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“É muito importante que a população açoriana reconheça na Universidade dos Açores uma mais-valia para o seu desenvolvimento”, afirma Susana Mira Leal, Reitora da instituição

A Reitora da Universidade dos Açores (UAc), Susana Mira Leal, faz um balanço da última década da instituição, sublinhando o reforço do investimento na investigação, a crescente projecção internacional e a aposta estratégica na renovação pedagógica, no ensino à distância e no rejuvenescimento do corpo docente. Em entrevista ao ‘Correio dos Açores’, a responsável destaca ainda o impacto da Universidade na qualificação da Região, os desafios específicos do ensino superior em contexto insular, o investimento em alojamento estudantil e as expectativas para o futuro, com especial enfoque na consolidação de áreas como a Medicina Veterinária e na ambição de leccionar integralmente o curso de Medicina nos Açores.
Correio dos Açores – Que evolução tem observado ao longo dos vários anos de vida da instituição?
Susana Mira Leal (Reitora da Universidade dos Açores) – Na última década, a Universidade dos Açores teve um impulso significativo ao nível do apoio à investigação, factor fundamental da missão da Universidade, mas também essencial para o financiamento da própria instituição e, sobretudo, para a sua projecção internacional e para o verdadeiro impacto ao nível do conhecimento científico que é produzido.
A Universidade dos Açores, embora situada numa região ultraperiférica do continente europeu, tem vindo a posicionar-se cada vez mais, de forma clara, como uma parceira valiosa para outras instituições internacionais, afirmando-se igualmente como uma instituição de referência no estudo de questões ligadas aos contextos insulares, aos ambientes naturais, à biodiversidade, à ecologia e ao mar.
Para além disso, a Universidade dos Açores tem vindo a crescer na sua projecção internacional através da captação de um número crescente de estudantes em mobilidade, que escolhem a nossa instituição para realizar os seus estudos, reconhecendo nela o valor que tem para a sua formação em diversas e variadas áreas.
Adicionalmente, tem captado estudantes de grau provenientes de outras instituições nacionais e estrangeiras, que representam cerca de 25% da população estudantil da nossa academia, demonstrando que a Universidade dos Açores, apesar de se localizar numa região insular, consegue projectar cada vez mais a sua imagem e a sua mais-valia em termos de formação e investigação para fora da Região.

Desde que exerce funções como Reitora da Universidade dos Açores, que medidas estruturantes destaca e quais são os momentos mais marcantes do seu mandato até à data?
No contexto da instituição, temos feito um investimento significativo na renovação da nossa capacidade pedagógica e na capacitação da nossa academia, quer ao nível dos recursos humanos, quer ao nível dos recursos técnicos, nomeadamente para o ensino à distância.
Hoje, as instituições de ensino superior enfrentam desafios demográficos complexos, com uma redução previsível e cada vez mais visível do número de estudantes jovens a aceder ao ensino superior. A Região continua a registar uma diminuição progressiva do número de estudantes jovens a aceder à formação superior e, nesse contexto, também o mercado de trabalho, a sociedade e as necessidades de inovação e desenvolvimento, quer público, quer empresarial, exigem uma permanente qualificação e requalificação dos recursos humanos que têm ao seu serviço.
Torna-se, por isso, fundamental que a Universidade seja capaz de renovar a sua oferta formativa, introduzindo cada vez mais ofertas que permitam a aquisição de competências especializadas, quer ao nível da formação de grau, quer ao nível da formação não conferente de grau. É igualmente essencial a capacidade de vencer a descontinuidade territorial e de chegar a todos os açorianos, nas várias ilhas, para que, podendo conciliar com a sua vida pessoal e profissional, possam actualizar as suas competências e garantir não só o seu desenvolvimento pessoal e profissional, como também um maior impacto local no desenvolvimento das empresas e do sector público nas diferentes ilhas. O mesmo se aplica à capacidade de chegar mais longe, captando cada vez mais estudantes estrangeiros e estudantes nacionais para a sua formação em regime de ensino à distância.
Para além disso, temos vindo a trabalhar na renovação do nosso quadro técnico e de investigação. Nos últimos dois a três anos, a Universidade contratou cerca de 30 docentes investigadores para o quadro. Estes novos docentes investigadores não só permitem o rejuvenescimento do corpo docente da instituição, como também trazem novas valências científicas, novas experiências e vivências académicas e profissionais, que enriquecem significativamente a capacidade da Universidade de se pensar em permanente renovação, fazendo face aos desafios que a contemporaneidade nos coloca e que o futuro, certamente, nos colocará.
Do ponto de vista técnico, a renovação dos nossos quadros e a aposta crescente em profissionais com níveis mais elevados de qualificação ao nível do ensino superior têm permitido reforçar a capacidade de resposta dos serviços e prestar um melhor atendimento, quer à comunidade académica, quer à comunidade externa.
A Universidade está também a investir em projectos estratégicos de consolidação de formações que tem vindo a desenvolver há muitos anos, designadamente cursos de natureza preparatória. Um exemplo evidente, que tem mobilizado grande parte dos nossos esforços e energias para projecto de implementação a curto prazo, é o da Medicina Veterinária, área em que a Universidade já lecciona e assegura os dois primeiros anos do curso desde 2002/2003, preparando-se agora para poder oferecer toda a formação do Mestrado Integrado na própria instituição. Para esse efeito, um dos projectos de investimento que está a ser programado é, designadamente, a construção do Hospital Veterinário Universitário no Pólo de Angra do Heroísmo.
É igualmente público que a Universidade tem investido fortemente no apoio aos seus estudantes, nomeadamente no que respeita ao alojamento, sabendo que este constitui um enorme desafio para as famílias e para os estudantes e que, no caso de uma instituição situada numa região insular, assume dimensões acrescidas. Em breve, contamos poder disponibilizar à nossa comunidade estudantil mais de 220 camas distribuídas pelos três polos, aliviando os encargos financeiros das famílias e criando condições para que outros estudantes possam escolher a Universidade dos Açores, com acesso a alojamento mais acessível e adequado às suas capacidades financeiras.
Temos igualmente vindo a investir de forma consistente no combate ao abandono escolar e na promoção do sucesso académico, quer através da inovação pedagógica, quer por meio de estratégias e programas próprios de integração, acolhimento e apoio aos estudantes.
Por fim, também ao nível da saúde mental, uma área cuja importância para o bem-estar e o sucesso académico é cada vez mais reconhecida, a Universidade tem vindo a desenvolver, através de financiamento competitivo junto da Direcção-Geral do Ensino Superior, projecto específicos, quer nos seus campus, quer nas residências estudantis.

