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Dependências e trumpinices

Há uns tempos atrás, eventualmente por alturas da pandemia Covid-19, falou-se muito da dependência dos Estados Unidos em relação à produção europeia de vacinas, nomeadamente àquelas que uns especialistas alemães de origem turca tinham desenvolvido. Com a desenvoltura descarada que lhe conhecemos, o Presidente Trump resolveu o assunto dizendo mal das vacinas, ainda que para isso tivesse de entrar em choque com entidades médicas norte-americanas. Estribado emRobert Kennedy Jr., seu atual Secretário de Estado da Saúde, vaioscilando entre o não-sim às vacinações, embora agora mais discretamente. Certo é que, no que respeita a alguns fármacos, o mercado dos EUA ainda depende do que se inova e produz na Europa (caso do medicamento Ozempic), o que é uma gota no oceano de interdependências transatlânticas. Se virmos bem, ficamos com a ideia de que, nos nossos dias, os destinos da Europa e dos europeus está completamente dependente de interruptores que estão em mãos americanas. Esses interruptores, dos quais dependem setores essenciais para o funcionamento da Europa e do próprio mundo, vão desde os hospitais e sistemas de saúde, ao abastecimento de produtos essenciais, comércio eletrónico, telecomunicações, aviação e o mais que a sociedade moderna exige para sobreviver.
Basta ver o que está dependente da famosa Cloud, a nuvem tecnológica onde estão armazenados os dados da maior parte dos instrumentos, pessoas e instituições mundiais, cuja chave está em mãos americanas, seja para se entrar , ou para sair do “armazém”. A União Europeia, que há 30/40 anos era uma potência económica e tecnológica de topo mundial, adormeceu à sombra do protetorado americano e engordou á custa do gás natural russo, ficando agora a braços com uma sériede problemas de relevância internacional. Segundo divulgou recentemente a CNN Portugal, cerca de 70% dos dados que estão na Cloud são controlados por 3 gigantes americanos da tecnologia, a Amazon, a Microsoft e a Google. E praticamente tudo, mas absolutamente tudo, nas nossas vidas diárias, do funcionamento dos hospitais à banca, das telecomunicações às instituições governamentais, está dependente destesdados e instrumentos tecnológicos. Donde se explica os enormes volumes de negócios e os chorudíssimos lucros obtidos por empresas como a Amazon, a campeã mundial do setor, que ficou próxima dos 700.000 milhões de dólares de volume de vendas em 2025, aumentando os lucros, relativamente a 2024, em 11,5%. Das top 5 em presas globais do setor, 3 são dos EUA (Amazon-1ª; Walmart-4ª; e-Bay-5ª) com o 2º lugar para a Alibaba e o 3º para a JD-Com as duas chinesas. Daqui se conclui o risco que as empresas europeias correm, caso pretendam escapar ao domínio e à subjugação resultante das “trumpinices”, uma face encapotada do pior dos colonialismos. Não deixa de ser estranho, vindo de um tradicional aliado transatlântico, que provavelmente descobrirá tarde demais que empurrou a Europa para uma aliança com a China. Resta uma esperança, da qual há sinais que começam a aumentar: sondagens feitas ao eleitorado dão o “trumpismo” em crescente queda, o que poderá ter consequências nas eleições intercalares do próximo mês de novembro. Mas é melhor não confiar muito na perspetiva, porque Mr. Trump é exímio nas suas cambalhotas políticas – e age à Maquiavel para atingir fins, sem olhar a meios. E o seu fim último, todos sabemos que é ser o dono disto tudo, se possível saindo de bolsos cheios ecomotelevisivo salvador do mundo.
Para que isto não aconteça, será preciso que a União Europeia mude rapidamente de rumo, retomandoaquele que interrompeu, quando em 2004 foi aprovado o Tratado Constitucional Europeu, depois rejeitado em 2005 pela França e pelos Países Baixos. Há muitoa rever nesta arquitetura europeia atual, desde as relações multilaterais às alianças tradicionais, passando por uma política comum de defesa e segurança, como já se tinha pensado há mais de 30 anos. surgem alguns indícios de despertar da letargia, com os acordos União Europeia-Mercosul e, nestes últimos dias, ao acordo assinado com a União Indiana. Resta saber se ficamos pelos shows televisivos e os noticiários, ou se vamos para oterreno explorar as oportunidades dos acordos, nomeadamente nas áreas da economia e da revitalização industrial e tecnológica. Nestes setores, a Europa tem de soltar as rédeas burocráticas que sufocam grande parte do seu tecido empresarial, tem de se preparar melhor para o impacto da chegada aos mercados da revolução quântica (que está aí à porta) da revolução energética que as novas tecnologias do nuclear vão trazer à produção de eletricidade e da necessidade de contar com África para voltar a ser o parceiro privilegiado dos europeus no contexto global. Não irão ser tarefas fáceis, mas a culpa é exclusivamente europeia, porque desde oinício do século XXI que os seus líderes políticos de Bruxelas andaram a dormir na forma, como diziam os nossos antigos militares. Para reconstruir o que se destruiu do projeto dos Pais Fundadores, urge evitaras “trumpinices” e confiar mais no potencial europeu.
Por: Vasco Garcia

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