Edit Template

O Sistema e os Tachos

Nos últimos dias estas duas palavras, o sistema e os tachos, têm sido reforçadas.
O Sistema entendo-o como a República, a Democracia e a Autonomia que, com inúmeras imperfeições ao longo dos anos, constituem a espinha dorsal do nosso funcionamento enquanto sociedade.
A crescente aceitação — ou resignação — por parte dos cidadãos de que o sistema não responde às suas necessidades acontece porque os partidos políticos nem sempre souberam ou quiseram responder da melhor forma.
O episódio do Subsídio de Mobilidade é um exemplo claro dessa realidade: um processo onde a lógica partidária se colocou à frente das reais necessidades dos cidadãos, gerando indignação, desconfiança e um sentimento de injustiça generalizado. Numa ida a duas freguesias rurais no passado fim-de-semana onde este assunto foi tema, a contestação dos cidadãos era visível e a avaliação aos partidos/deputados não foi nada abonatória.
Cabe a todos os intervenientes políticos, partidos e movimentos de cidadãos, tomarem decisões a favor dos cidadãos. E quando tal acontecer de forma que as pessoas sintam no dia à dia, a narrativa da “mudança do sistema” ou “o sistema está podre” terá menor acolhimento.
Na dialética política, os chamados “tachos” são frequentemente apresentados como os cargos ocupados por eleitos — vereadores, presidentes de câmara, deputados e nomeados — e por todos os que, por inerência da votação popular, têm direito a ordenados, subvenções, benefícios e regalias associadas às funções.
Trazer a palavra “tacho” para o centro do debate político e público, explorando o descontentamento de muitos cidadãos face a práticas partidárias instaladas e ao ordenado médio, não é inocente e confundir esta expressão com o sistema também não. Não consta da informação pública que haja eleitos que tenham renunciado aos ordenados ou aos benefícios inerentes aos cargos que exercem. E, diga-se com clareza: não teriam obrigação legal de o fazer, mas sim a obrigação moral.
Se a crítica aos “tachos” pretende ser mais do que retórica política, então a coerência exige a recusa de benefícios como, os cargos de nomeação política, as ajudas de custo, os motoristas, os apoios a gabinetes ou benefícios habitacionais que deveriam ser recusados e os ordenados associados às funções deveriam, nessa lógica, limitar-se ao salário mínimo nacional.
Só assim haveria total coerência entre o discurso e a prática política. Caso contrário, o conceito de “tacho” arrisca ser apenas um instrumento retórico, útil para o combate político, mas vazio quando confrontado com o exercício real do poder.
Para quem defende a alteração do sistema, essa mudança exige necessariamente um consenso alargado da sociedade, construído de forma democrática e responsável. Reformar o sistema implica debate, compromisso e legitimidade coletiva.
No entanto, colocar o sistema verdadeiramente ao serviço dos cidadãos pode resumir-se a um único ponto na agenda política e cívica — livre de interesses partidários ou pessoais: melhorar a vida dos cidadãos.
Já para os que defendem que os “tachos” devem terminar, o caminho é igualmente simples e imediato: basta que cada eleito que sustenta essa retórica abdique desses benefícios, os ceda a instituições sociais ou promova a alteração ao enquadramento legal das remunerações de eleitos e nomeados. Não é necessária qualquer alteração estrutural ou constitucional. Trata-se de coerência individual entre o discurso e a prática. E como temos no discurso político, eleitos contra os “tachos”, venha de lá essa coerência.
Por: Sónia Nicolau

Edit Template
Notícias Recentes
Lusitânia em busca da terceira vitória consecutiva
Instituições do sector social da Maia apostam na qualificação dos seus quadros para melhor servirem
José Manuel Bolieiro destaca importância da transição digital e da inteligência artificial para a “eficiência e transparência”
Lagoa recebeu dirigentes associativos das comunidades portuguesas
Rússia ordena apreensão de activos russos de mais cinco empresas europeias
Notícia Anterior
Proxima Notícia

Copyright 2026 Correio dos Açores