Fundada por Helder Pereira e Ana Pereira, Sleep HAIbeat é uma StartUp que nasce na ilha das Flores. O projecto alia conhecimento especializado em cardiologia e medicina do sono e pretende auxiliar a comunidade nestas duas áreas. A iniciativa nasce da convicção de que cuidar do sono é cuidar do coração, como também que é possível inovar mesmo a partir de uma ilha. Ao ‘Correio dos Açores’, os criadores revelam que esperam atrair “mais visibilidade para o sector da saúde”. Ao mesmo tempo que colocam a sua experiência ao serviço do desenvolvimento local. Para o futuro, é esperado que o projecto inaugure a sua vertente turística através da abertura do primeiro alojamento
Correio dos Açores – Quem são os fundadores da Sleep HAIbeat? Qual a sua história?
Helder Pereira e Ana Pereira (Fundadores da Sleep HAIbeat) – A Sleep HAIbeat nasceu de uma mistura muito própria de saudade, coragem e visão de futuro. Durante anos vivemos uma vida intensa em Londres, exigente, acelerada, cheia de oportunidades, mas também distante daquilo que mais valorizamos.
Com um filho pequeno e trabalhos altamente especializados que consumiam grande parte do nosso tempo, começamos a fazer a pergunta que muda tudo: e se fosse possível voltar a casa?
Foi assim que surgiu a ideia de arriscar, de nos tornarmos nómadas digitais e de regressar aos Açores. O conceito de “casa” ganhou um significado mais concreto e consistente, a ilha das Flores. Escolhemo-la não apenas pelo afecto, mas também pela percepção clara de escassez de mão de obra especializada e pela convicção de que ali existia uma oportunidade real para criar, inovar e investir nas áreas que já tínhamos experiência e paixão.
O nosso próprio nome conta uma história. Sleep representa a especialidade da Ana, a medicina do sono, o descanso, o equilíbrio, a base silenciosa da saúde e do bem-estar. Beat simboliza a área da cardiologia do Helder, o ritmo, a vida em movimento. HAIbeat este esse conceito ao habitar: viver, acolher, criar espaços com propósito, ligados à vertente do turismo e à forma como se reside num lugar. HAI é, na sua essência, aquilo que nos une: Helder, Ana e Isaac. O nosso filho é a maior fonte de inspiração, força e resiliência, o motivo pelo qual escolhemos abrandar, voltar e construir algo com sentido, impacto e futuro.
Em que é que consiste este projecto? Qual o seu objectivo?
Ambos: A base seria podermos, através do freelancing, continuar a oferecer os nossos conhecimentos e especialidades no ramo da nossa especialização como técnicos de diagnóstico e terapêutica para empresas internacionais e trabalhar digitalmente nos sectores que tanto estávamos acostumados. Ao mesmo tempo como background investirmos em turismo local e rural nas Flores.
O que é o levou a criar uma empresa deste carácter nos Açores, principalmente nas Flores?
Ana Pereira (Fundadora): Eu como socia fundadora e natural daqui, tinha muita vontade de poder um dia regressar, agora, para mais, com um filho pequeno e cheio de energia, adoraria que ele pudesse vivenciar a liberdade de crescer livre sem os riscos de uma grande cidade. A oportunidade também muito se deveu ao facto de os meus pais nos doarem uma propriedade em ruínas. Desde pequena, que digo que adorava viver lá e remodelar aqueles palheiros em pedra vulcânica. Vivendo longe, é uma tarefa difícil senão inexequível. Tenho a agradecer-lhes esta oportunidade que inicialmente foi vista como hipótese de se tornar a nossa residência permanente. Desta forma, como casal, tomamos a decisão de dar dois anos à ilha e devagar devagarinho cá nos vamos habituando.
Helder Pereira (Fundador): Eu, trago comigo uma história que se cruza intimamente com este território. Hoje sou o pai do Isaac, marido da Ana e genro do Honorato do Talho, mas antes disso fui também o filho da Palmira, do Faial, que alugava quartos. Muitos talvez não saibam, mas foi precisamente graças às pessoas das Flores, que se deslocavam ao Faial para consultas e tratamentos médicos, que os meus pais conseguiram ajudar-me a pagar os estudos.
