fazer perguntas. Perguntar dá azar.
Na saúde, o Serviço Nacional de Saúde existe. E ainda bem. É um feito notável sustentado por profissionais que fazem muito com pouco e pouco descanso. Se precisar de urgência, vá prevenido. Não de doenças, mas de tempo. Leve algo para ler. Ou para refletir sobre a vida. Vai ter oportunidade.
A política portuguesa vive de anúncios. Governa-se muito em conferência de imprensa. Os problemas raramente são culpa de quem governa no momento. São heranças, contextos internacionais, crises inesperadas que, curiosamente, aparecem com uma regularidade impressionante. Fazer é importante. Dizer que se vai fazer é fundamental.
Os impostos pagam-se com pontualidade e resignação. O dinheiro segue caminho. Para onde exatamente, não se sabe ao certo. Questionar demasiado não é bem visto. O mais seguro é comentar depois, com ironia, entre amigos.
O português, enquanto cidadão, é resistente. Queixa-se, mas não grita. Revolta-se, mas adapta-se. Aprendeu a sobreviver com frases curtas: “é o que há”, “podia ser pior”, “não vale a pena”. Não é falta de coragem. É prática acumulada.
No futebol encontrará a emoção que às vezes falta noutras áreas. Um golo resolve a semana. Um erro de arbitragem explica o país inteiro. Funciona melhor do que terapia. E é mais barato.
Apesar de tudo isto, vive-se em Portugal. Vive-se mesmo. Com dificuldades, sim. Com ironia também. Entre atrasos, filas, impostos e promessas, sobra sempre tempo para um café, uma conversa e aquela convicção teimosa de que amanhã há-de ser melhor.
Não porque alguém tenha provado que será. Mas porque, por aqui, a esperança não é uma escolha. É um hábito antigo.

Seja bem-vindo!
Por: Carlos Pinheiro

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