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“As aplicações nos dispositivos móveis ajudam, mas não educam”, afirma José Freire, Presidente da Associação Desliga

A Associação Desliga promoveu a iniciativa ‘Ligados com Segurança! A internet também é um vício”, no Colégio do Castanheiro como maneira de alertar os pais para os perigos que existem na internet. Esta foi apenas uma das muitas iniciativas que a Associação Desliga vem a promover quer em São Miguel, quer em Santa Maria.
José Freire, Presidente da Associação Desliga, começou por afirmar que, “na sua essência as redes sociais tornaram-se uma coisa má. As redes sociais hoje em dia afectam a vida de todos nós mesmo aqueles que não têm redes sociais”.
“O TikTok tem uma força poderosíssima Toda a gente quer ter domínio do TikTok. Vejam-se as pressões políticas e geopolíticas que há por causa de uma rede social. Os algoritmos andam completamente descontrolados. Ninguém controla os algoritmos. Nós vivemos numa situação complicadíssima a nível mundial e quem dominar as redes sociais domina o mundo”, prosseguiu.
“Nós não sabemos o que é que os nossos filhos andam a fazer quando estão em casa. E quando estão sossegados na segurança do quarto. Porque é seguro. O que está a acontecer neste momento, e outra situação que me incomoda, é que há muitos jovens que são doutrinados por influencers, sem que as mães e professoras se apercebam disso”, alertou José Freire.
Para o ex-professor, “é preciso saber o que é que os jovens andam a fazer, desde tenra realidade. Grande parte dos problemas da escola nascem dos telemóveis, da internet, e situações criadas pelos telemóveis. Se há 10 anos já era assim, hoje deve ser pior”.
“Ninguém pode responsabilizar uma rede social. Quem é controla isto? Como sabem, a Austrália proibiu as redes sociais para os alunos com mais de 16 anos e muito mais. E é uma questão de tempo. Isto é uma questão de tempo para chegar a todos os países. Da mesma maneira que proibir os telemóveis na escola. E eu espero que isso depois um dia chegue a Portugal também. E que se comece a falar nisso. Porque, efectivamente, a situação é complicada”, afirmou.

Famílias no mesmo espaço
mas não juntas

“Porque é que não há controlo parental?”, questionou José Freire, respondendo de seguida: “porque nós estamos no mesmo espaço, mas não estamos juntos. A maioria das famílias estão no mesmo espaço, mas não estão juntas. Cada um está no seu dispositivo. E está tudo no seu sossego. Oferecer telemóveis a crianças e jovens de tenra idade, sem qualquer tipo de controlo parental, é complicado. E quando eu falo de controlo parental, tem de ser visto de duas maneiras: o electrónico, através do Family Link; e o pessoal, que é o mais efectivo. É o melhor controlo parental e é essa mensagem que eu venho aqui deixar. Vocês não podem deixar na máquina, o controlo parental dos vossos filhos e a educação dos vossos filhos”.
“Fazer um controle parental efectivo dá muito trabalho. Primeiro porque a pessoa tem que efectivamente despender tempo. E segundo, óbvio, porque é que isto acontece se o meu amigo em casa dele faz isto e não acontece nada. A Internet está a afastar as pessoas. Aproxima quem está longe e separa quem está perto. A tecnologia hoje em dia, este termo novo, tecnoferência, isto é, o facto de a tecnologia interferir na nossa vida”, continuou o Presidente da Desliga.
“A tecnologia tem isolado as famílias. Não há momentos sem tecnologia. E talvez o momento sem tecnologia, seja um bom controlo parental. É fácil? Nada disso é fácil. Outro erro muito comum é pensar que o controle parental deve ficar com o telemóvel. Mas tem a Smart TV, tem o tablet, tem o computador”, afirmou José Freire.
De seguida, o Presidente da Desliga questionou os pais presentes no auditório: “pensem no quarto do vosso filho com telemóvel e sem telemóvel. E o que é que vocês metem no quarto do vosso filho quando levam para lá um telemóvel?”
Segundo José Freire, em Ponta Delgada existem muitos casos graves no que diz respeito ao sexting e ao grooming, nas redes sociais.
 ”Não se partilha fotos íntimas com ninguém. Não há entidade que tenha feito tantas sensibilizações Como nós que já corremos um pouco já um arquipélago todo fizemos um trabalho. No passado extraordinário no Conselho da Ribeira Grande desde o pré-escolar ao 6º ano fomos a todos os grupos falámos com os pais, falámos com os professores mas é um trabalho começa e tem que continuar porque não pode parar. E este ano, dentro daquilo que é a nossa parceria com a Direcção Nacional de Protecção e Combate às Dependências, vamos continuar a fazer, vamos trabalhar, somos nós que vamos trabalhar e fazer sensibilizações na Ilha de Santa Maria e na Ilha de São Miguel, também na área das dependências químicas com substância e sem substância. Somos nós que também vamos fazer isso. E vamos fazer e vamos esforçar-nos o mais que podemos. Mas se os pais não colaborarem, se não houver um controlo total e efectivo, isso não funciona”, afirmou.
De acordo com o Presidente da Desliga, o “Roblox, que é uma das nossas maiores dores de cabeça, é uma plataforma de jogos que tem milhares de jogos, e que tem jogos mais ou menos, tem jogos maus, e tem jogos horríveis”.
“O filme ‘Adolescência’ devia ter mexido com todos. Aliás o episódio que mexeu mais comigo foi o episódio 2, que se passa na escola. Porque eu senti o que estava a acontecer naquele episódio ali. Aquela inquietação, aquela violência, aquela ansiedade mexeu comigo”, alertou
Para José Freire, “andamos aqui a pedir quase a mendigar para que, por amor de Deus proibirem os telemóveis das escolas, desde a pré até ao décimo segundo ano. Eles não fazem falta nenhuma das escolas. Nenhuma. Não falta tecnologia nas escolas. Fizemos um tutorial para o Roblox, mas sabem qual é o melhor controlo, para além deste, para esta plataforma? É vocês jogarem Roblox com os vossos filhos. Sentarem-se ao lado deles e verem o que é que eles estão a jogar. Se vocês bloquearem só Roblox não serve de nada. E isso aplica-se a todos os jogos”.
O Presidente da Desliga informou que a Associação está “a preparar tutoriais de como limitar o tempo da Playstation, que dá para fazer, como pôr um PIN na Playstation para os miúdos só jogarem quando os pais quiserem, para a Playstation, para a Xbox, para a Switch, para, vamos fazer também depois os modelos de televisão, variam, as Smart TVs também precisam De ser, hoje em dia também precisam de ser activadas, o controle parental. Nós, à medida que tivermos capacidade em termos pessoas, na nossa página, iremos colocar esses vídeos tutoriais”.
Os nossos meios técnicos são muito limitados, porque nós não temos nenhum estúdio, nem temos grandes equipamentos. A gente utiliza os nossos tablets, os nossos telemóveis. E alguns equipamentos que tenhamos em casa para fazer os vídeos.