Foi esse movimento silencioso de solidariedade, esse vai-e-vem de pessoas que confiavam, que acreditavam e que precisavam, que tornou possível o meu percurso. Por isso, sinto desde sempre um carinho muito especial pela zona. Acredito profundamente na lei do retorno: a quem dá, a vida encontra sempre forma de devolver. E a minha forma de retribuir é simples e sincera, colocar as minhas capacidades clínicas ao serviço das pessoas, ajudando no que puder, sempre que for necessário.
Aqui encontrei algo raro. Um sentido genuíno de comunidade, sorrisos espontâneos, disponibilidade para o outro e uma humanidade que não senti em mais nenhum lugar. Aqui, sente-se que as pessoas se vêem, se reconhecem e se cuidam. Regressar não é apenas um projecto de vida; é um gesto de gratidão. É a forma mais bonita que encontrei de devolver às Flores aquilo que, sem o saberem, me ajudaram a construir.
Como é que tem sido o feedback da comunidade?
Ambos: Achamos que a população se encontra curiosa connosco e com a nossa empresa, contudo, os nossos trabalhos têm sido de grande parte internacional e não há grande visibilidade cá. Costuma-se dizer, o segredo é a arte do negócio.
Qual é o impacto que a iniciativa tem nos Açores? E na ilha?
Ambos: Esperamos que com o desenvolvimento da nossa iniciativa e investimentos, consigamos trazer mais visibilidade na área da saúde. Sentimos que o território se encontra negligenciado nesse sector e por mais bons profissionais que o Centro de Saúde tenha e que façam tudo ao seu alcance, falta sempre de uma visão governamental futurística e alinhada com o desenvolvimento tecnológico do campo. Estamos bem atrasados e descentralizados em áreas de simples diagnóstico e monitorização.
Qual a opinião que têm sobre a qualidade de sono dos açorianos?
Ambos: Os açorianos e portugueses, no geral, são conhecidos por irem para a cama descansar muito tarde, e não priorizarem o seu descanso como um pilar. Andamos cansados e dormimos mal. Actualmente andamos todos agarrados ao telemóvel e a nossa rotina de desligar passa por longos minutos a ‘scrolling down’ a ver vídeos nas redes sociais. Absorvemos uma imensa quantidade de informação mesmo antes de dormir. O ambiente de repousar influencia muito a nossa qualidade de adormecimento. Andamos todos hiper-estimulados com tecnologias e somos, ainda, afectados por temperaturas extremas no Verão, parceiros que ressonam e ambientes não propícios a uma boa higiene de descanso.
Também temos noção do seu impacto directo, ou a falta dele, tem sobre o coração. Dormir mal não é apenas uma questão de cansaço: está associado a alterações do ritmo cardíaco, aumento da tensão arterial, maior risco de arritmias, enfarte, AVC e agravamento de doenças cardiovasculares já existentes. Um órgão destes para ser saudável precisa de um repouso reparador para recuperar, regular-se e funcionar de forma equilibrada. É aqui que nós nos complementamos com as especialidades.
O problema é que muitas vezes tratamos os sintomas, as palpitações, a hipertensão, a fadiga persistente, sem olhar para a causa. E, em muitos casos, essa causa começa à noite. Devia ser um momento em que o sistema nervoso desacelera, o ritmo cardíaco estabiliza e o organismo entra num verdadeiro estado de reparação. Quando isso não acontece, o coração vive em permanente estado de alerta.
É nesta ligação entre sono e coração que faz sentido unir conhecimento clínico, experiência prática e proximidade com a comunidade. Falar deste aspecto é falar de prevenção cardiovascular, é ajudar as pessoas a compreender que cuidar dele começa muito antes de um exame ou de um medicamento, começa nos hábitos diários, na forma como nos desligamos do mundo e nos permitimos descansar.
Trazer esta consciência para as Flores é, mais do que uma ideia clínica, é um compromisso com a saúde a longo prazo da comunidade: ajudar a dormir melhor para viver melhor, com mais energia, mais equilíbrio e um órgão mais protegido.
Que conselhos dão a quem queira melhorar os seus hábitos de sono?
