O povo é soberano. Quando vota num Partido ou num Movimento de Cidadãos — cada vez mais identificado com a pessoa que lidera a candidatura — ou quando vota diretamente numa pessoa (como numa candidatura presidencial), está a exercer essa soberania.
As eleições estão cada vez mais personalizadas e a disciplina partidária conta cada vez menos e por isso é emergente a alteração do sistema eleitoral, favorecendo a introdução de círculos uninominais.
Nas Legislativas de 2025, André Ventura obteve 1.437.881 votos. Já nas Presidenciais de 2026, obteve 1.326.648 — uma diferença de menos 111.233 votos (cerca de -7,7% face a 2025).
Para a segunda volta, André Ventura poderá ter pouca margem de crescimento e, segundo várias projeções, enfrenta uma taxa de rejeição elevada. Ainda assim, estas evidências podem ser alteradas no contexto de uma segunda volta, sobretudo se se intensificar a hostilização direta de mensageiros partidários, alguns sectários, — algo que, em geral, os cidadãos não tendem a valorizar. Lembremo-nos de como André Ventura surgiu em 2019 e de como foi tratado por muitos comentadores políticos e partidários até janeiro de 2022.
A estratégia para as próximas semanas é sensível. Deixem António José Seguro e André Ventura fazerem o seu caminho. Para muitos — mesmo para muitos mensageiros — a frase “¿Por qué no te callas?” é, na prática, o melhor “apoio” para garantir a vitória de António José Seguro.
Os cidadãos sabem avaliar os silêncios e as ditas neutralidades. Perante os resultados de domingo passado, quem acredita que a orientação de voto tenha realmente funcionado no PSD, no PS ou no Livre?
A vitimização de André Ventura tenderá a tornar-se evidente, com a narrativa de que “estão todos contra ele” — o “sistema” contra si — como reação à sua posição de querer pôr fim ao que considera ser a podridão do sistema e à ideia de que, por isso, “todos” se juntam contra ele. Por isso, exige-se muita cautela e silêncio de determinados protagonistas nos próximos dias.
Importa nunca esquecer que muitos dos 1.437.881 votos que André Ventura recebeu, em tempos, foram votos depositados noutros partidos. A esmagadora maioria desses eleitores dificilmente achará graça a ouvir-se, agora, que “não respeitam o Estado de Direito”.
Quantos mais apoios partidários António José Seguro tiver, maior será o apoio do povo, não das elites partidárias, a André Ventura. Novamente, para muitos, “¿Por qué no te callas?”
Para a vitória na 2ª volta de António José Seguro basta um discurso ao centro, posições mais firmes nos assuntos que interessam aos cidadãos e aceitar os apoios dos portugueses e não dos partidos políticos. Basta-lhe manter a sua coerência, que nos tempos que correm é preciosa.
Ponta Delgada, foi por pouco Seguro
A divisão entre rural e urbano não é suficiente para explicar os resultados obtidos. As eleições autárquicas foram apenas há 3 meses. E um número substancial de votantes no domingo votou em André Ventura quando a 12 de outubro de 2025 votou PSD ou Movimento Ponta Delgada para Todos e atribuiu ao PS o terceiro lugar.
Houve uma decisão consciente na escolha entre António José Seguro — que quer ser o Presidente de todos os portugueses — e André Ventura — que quer ser o Presidente dos ditos “portugueses de bem”.
A mudança que se exige faz-se com uma nova forma de fazer política. Os comentadores dirão que a comunicação é importante — e é. Mas mais importante ainda é a proximidade com os eleitores, assente em decisões justas a favor do território e dos cidadãos. Importa também ter bem presente que os cidadãos sabem separar eleições e valorizam quem lidera a candidatura, mais do que a força política.