As aplicações não substituem
a educação

“As aplicações ajudam mas não educam. Vocês devem levar o vosso filho ao lado, mas quem conduz o ‘carro’ são vocês E são vocês que metem o sítio de segurança e vocês é que têm de controlar isso. Porque se vocês dão o carro ao vosso filho, se não estão ao lado deles para os guiar, vai haver acidente. E esta é a mensagem simples que nós andamos a tentar espalhar um pouco pelos Açores”, prosseguiu.
José Freire afirmou que também se devem acabar com as cavernas digitais, que “são os quartos que os pais montam com toda a tecnologia, afastados do resto da família. O problema das cavernas digitais é gravíssimo. A internet não segue a igualdade de género, a internet é diferente para os rapazes e é diferente para as raparigas”.
De acordo com o Presidente da Desliga, “as raparigas sofrem mais por causa das redes sociais, mas também acabam por desenvolver uma resiliência maior. E acabam, quando se tornam mais maduras, as raparigas, ou quando se tornam mais mulheres, conseguem desligar-se um bocadinho. O facto de querer constituir família, profissionalmente, desligam-se e afastam-se um pouco da internet. Nos rapazes é muito mais complicado. Neste momento, há rapazes que entraram para as cavernas digitais com 16 anos, têm quase 40 e não saíram de lá”.
“Nós somos a Região do país com o índice mais elevado de suicídios O que nos deixa bastante tristes. O que digo sempre aos pais é que vocês têm de ver o que é que os vossos filhos estão a fazer. Quando fornecem um equipamento aos vossos educandos, vocês têm de lhes dizer uma coisa muito simples: este equipamento é meu, eu paguei por ele, eu pago pela internet, eu pago por tudo, por isso quando eu quiser pegar, quando eu quiser ver, eu posso fazer, eu só não posso fazer quando tu fores adulto, tu comprares esse equipamento e sustentares esse equipamento. Porque vocês têm todo o direito e o dever entrar nos equipamentos dos vossos filhos e saber o que eles vão fazer. Não podem dizer que eu não sabia. E às vezes é muito difícil.”, informou.