Ambos: A introdução de rotinas relaxantes e regulares é um dos gestos mais simples, e mais poderosos, que podemos adoptar para proteger a nossa condição física e mental. Ensinar desde bebé que o sono é uma prioridade, que deitar cedo e dormir o tempo suficiente faz parte de um estilo de vida saudável, é investir não apenas no bem-estar imediato, mas na saúde futura.
Um adormecimento regular ajuda o coração, que também precisa de descanso e é durante a sonolência profunda que ele se regula, recupera e se fortalece, a manter um ritmo estável, contribui para o controlo da tensão arterial e reduz o risco de arritmias e outras doenças cardiovasculares.
Evitar o consumo excessivo de cafeína, limitando-a à manhã, é outro passo fundamental. Estimulantes ingeridos ao longo do dia prolongam o estado de alerta do organismo e impedem que o sistema cardiovascular desacelere naturalmente à noite.
O mesmo se aplica ao exercício físico: praticá-lo de forma regular é essencial para a vitalidade, mas deve ser evitado muito perto da hora de dormir, pois funciona como um estímulo que dificulta o descanso.
Respeitar os nossos ciclos é, no fundo, respeitar o nosso corpo. Quando dormimos bem, o nosso órgão mais importante trabalha de forma mais eficiente, a energia aumenta, o stress diminui e a qualidade de vida melhora de forma significativa.
São pequenas escolhas diárias que, somadas, têm um impacto enorme não apenas no descanso, mas na longevidade e na saúde cardiovascular. Cuidar do sono é cuidar do coração. E cuidar do coração é cuidar da vida.
Quais os maiores problemas relacionados? De que forma afectam o dia-a-dia?
Ambos: A insónia e a apneia são as doenças mais comuns. Ambas causam afectação significativa na vida do indivíduo e do parceiro. Muitos ‘divórcios do sono’, em que os casais começam a dormir em quartos separados, são causados pelo ressonar do indivíduo afectado que pode causar diversos acordares, e também pelo medo que as apneias longas causam. O parceiro, às vezes, fica em vigilância, a ver quando é que a pessoa recomeça a respirar.
A insónia é mais difícil, não conseguir adormecer e andar a revirar na cama pode ser bastante transtornante para a pessoa e também para o parceiro.
Ambas as condições requerem uma avaliação clínica especializada. A apneia requer confirmação com um estudo.
Quem são os clientes mais comuns?
Ambos: Actualmente, trabalhamos sobretudo com empresas internacionais da área da saúde, que nos contratam como freelancers, permitindo-nos manter uma ligação activa a contextos clínicos exigentes e a padrões internacionais de qualidade.
Em paralelo, estamos a dar forma a um novo capítulo do nosso percurso. Com enorme entusiasmo, esperamos inaugurar em breve a nossa vertente turística, com a abertura do primeiro alojamento, pensado com o mesmo cuidado, rigor e sentido humano que colocamos em tudo o que fazemos. Será mais do que um espaço para ficar será um reflexo da nossa forma de estar, de receber e de criar experiências com propósito.
Quais os maiores desafios que enfrenta nos dias de hoje?
Ambos: Passar das ideias à prática. Viver num meio tão pequeno e limitado é difícil. Por exemplo, encontrar empreiteiros dispostos e disponíveis a implementar as nossas ideias. Não só a mão de obra tem sido um desafio imenso, mas também os transportes de mercadorias para cá.
Em épocas altas, há pouco espaço no nosso tão conhecido Margarethe. Em épocas baixas, como o Inverno, nem sempre este navio consegue atracar no cais por causa do mau tempo e das condições marítimas. Portanto, se precisarmos de um ‘equipamento novo’, temos que ter tudo bem planeado, porque a data de entrega é estimada em dois meses e, às vezes, mais.
Ainda assim, reconhecemos e valorizamos o esforço dos nossos transitários, que fazem o melhor possível com recursos limitados e em condições nem sempre fáceis. As burocracias e sistemas digitais que não comunicam entre si também são uma frustração imensa. Para resolver um simples documento, às vezes temos que visitar todos os apeadeiros de serviços públicos. Apesar de tudo, é precisamente nestes desafios que encontramos força. Cada obstáculo ultrapassado reforça a nossa convicção, criatividade e capacidade de encontrar soluções.
