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Crónica de viagem:“Já visitei 150 países e territórios do mundo”

O Naquichevão foi o meu 150º destino visitado. Esta nova conquista pessoal representa o crescimento de um sonho. Cada dígito oculta memórias e emoções sentidas pelo mundo fora. Acredito que nasci com o gene das viagens e respiro com a certeza de que ter nascido nos Açores ampliou o meu desejo por partir à procura de novos horizontes.
Quem crê em lendas e na narrativa bíblica tem de acreditar que a humanidade recomeçou no Naquichevão. Porque, depois de a sua Arca encalhar no Monte Ararate, logo após o dilúvio, Noé ter-se-á estabelecido nesta região pouco conhecida do Azerbaijão. Por lá, onde o topo de uma montanha poderá ter sido rachado pela quilha do histórico refúgio flutuante, muito raramente me cruzei com outros estrangeiros. Visitar o Naquichevão é entrar dentro de um mistério.
Sem quaisquer dificuldades, subi os 1500 degraus que levam até ao cume do Castelo Alinja. Situada a 1800 metros acima do nível do mar, esta fortaleza, apelidada de Machu Picchu da Eurásia, é ainda mais antiga do que a fascinante cidade perdida dos incas.
No decorrer de 2021, em plena pandemia, eu já tinha pousado a minha vista sobre terras azeris. O meu espírito indagador impulsionou-me a percorrer um temido território de snipers. Epíteto, este, atribuído à estrada que liga Baghanis a Voskepar e que sofre com espontâneos tiroteios transfronteiriços. A partir da Arménia, passei mesmo ao lado de posições militares camufladas e até pude ver um canhão apontado ao Azerbaijão que se encontrava, em certos pontos, a cem metros de distância. Ouvimos relatos de que os atiradores furtivos poderiam abrir fogo a qualquer momento, podendo atingir indiscriminadamente tanto as aldeias circundantes como os veículos que circulassem nas redondezas. Nunca tinha visto o meu marido a manobrar um automóvel de forma tão angustiada. Marcou-nos muito o convívio com o Sr. Davtyan que ajudou a financiar a publicação de uma obra controversa e que, por precaução, deu refúgio ao escritor do livro em questão. O autor de “Os Tesouros de Artsakh” temia represálias pela divulgação do seu trabalho poder ser considerada um ato político por contradizer a narrativa soviética. Cerca de dois meses antes desta primeira viagem pelo Cáucaso, na fronteira com o Naquichevão, registavam-se alguns dos combates mais intensos do pós-guerra entre a Arménia e o Azerbaijão.
Eu sei que o nome pode causar algum assombro, mas excluindo as zonas de fronteira com a Arménia, é seguro explorar o Naquichevão. No entanto, nesta república autónoma, acho que é inconveniente ostentar-se um passaporte muito preenchido com múltiplos selos de imigração. Porque, no controlo de passaportes, cheguei a temer a possibilidade ínfima de ser detida para uma investigação difícil de determinar. Senti-me incomodada com toda a demora em ser liberada, enquanto o meu marido já tinha os seus movimentos autorizados. No maior enclave sem litoral do mundo, revivi algumas situações desconfortáveis com as quais me confrontei na travessia de fronteira entre a Arménia e a Geórgia durante a pandemia de COVID-19. Este foi o único ponto desagradável de ter visitado um lugar tão fora dos roteiros comuns e pouco visitado pela comunidade internacional. Em 2021, os nossos passaportes tinham perdido a dignidade pois, por engano, foram lavados na máquina de lavar. Mas os nossos atuais documentos encontram-se íntegros, por isso, não percebi porque é que a minha identificação foi tão vasculhada e deu azo a tantos telefonemas entre diversos postos de segurança de passageiros. Todo aquele alarido seria apenas uma encenação para me alarmarem e conseguirem um possível suborno!? Os aeroportos nem sempre são um solo justo. Mesmo dentro dessas infraestruturas, a corrupção poderá subsistir tenuemente como uma tentativa de extorsão, neste caso, legada pelos soviéticos.
Antes de chegar ao Naquichevão, em outubro de 2025, estive a viajar pela região polar da Noruega. A Noruega é um país deslumbrante que representa tudo aquilo que todos os países deveriam conseguir ser. No Ártico, há realmente uma liberdade por decifrar. Dois dias antes de voar para Tromsø, o avistamento de drones não-identificados levou ao encerramento temporário do aeroporto desta capital das auroras boreais. Enquanto viajava pela Lapónia Norueguesa, o aeroporto de Oslo também foi forçado a paralisar as suas operações. Felizmente, não tive nenhum voo afetado por estas provocações russas que pretendem induzir o medo nos cidadãos europeus com as suas repetidas violações de espaços aéreos.
No final de março de 2025, quando parti numa habitual viagem, pretendia já ter alcançado esta meta de visitar 150 países e territórios do mundo. Mas a meados de maio, por vontade própria e pela primeira vez no meu percurso errante, regressei mais cedo a casa, abdicando de uma viagem ao Japão que tinha sido agendada à última da hora. Esta súbita mudança de planos deveu-se ao facto de estarmos a precisar de um urgente reajuste alimentar e também porque reparámos que a carta de condução internacional do meu marido estava caducada. Na Coreia do Sul, injetámos quantidades absurdas de açúcar no nosso organismo e ficámos enjoados com a culinária local de uma forma que nunca nos tinha ocorrido antes. Assim sendo, não fomos para Tóquio porque o Japão é também uma experiência culinária. Entretanto, antes do nosso regresso, decidimos ir visitar o Omã. Eu continuo a classificar a culinária do Médio Oriente como uma das melhores do mundo. Como não foi possível levar para o Omã o nosso carro alugado em Abu Dhabi, devido a regras mais restritas que visam a prevenção de roubos, optámos por voar para Mascate e fretar um novo veículo por lá. Alegadamente, há depoimentos sobre viaturas alugadas nos Emirados Árabes Unidos a serem furtadas no Omã e levadas para o Iémen.
Enraizado na cultura de hospitalidade omanense, o Kahwa é um ritual de boas-vindas. Neste país árabe onde abundam tamareiras, o café oferecido aos visitantes não é apenas uma bebida perfumada com água de rosas, cardamomo e açafrão.
Por entre ruínas de aldeias de barro, com séculos de história, senti a essência do antigo Omã.
A curiosidade preenche o meu mundo interior. Viajar tem sido a experiência mais gratificante da minha existência, permitindo-me assimilar a vida com mais lucidez. Por acréscimo, sou também uma verdadeira afortunada por ter um cúmplice apto a entender o que nos deve mover e com quem partilhar as sensações que borbulham do inesperado.

Cláudia Viveiros

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