O efeito espelho

Segundo José Freire, “há outra questão muito importante que é esta, o efeito de espelho. Se os pais Estão agarrados o tempo todo aos telemóveis, se os pais jogam, se as mães estão nas redes sociais, a criança vai pensar que também pode estar. Não há exemplo. Os espelhos deles estão também, e isto, ser um bom exemplo, também é controlo parental”.
 Estar dependente do telemóvel é a mesma coisa que estar dependente do álcool, ou do tabaco, ou da heroína ou da cocaína. Têm os mesmos sintomas.
“Uma questão muito importante, por isso o título desta apresentação era a confiança. Para além do controle parental, mais tarde ou mais cedo, nós quando vamos às sessões perguntamos assim, quem é que aqui numa turma já passou por uma situação desagradável na internet? Ou nos jogos ou nas redes sociais?
São muito poucos aqueles que não levantam o dedo. Já todos eles passaram por uma situação desagradável. O que é que tu fazes quando passas por isso? Não diga a ninguém. 90% dos alunos dizem, eu não disse a ninguém. Mas o que é aconteceu? Chamaram-me nomes, pediram-me fotografias, pediram-me dinheiro, pediram-me para encontrar-me uma pessoa ali”, prosseguiu.
Para José Freire, “eles não partilham porque têm medo dos pais. E isso leva a situações, às vezes de rotura. Em que os jovens se metem em situações bastante complicadas. Há falta de confiança nos pais, porque eles têm medo de falar por ser castigados, e essa confiança também tem que ser criada com os vossos educandos, com os vossos filhos”.
“É muito importante que eles quando passarem por uma situação desagradável, eles saibam que podem ir falar com vocês. Que é meio caminho para o problema ficar resolvido. Porque se eles não falarem, o problema vai ganhar outras proporções e vai ser muito mais complicado. E quando vocês souberem, depois o que é acontece? Metesse a Polícia Judiciária. Porque, habitualmente 90% dessas coisas vão chegar lá. Depois tem que se andar a pedir às plataformas X, Y e H para retirar aquele conteúdo dali e dali e não sei quantos”, prosseguiu.

O vício dos jogos

De acordo com o Presidente da Desliga, “se essas situações tivessem sido prevenidas à posteriori talvez essas situações não fossem tão complicadas de fazer. São dois modos de criar, é o modelo de confiança e o modelo do medo, pronto, e cada um é que sabe as relações que tem com os filhos. Vocês têm que criar, e esta questão também é importante, porque vocês não podem estar sempre ao pé dos vossos filhos. Vocês têm que lhe dar filtros para quando vocês não o estão a acompanhar. O tal pensamento crítico, saber que decisão é que sabe fazer, está perante uma situação, o que é que eu faço? Digo sim, digo não? Porque vocês, por mais controle parental que tenham, eles vão de ir à casa de um amigo, há um de ligar-se a uma rede que não está controlada?”
“Antigamente nos aniversários, o que é as pessoas ofereciam? Ofereciam livros, roupa ou material desportivo. Agora oferecem gift cards, oferecem robux, oferecem V-Bucks, oferecem dinheiro virtual para eles gastarem os jogos. É uma tendência”, alertou
“Como é que é possível ganhar tanto dinheiro em jogos gratuitos? Por causa das compras que os meninos fazem online. Que é outra questão que vocês têm que controlar. Eles não podem ter acesso a cartões de crédito. Vocês não podem pôr cartões de crédito nas contas da Playstation, da Xbox, no Google Play, na… na… na… na… na… lá naquelas coisas da Apple, que eu não sei o nome. Pronto esqueci o nome. Mas não podem, não podem pular cartões porque eles compram”, disse José Freire.
De acordo com o Presidente da Desliga, “os jogos são feitos para cativar, viciar e para que gastem dinheiro lá dentro. E é algo que é feito de uma maneira tão subtil, tão inteligente que só jogando é que se percebe isso. Não se percebe aquilo que não se conhece. Se têm miúdos pequenos, entre os 7 e os 10 anos de idade, e se sentam com eles para afazer trabalhos de casa ou ir dar um passeio, também podem se sentar e jogar com eles. Querem saber o que eles andam a fazer? Vejam lá o nome do utilizador dele, criem uma conta e passem a seguir os vossos filhos”.
Em suma, José Freire deixou três recomendações: criar zonas sem telemóveis; dar um exemplo e de vez em quando perguntar em vez de o que é que fizeste, se viste algo estranho na internet.
“Mas, se os vossos filhos estão viciados e passam muito tempo a jogar e gastam dinheiro nos jogos, a culpa é vossa. E da sociedade que não tem feito o suficiente para os proteger. Porque eu acho que, presentemente, há medidas que têm de ser tomadas urgentemente tais como a proibição dos telemóveis, redes sociais até aos 16 anos. E depois é assim, o que me incomoda é que os governos muitas vezes não implementam medidas porque têm custos, mas estas medidas não custam nada”, concluiu.
Frederico Figueiredo

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