Empreender aqui não é fácil, mas é profundamente gratificante. E é essa resiliência, construída dia após dia, que nos motiva a continuar.
Quantos especialistas fazem parte da equipa da Sleep HAIbeat?
Ambos: Somos só os dois, o Helder que lidera a parte do desenvolvimento dos projectos de turismo e faz freelancing na área da Cardiologia para o Reino Unido e França e a Ana que faz freelancing em Medicina do Sono para o Reino Unido e outros países da União Europeia.
O que é significa para ambos a empresa estar presente no top 5% de empresas PME de Portugal?
Ambos: Estar no top 5% das PME em Portugal é, para nós, muito mais do que um reconhecimento estatístico é a validação de uma escolha feita com o coração, coragem e muito trabalho. Sentimos um enorme orgulho no caminho que temos vindo a construir, muitas vezes fora da zona de conforto e longe das soluções óbvias.
Sim, fomos um pouco loucos. Mudámos de vida de um dia para o outro, arriscámos tudo, acreditámos numa visão e avançámos sem garantias, apenas com convicção, resiliência e vontade de fazer diferente. Ver esse esforço reflectido neste reconhecimento dá-nos energia para continuar e reforça que vale a pena acreditar em iniciativas com propósito.
E, claro, mantemos sempre os pés assentes na terra e o sorriso no rosto porque, no fim de contas, se algo não correr como planeado, temos sempre Londres!
Quais os planos para o futuro? Acreditam que existe potencial para uma expansão para outras ilhas, ou mesmo a nível nacional/internacional?
Ambos: Gostaríamos muito de ver os Açores a dar um passo firme rumo ao futuro, através da implementação estruturada de soluções de telemedicina nas áreas da medicina do sono e da cardiologia, modelos já amplamente utilizados e validados em muitos países a nível mundial. Acreditamos profundamente que a tecnologia pode aproximar cuidados, reduzir desigualdades e transformar a forma como se vive a saúde, mesmo a partir de uma ilha.
Hoje, muitos doentes com pacemakers e desfibrilhadores já são acompanhados a partir de casa, com segurança e eficácia. Pequenos ajustes, alertas precoces ou esclarecimentos podem ser resolvidos à distância, evitando deslocações desnecessárias ao hospital. Sonhamos que esta realidade possa existir de forma consistente nas nove ilhas, permitindo que os doentes não tenham de “apanhar a SATA” para ir a São Miguel sempre que surge um problema simples.
O mesmo se aplica ao processo de dormir. O tratamento da apneia e da insónia é, em grande parte, feito de forma digital noutros países, com acompanhamento contínuo e liderado por técnicos altamente especializados. Em Portugal, esta área continua muito centrada no modelo médico tradicional, mas acreditamos que o futuro passa por equipas multidisciplinares mais autónomas, com maior independência técnica e foco na proximidade ao doente.
Temos esperança de que, passo a passo, possamos adaptar-nos às melhores práticas internacionais e construir soluções ajustadas à realidade açoriana mais acessíveis, mais humanas e mais eficientes. Porque cuidar à distância não é afastar: é, muitas vezes, a forma mais próxima e justa de cuidar.
Que mensagem gostariam de deixar à comunidade?
Ambos: Antes de mais, gostávamos de deixar um agradecimento profundo à nossa família, que nos recebeu de braços abertos neste regresso. Aos nossos pais, em particular, pelo apoio incondicional aos nossos projectos, às nossas escolhas e, acima de tudo, à nossa família. Nada disto faria sentido sem essa base sólida de amor, confiança e presença.
À comunidade, o nosso reconhecimento e admiração. Por continuarem a lutar, por não cruzarem os braços, por exigirem melhores condições de saúde e uma melhor qualidade de vida, mesmo num meio pequeno e desafiante. Como o Helder costuma dizer, “Do céu só cai chuva e vento…” Tudo o resto constrói-se com esforço, união e persistência. É essa força colectiva, esse espírito de entreajuda e essa vontade de fazer melhor que nos inspira todos os dias. E é também por isso que acreditamos que vale a pena estar aqui, contribuir e caminhar juntos, com esperança, coragem e sentido de sociedade.
Diogo Simões Pires
