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Segunda volta: e agora?

As eleições presidenciais portuguesas têm esse dom curioso de revelar o país real não apenas nas urnas, mas sobretudo nos silêncios, nas ausências e nas campanhas que não chegam a acontecer. A campanha nos Açores foi, talvez, o exemplo mais acabado dessa estranheza democrática: passou ao lado dos açorianos como um navio em noite de nevoeiro cerrado. Luís Marques Mendes não teve cartazes, não houve panfletos, não houve sequer o ritual mínimo de presença simbólica do candidato que, em teoria, contava com o apoio do PSD.
Essa ausência não foi inocente nem fruto de distração logística. Resultou antes de uma espécie de boicote silencioso, conduzido por barões do PSD que, movidos por puro revanchismo interno, optaram por não apoiar o candidato. O partido que tantas vezes invoca a disciplina e a lealdade mostrou, neste episódio, a sua face mais fragmentada e ressentida. Marques Mendes, com a serenidade que lhe é reconhecida, afirmou não guardar rancor do resultado obtido. A declaração soa nobre, mas não apaga o facto de ter sido abandonado por aqueles que, pelo menos formalmente, deviam estar ao seu lado.
Durante largos meses, Luís Marques Mendes parecia caminhar para Belém com passo firme. As sondagens colocavam-no à frente, confortável, em quase todas as frentes. Havia nele uma imagem de previsibilidade e segurança institucional que agrada a um certo eleitorado cansado de sobressaltos. Mas a política portuguesa tem uma inclinação particular para as reviravoltas súbitas, e foi a partir da emergência da campanha do Almirante Gouveia e Melo que o cenário começou a mudar.
O Almirante entrou em cena com a autoridade de quem fora elevado a herói nacional durante a pandemia, e usou uma retórica dura, repetida até à exaustão, chamando a Marques Mendes “lobista” e “facilitador de negócios”. Não foi apenas um ataque pessoal; foi um golpe calculado na credibilidade moral do adversário. Num país sensível à ideia de promiscuidade entre política e interesses económicos, essas palavras tiveram um efeito devastador. O golpe foi fulminante, ainda que, ironicamente, não tenha sido suficiente para levar o próprio Almirante à segunda volta. A política, como tantas vezes acontece, puniu todos, cada um à sua maneira.
Marques Mendes assumiu a derrota com uma frontalidade rara. Disse que a derrota era sua e só sua. Num tempo de desculpabilizações permanentes, essa frase teve o peso de um ato político em si mesmo. Pode discutir-se se foi estratégia, resignação ou genuíno sentido de responsabilidade, mas não deixa de ser um contraste gritante com a cultura dominante de empurrar culpas para terceiros, sejam eles os eleitores, os media ou as circunstâncias.
Do lado do PSD, Luís Montenegro, Primeiro-Ministro e Presidente do partido, optou por uma posição de aparente neutralidade institucional. Disse respeitar a vontade do povo e, como tal, não dará indicações de voto para a segunda volta das presidenciais, que se realiza daqui a três semanas, entre António José Seguro e André Ventura. A decisão pode ser lida como respeito democrático, mas também como fuga estratégica a uma escolha incómoda. Apoiar um ou outro significaria alienar alas importantes do eleitorado e do próprio partido. A neutralidade, neste caso, é menos um gesto de elevação e mais um cálculo frio.
Entretanto, no campo socialista, assiste-se a um espetáculo que muitos classificam como de hipocrisia política sem precedentes. Muitos dos que não apoiaram Seguro surgem agora todos à sua volta. É a coreografia habitual do poder: ontem críticos silenciosos, hoje defensores entusiastas. O eleitor atento não deixa de notar a incoerência, ainda que saiba, por experiência, que a memória política em Portugal tende a ser curta.
Estas eleições presidenciais acabam por revelar um país cansado de jogos internos, de campanhas ausentes e de apoios oportunistas. Revelam também uma democracia que funciona, mas que range, sobretudo quando os partidos parecem mais ocupados com as suas guerras internas do que com o contacto real com os cidadãos. Nos Açores, como em tantas outras periferias, ficou a sensação de que a campanha não falhou por falta de meios, mas por falta de vontade. E essa, talvez, seja a derrota mais difícil de assumir.
Por: António Pedro Costa

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