Como avalia a situação actual do ensino superior e, em particular, da Universidade dos Açores?
O contexto nacional do ensino superior é, desde logo, marcado por uma grande dispersão de instituições no território. Existem actualmente mais de 60 instituições de ensino superior em Portugal, mais de 30 das quais públicas, e uma das questões que se coloca de forma permanente é a necessidade de reforçar o financiamento às instituições e à ciência no nosso país, de modo a garantir que tenham capacidade para enfrentar os desafios da competitividade internacional e, simultaneamente, renovar, investir e inovar nos seus processos formativos e de investigação.
Esta realidade é ainda mais acentuada no caso da Universidade dos Açores e da Universidade da Madeira, enquanto universidades localizadas em regiões insulares, às quais acresce um conjunto de factores que agravam não só o funcionamento das instituições, mas também a necessidade de disporem de meios adicionais para reforçar a sua capacidade competitiva nos contextos nacional e internacional.
Existem, igualmente, aspectos fundamentais relacionados com a necessidade de qualificação de quadros superiores no nosso país. Portugal tem vindo a crescer no aumento da população qualificada, mas há ainda um caminho significativo a percorrer para convergir com os objectivos europeus e com a média no contexto europeu. Esta realidade obriga-nos a pensar cada vez mais em medidas que apoiem as famílias no processo de qualificação dos seus jovens e dos próprios adultos, bem como na necessidade de sensibilizar famílias e jovens para a importância e a mais-valia da qualificação.
Por outro lado, é essencial dispor de um tecido empresarial cada vez mais competitivo e robusto, capaz de absorver pessoal qualificado de forma condigna e consentânea com as expectativas de desenvolvimento profissional e de carreira, de modo a travar a emigração crescente de jovens qualificados e até doutorados para outros países, o que representa uma perda de massa crítica fundamental para o desenvolvimento da nossa economia, da nossa sociedade e da nossa cultura.
Nos Açores, esta situação é ainda mais evidente, uma vez que os indicadores de qualificação superior na Região são significativamente mais baixos do que no contexto nacional. Torna-se, por isso, fundamental que o tecido empresarial tenha capacidade para atrair e reter jovens qualificados, que as famílias invistam na formação dos seus mais novos e que o Governo implemente medidas cada vez mais consistentes de incentivo à formação superior dos nossos jovens.
Para além disso, é necessário percorrer caminhos ao nível do financiamento das Universidades dos Açores e da Madeira, introduzindo factores que assegurem maior sustentabilidade a estas instituições, reforcem a sua capacidade de actuação e promovam maior justiça no contexto do financiamento do ensino superior nacional. Embora o financiamento seja distribuído de acordo com critérios comuns, a realidade destas instituições é substancialmente diferente da do continente, o que impõe um olhar diferenciado que permita compensar os factores contextuais penalizadores, garantindo condições efectivas de desenvolvimento e crescimento.
Importa sublinhar que esta questão não é apenas relevante para as próprias instituições, mas sobretudo para as comunidades em que se inserem, para a coesão territorial e social do país e para o desenvolvimento económico nacional.

