As presidências estão aí e ainda não sabemos quem substituirá Marcelo Rebelo de Sousa no Palácio de Belém. As sondagens não têm ajudado, pois não se reconhecem os dois candidatos que, de maneira indubitável, devem disputar a segunda volta. O carrossel de resultados desde que há anos se começou a aventar a presença de alguns proponentes, traz-nos ao momento atual. O líder da vacinação já esteve para ser o presidente da República, mas esse cargo tem-lhe vindo a fugir a cada dia que passa. Marques Mendes, que enquanto candidato apoiado pela posição tinha tudo para ser o eleito, deambula entre o terceiro e o quinto lugar, sem pouso próprio que lhe crie as fundadas expetativas. António José Seguro já esteve sozinho, lá bem no fundo, apeado do apoio do partido que liderou, e prostrado como aquele que não tem amigos, apoiantes ou conhecidos. Cotrim iria cumprir calendário e André Ventura tinha a missão de fazer barulho. Estamos quase na contagem de votos e ainda não sabemos nada.
As sondagens são conclusivas em alguns pormenores, como a percentagem dos que se dizem de determinada cor política, como estando disponíveis para votar no seu candidato, ou em outro. Isso é particularmente interessante com Marques Mendes, candidato oficialmente apoiado pelos sociais-democratas, que não consegue entrar no seu eleitorado natural. Seguro já teve piores dias, à medida que os atuais e anteriores dirigentes socialistas se chegam à frente no apoio mais ou menos formal ao seu antigo líder. Em muitos casos, não sei se personagens como o último secretário-geral acrescentam alguma coisa, ou não. Ventura parece ser aquele que tem mais sólido apoio das suas bases, carregando números impressionantes de indefetíveis do partido, que são a guarnição da sua muito provável passagem à segunda volta. E mesmo a perspetiva de vir a ser derrotado por qualquer um, é apenas isso, esperança. Se o líder da direita radical passar à segunda volta do escrutínio, estará mais perto de se tornar presidente desta república portuguesa.
Gouveia e Melo deambula entre querer fundar um partido ou passar à segunda volta. Já foi de direita e já se assumiu como o candidato oficioso dos socialistas. Já teve a eleição garantida quando dizia poucas coisas e mandava muito. Foi visto como a personagem que encaixaria na perfeição na engrenagem da passividade e incompetência nacionais, pondo com isso na ordem esta linha de montagem tradicionalmente desafinada. Acreditou-se que poderia, do alto da sua farda, legitimar uma forma de fazer política acima dos partidos políticos, como se fosse uma novidade num país cansado das mesmas caras e das mesmas formas. Afinal, rodeou-se da generalidade dos descontentes dos principais partidos políticos, algumas forças económicas mais comprometidas com o regime e um discurso que sabe e cheira a velho. Não atraí ninguém, para além de uma certa margem de descontentes que não se reveem em Ventura, não gostam dos negócios de Mendes e não acham Seguro com a voz de comando necessária para transformar alguma coisa, a partir de Belém. Admito que, neste caso, depois da aceleração que se viu nas sondagens, muitos estejam já arrependidos de não terem sido seus apoiantes de primeira hora.
Depois das legislativas nacionais e dos escrutínios regionais, os partidos à esquerda dos socialistas trazem à colação o seu enorme desacerto em compreender as circunstâncias atuais. A sua forma de afirmação pode muito bem funcionar como o passaporte para não terem, na segunda volta, um candidato da sua remota área política. A erosão de votos é contínua, e sente-se, também, com o candidato do Livre. A sua novidade parece ter sido de pouca monta, e o discurso redondo, pestilento em relação a uma panóplia grande de temas que não controla, deram o mote para o desfecho que se avizinha. Percentagens abaixo de 5%, candidatos profundamente trabalhados partidariamente, cujo trato ideológico se sobrepõe a qualquer outra função. Acabam como começaram: fora do sítio, afastados das decisões, ofuscados por um momento histórico que exige mais do que frases feitas e discursos doutrinários que poderiam ter sido feitos em 1976.
Agora, é esperar pela contagem dos votos. Esperar por uma eleição à primeira parece impossível, mas isso não existe em política. À segunda, será de vez.
Por: Fernando Marta