“When the saints come marching in”, sacralizada canção musicada e interpretada pelo grande Louis Armstrong e posteriormente por muitos outros famosos, numa América do “I have a dream”, exorta-nos a pertencer a um cortejo de gente de bem na busca de união e da redenção que não era mais do que grito de libertação com ajuda divina, que a terrestre falha quando mais se precisa dela.
A América do “I have a dream” tornou-se a América do “Yes I can”e de todos os pesadelos empurrada pela glorificação do poder, pela predatória ambição de mais riqueza para quem já a tem e pela tentativa de hegemonia somente conhecida em regimes imperialistas de um passado não muito longínquo e de consequências funestas.
A América foi sonho dos que num país assumidamente capitalista e liberal deixava sonhar aos que ali procuravam uma vida melhor pelas oportunidades disponíveis. Alguns sonharam até com uma riqueza mensurável pela diferença entre o pouco que tinham e o que poderiam vir a ter em melhoria das suas vidas e da dos seus familiares. Muitos sonhos ruíram como se espera quando a quimera enfrenta realidades. Não era um País fácil para pobres emigrantes que não tinham conhecimento da língua nem diferenciação técnica. Mas era um País para trabalhadores que fazem o que outros não querem fazer. Isso os emigrantes sabiam e fazem; mas esta função foi-lhes muitas vezes fatal num País do “fast” e do “disposable”.
Hoje, na América com histórias ainda recentes de lutas pela igualdade rácica e de oportunidades, repetem-se sinais preocupantes de xenofobia e discriminação sob pretextos incriminatórios idênticos ao que se passou no tempo nazi e do fascismo.
Nem as crianças são poupadas à humilhação e intolerância na senda da limpeza dos proscritos que procuraram este sonho de melhorar as suas vidas num País que agora diz não precisar deles.
Hoje numa América amordaçada, a linguagem é de superioridade, ameaça e agressão, sinais de tempos perigosos em que a desestabilização de uma nova ordem mundial que se considerava uma conquista da humanidade à custa de muita destruição, miséria e de sangue derramado na II Grande Guerra Mundial, passou a ser uma terrível ameaça por via de novos predadores a ocidente e a oriente, espartilhando a Europa, empurrando-a para o rearmamento e cenários de guerra contraditórios ao “nunca mais” jurado por todos os países que subscreveram a Carta das Nações Unidas.
A América do “I have a dream”, deixou de ser o da defesa da democracia, da dissuasão à guerra e no acolhimento multicultural e étnico que fez no passado a América grande; e os uns novos poderosos ultrapassam fronteiras querendo controlar parte do mundo, à espera que a outra parte a tema, mesmo perdendo-lhe o respeito.
A Europa manteve-se fiel aos compromissos de paz, abriu fronteiras, reuniu países num grande projeto de União Europeia, comprometida com a igualdade, respeitando a identidade e o direito às diferenças. Desmilitariza-se no sonho de que o “nunca mais” desta vez era uma conquista permanente. Na passagem dos tempos, a história volta a ser feita por poderosos que desrespeitam compromissos e alianças. E voltamos de novo à vertigem do rearmamento sabendo-se que o alvo serão sempre os indefesos; e o resultado a perda sempre inútil de vidas humanas e perigosas ameaças ambientais comprometendo o futuro da vida na Terra.
Aproximam-se tempos difíceis em que se esvanece a esperança de celebrarmos a união entre nações marchando ao lado dos santos glorificando os obreiros da paz.
Por: Dionisio Faria e Maia