Quais são as suas expectativas para o futuro da Universidade dos Açores e qual o legado que gostaria de deixar?
As expectativas para a Universidade dos Açores são as de que, tal como ao longo destes 50 anos, continue a ter uma capacidade crescente de se analisar de forma permanente, de reflectir continuamente sobre as suas missões e de procurar, em continuidade, maximizar e potenciar as suas capacidades ao serviço da comunidade, em interacção com os diversos parceiros. Esse percurso deve assentar num investimento permanente no ajustamento da oferta formativa e na adaptação dessa oferta e da investigação aos desafios sociais, que são contínuos, exigentes, muitas vezes imprevistos e acelerados, e que exigem das instituições uma agilidade de adaptação cada vez mais eficiente e eficaz.
É igualmente fundamental que a Universidade potencie os investimentos que têm vindo a ser realizados na qualificação e renovação do seu corpo docente, na inovação pedagógica e na capacitação para o ensino à distância, precisamente para concretizar a renovação do seu projecto formativo. Esse projecto é também reforçado pela integração na aliança europeia de que a Universidade faz parte, que reúne universidades com competências complementares, permitindo aprofundar a capacitação própria e, simultaneamente, alargar a oferta formativa em parceria, captar novos públicos e responder de forma mais eficaz a alguns dos desafios e especificidades da nossa Região. Importa ainda sublinhar que esta aliança integra universidades de regiões insulares, costeiras e portuárias, com realidades em muitos aspectos semelhantes às nossas.
É também essencial que o caminho de consolidação das formações preparatórias da Universidade se afirme no futuro. Estamos a trabalhar na área da Medicina Veterinária, mas é fundamental avançar e alargar este modelo a outras áreas formativas, designadamente à Medicina Humana. Neste domínio, é crucial que a Universidade dos Açores e o Governo dos Açores actuem de forma estratégica, consistente e célere, garantindo a concretização do centro académico e clínico na Região e a materialização do hospital universitário, de modo a que o curso de Medicina possa vir a ser leccionado na íntegra na nossa instituição. Este avanço permitirá também reforçar a capacidade de atracção e fixação de médicos e de outros profissionais de saúde na Região.
Paralelamente, torna-se indispensável prosseguir o caminho de renovação e investimento nas infra-estruturas da Universidade, que carecem de investimento contínuo, articulando esse esforço com as exigências da sustentabilidade ambiental e da eficiência energética, e aprofundando as medidas necessárias para atingir níveis cada vez mais elevados de sustentabilidade ambiental institucional.
Por fim, é fundamental reforçar o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pelas unidades de investigação na ligação ao sector empresarial e na transferência de conhecimento com impacto económico e inovador nas empresas. Importa também incentivar docentes, investigadores e estudantes de doutoramento a pensarem cada vez mais em projecto empresariais, nos quais possam integrar a investigação que desenvolvem, potenciando a sua transferência efectiva para a sociedade.

Gostaria de deixar uma mensagem aos nossos leitores nos 50 anos da Universidade dos Açores?
A Universidade dos Açores surgiu para contribuir para o desenvolvimento da Região e, de facto, ao longo destes 50 anos, é evidente o papel que tem desempenhado na qualificação de quadros, no investimento em ciência, no desenvolvimento do conhecimento, na internacionalização e na projecção dos Açores além-fronteiras. Este é o legado da Universidade, que é de todos nós, para a Região e para os açorianos.
É, por isso, fundamental que os açorianos olhem permanentemente para a instituição, a acarinhando, mas também sendo exigentes, no sentido de fazerem chegar as suas necessidades, os seus anseios e as suas preocupações. É muito importante que a população açoriana reconheça na Universidade dos Açores e na sua capacidade formativa uma mais-valia para o seu desenvolvimento, para o desenvolvimento das várias ilhas e dos diversos concelhos, bem como para o desenvolvimento pessoal e individual das pessoas, das organizações e das empresas da Região.
É igualmente essencial que as nossas empresas reconheçam na Universidade dos Açores a mais-valia que esta pode trazer aos seus negócios. Existem já exemplos muito bem-sucedidos de parcerias com o sector empresarial, que geram valor acrescentado significativo para os projectos das empresas parceiras. No entanto, este processo pode e deve ser alargado e intensificado.
A Universidade dos Açores tem também de saber comunicar melhor à comunidade a ciência que produz e as mais-valias que oferece, sendo igualmente importante que a comunidade esteja cada vez mais desperta para interpelar e desafiar a Universidade a procurar respostas para os seus próprios desafios, necessidades e contextos.
A Universidade celebrou e tem vindo a celebrar estes 50 anos em toda a Região, em praticamente todas as ilhas do arquipélago. Neste contexto, deixo um agradecimento muito especial a todas as entidades que se associaram a estas comemorações e que, nos seus contextos próprios, desenvolveram e acolheram actividades que evidenciam a presença, o valor e a importância da Universidade, potenciando a sua proximidade às comunidades locais nos Açores.
Deixo também uma palavra de profundo reconhecimento a todos os que, ao longo destes 50 anos, por aqui passaram, trabalharam, estudaram e levaram mais longe o nome da Universidade dos Açores; a todos os que contribuíram para a formação dos nossos quadros e para a investigação que produzimos. É, assim, uma palavra de agradecimento a todos os açorianos e açorianas e também a toda a população fora da Região, no país e no estrangeiro, que constitui, de facto, o fundamento e o cerne da razão de ser da nossa instituição e que contribuiu para a construção das suas múltiplas missões.
José Henrique Andrade

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