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Café Royal pretende preservar a sua essência e assegurar que ela continue viva para as gerações futuras

O Café Royal foi inaugurado no dia 20 de Janeiro de 1926, celebrando assim, na passada Terça-feira, o seu 100ª aniversário. Ao ‘Correio dos Açores’, o actual dono, José Maria Tavares Dias, afirma que no espaço “cruzam-se estudantes, trabalhadores, vizinhos, turistas e clientes que nos acompanham há décadas”. As mudanças na marginal, a perda de movimento no porto, o turismo e os ritmos de vida foram algumas das mudanças que o estabelecimento assistiu e que se teve de readaptar. Para o futuro, o local pretende continuar “preservar a autenticidade e garantir que as próximas gerações sintam aqui o mesmo espírito que marcou o café ao longo deste século”.
Correio dos Açores – Seria possível conhecer um pouco mais sobre a vida do Café Royal?
José Maria Tavares Dias (Dono do Café Royal) – Foi fundado em Janeiro de 1926, aqui no coração de Ponta Delgada (PDL). Foi inaugurado no dia 20 e abriu ao público no dia seguinte, começando logo a fazer parte da rotina da cidade.
Naquele tempo, estávamos praticamente encostados ao porto, que era o grande centro de vida da ilha. Desde então, o Royal nunca fechou portas, seja em tempos mais fáceis ou mais difíceis.
Em cem anos, acompanhámos a evolução da cidade, as mudanças de gerações e até as alterações da própria ilha. Costumo dizer que o Royal cresceu com Ponta Delgada e que Ponta Delgada cresceu connosco. É uma história feita dia a dia, com muitas mãos e muitos rostos.

Qual tem sido o papel do estabelecimento na vida social da cidade nos últimos anos?
Continuamos a ser aquilo que sempre fomos, um espaço onde as pessoas se encontram naturalmente. Aqui cruzam-se estudantes, trabalhadores, vizinhos, turistas e clientes que nos acompanham há décadas. Há quem entre e nem precise de falar porque já sabemos o pedido de cor. Esse tipo de relação constrói-se com o tempo e mostra o papel que o café tem na vida da zona. É um ponto de convívio, de conversa e de proximidade, onde se chega e se sente logo que faz parte da vida de quem o frequenta.

Quais foram as maiores mudanças ao longo deste tempo?
A cidade mudou muito. A marginal transformou-se, o porto perdeu movimento na zona histórica, o turismo e os ritmos do centro são outros. O Royal teve de se adaptar a tudo isso, mas sempre com cuidado para não perder a essência. Mantivemos os arcos, a pedra, a traça original e o ambiente familiar. Mudaram as pessoas, as rotinas e os horários, mas continuamos a ser um sítio onde se vem conversar, estudar, descansar ou simplesmente estar. A nossa força sempre foi essa constância.

Qual o maior desafio ao manter um espaço centenário aberto nos dias de hoje?
O maior desafio é equilibrar a tradição com o presente. Um espaço com cem anos tem história, tem peso e tem responsabilidades. Mas também tem de acompanhar o tempo, desde as exigências legais até aos novos hábitos dos clientes.
Tudo isto exige dedicação diária, manutenção constante e uma equipa que sinta esta casa como a sua. Não é fácil, mas fazemos com gosto, porque sabemos o valor que temos para tanta gente.

O que significa para vocês comemorar 100 anos de existência?
É um orgulho enorme e uma alegria muito grande. Estes cem anos não são só as histórias de um estabelecimento, são também de vidas. O Royal não é só meu, é das pessoas todas que o elegeram como ponto de referência deste território. Celebrar esta data é celebrar a cidade, as gerações que por aqui passaram e a confiança que sempre nos deram.
E, claro, é também um momento especial para agradecer à minha família, à minha esposa e aos meus filhos, que sempre me apoiaram. Sem eles, este caminho não teria sido possível.

Existiu alguma celebração ou actividade preparada para assinalar este marco?
Queremos assinalar a data com simplicidade, como é a nossa forma de estar. Teremos a porta aberta, como sempre, prontos para receber clientes, amigos e todos os que fazem parte deste percurso.
A celebração será sobretudo este encontro com as pessoas, acompanhado por um café e um bolo de aniversário oferecidos ao longo de todo o dia.

Como descreve a jornada deste espaço nestes últimos 100 anos?
A trajectória do Royal mistura-se com a própria história de Ponta Delgada. Aqui já se fizeram tertúlias políticas, conversas longas de trabalhadores do porto, horas de estudo de jovens que depois se tornaram médicos, advogados, engenheiros. Já aqui se viveu muita coisa. Sempre fomos um espaço aberto, democrático, onde entram pessoas de todas as idades e percursos. Cada um encontra aqui o seu lugar. É isso que nos define.

Com o acréscimo de turismo na cidade, quais são os impactos que o espaço tem sentido?
O turismo trouxe movimento, trouxe curiosidade e visitantes que procuram um espaço autêntico e com legado. Muitos entram aqui por recomendação ou por curiosidade e isso é muito positivo. Gostamos de receber quem vem de fora e de lhes mostrar a nossa maneira simples de estar, sem perder o ambiente familiar que os clientes habituais conhecem e apreciam.

Sente que a comunidade ainda apoia o espaço?
Apoia e muito. É algo que sentimos todos os dias. Há clientes que vêm cá há quarenta ou cinquenta anos e outros que regressam sempre que voltam à ilha. Esse carinho não se compra. É o que nos dá força para continuar com alegria e com sentido de missão. E, como sempre digo, o Royal só é Royal por causa das pessoas.

Quais os planos para o futuro?
Os nossos planos passam por continuar. Continuar a receber bem, a servir com qualidade e a manter a nossa essência. O futuro está em preservar a autenticidade e garantir que as próximas gerações sintam aqui o mesmo espírito que marcou o café ao longo deste século. Se chegámos até aqui foi porque fomos fiéis a nós próprios e às pessoas. A ideia é seguir esse caminho, com a porta aberta e com a mesma dedicação de sempre.

Que mensagem gostaria de deixar para a comunidade?
A mensagem é muito simples: obrigado. Obrigado aos clientes, aos amigos, à equipa de trabalho e também à minha família, que sempre esteve ao meu lado, especialmente a minha esposa, os meus filhos e as minhas netas. Foram eles que me deram força nos dias mais difíceis. Sem a comunidade e sem a minha família, nada disto teria sido possível. Esta casa continuará de portas abertas para todos.
Diogo Simões Pires

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