OS CORTES NO DESPORTO DOS AÇORES POR PARTE DO GOVERNO REGIONAL DOS AÇORES estão na ordem do dia. Os números que tive acesso do orçamento neste ano de 2026 é de 10 milhões e 400 mil euros. O de 2025 foi de cerca de 13 milhões. A redução num ano ronda os 2 milhões e 400 mil euros.
Se ao montante deste ano retirarmos 1 milhão e 700 mil da dívida que transitou de 2025, restam 8 milhões e 700 mil euros.
A verba ao dispor é insuficiente para fazer face às várias actividades anuais.
Espera-se que outras áreas, com mais peso eleitoral, com mais influência, com mais simpatias venham a sofrer do mesmo. É que o céu nublado, a chuva e o vento quando surgem nos Açores apanham mais umas ilhas do que outras consoante as correntes, mas todas acabam por sofrer com maior ou menor gravidade.
A última facada prende-se com a comunicação às Associações desportivas e aos clubes, pelo director regional do Desporto, de que não se procederá à formalização dos contratos programa de promoção dos Açores no exterior na época de 2026/27.
Este modelo foi iniciado em 1996 apenas com o futebol, mas ampliado em 2002 ao basquetebol, voleibol, andebol, hóquei em patins, futsal, ténis de mesa e ao campeão regional de ralis.
O PRESIDENTE DO GOVERNO CARLOS CÉSAR, com visão que outro líder não teve, entendeu criar uma oportunidade para as equipas na altura em vias de ou já inseridas nos campeonatos nacionais de nível mais elevado, se estabilizarem. Foi uma forma de promover a Região através das modalidades e de proporcionarem aos clubes capacidades de se apetrecharem por forma a que não envergonhassem com derrotas e com goleadas. Começou com o CD Santa Clara, que chegou à I Liga de futebol, mas a partir de 2002 estendeu-se a outras modalidades. Tivemos campeões nacionais (CD Ribeirense e Fonte do Bastardo) e vice campeões no voleibol feminino; no basquetebol o União Sportiva foi campeão; ganhamos taças de Portugal e outras; marcamos dignas presenças internacionais (quem não se recorda do FC Barcelona na ilha do Pico defrontando o Candelária SC na Liga dos Campeões de hóquei em patins). Enfim, anos de ouro.
Através de uma resolução anual do Conselho do Governo, divulgada em Jornal Oficial, geralmente antes das competições terem início (já aconteceu nos meses de Setembro e até de Outubro), eram publicadas as equipas e os respectivos montantes.
A excepção vai para os dois últimos anos. Numa invenção despropositada do anterior director regional, sem previsão dos danos, as verbas passaram da direcção regional do Turismo para a do Desporto. Mas, vá lá saber-se porquê, continua a ser a secretaria regional do Turismo a definir quais os clubes elegíveis. Como não estão a par das equipas a jogarem nos “nacionais”, a indicação vem do desporto. Um pingue-pongue escusado e que na altura critiquei. Agora está à prova a asneira. Reforçou o orçamento do desporto de um montante que deveria ter ficado onde estava e onde é apropriado. Depois de saberem as equipas com direito aos valores para assinarem os contratos programa de promoção, são (a novidade) publicados em Jornal Oficial, com destaque para as palavras “relevância turística”, como todas as equipas disputassem provas com relevância. Há alíneas apontando as causas com irregularidades e com incumprimentos.
COMEÇAMOS RICOS, FOMOS EMPOBRECENDO E VAMOS ACABAR FALIDOS. O quadro que acompanha este texto revela as verbas destinadas às equipas (que variam entre as 12/15/16) que promoveram os Açores, ostentando a marca nas costas das camisolas e dos fatos de treino. Um contrato de prestação de serviços e não um subsídio como saiam ao milhares para quase tudo.
Nos primeiros anos as prestações quase atingiram os 4 milhões de euros. Houve dirigentes que entraram em êxtase. Conduziram os clubes a falências técnicas, a dívidas elevadas, ao fecho de equipas. Directores que se seguiram conseguiram resolver e atenuar os problemas ao ponto de o conjunto de clubes não terem “dívidas superiores a dezenas de milhões de euros”, como ouvi o deputado Carlos Rodrigues (PSD), num discurso impreparado, ter afirmado no debate na Assembleia Regional de há 15 dias. Peço que indique quais as colectividades com dívidas e se ultrapassam os 10 milhões. Que infelicidade!
Os valores foram diminuindo. Empobreceram. Chegaram a reanimar. Agora está falida a competência que dura há 23 anos.
Os problemas serão inevitáveis. Hoje para se competir nas divisões principais requerem-se quadros de atletas qualificados. Não para serem campeões, como disse o director regional do Desporto Ricardo Matias, mas para se manterem. As competições de qualquer modalidade ao mais alto nível estão muitíssimo fortes. Veja-se o caso da equipa masculina do Clube K neste campeonato da I Divisão de voleibol. Penúltima com duas vitórias. Foi esse o motivo porque a Fonte do Bastardo desistiu da I Divisão deste ano. Perdendo o principal patrocinador, de uma empresa forasteira, mas com raízes à freguesia, iria constituir uma equipa para não descer. Optou por não continuar.
Agora, por não haver verbas dos contratos de promoção, a maioria seguirá o mesmo caminho. Não serão os contratos com as verbas para as viagens e as estadas que chegarão para contratar atletas. Não se pode dissociar a insularidade e a precariedade das empresas sem possibilidades de ocuparem os contratos de promoção.
A MAIOR FATIA do contrato vai para o futebol do Santa Clara. Esteve e está em campeonatos com outra visibilidade. Não há comparação com as restantes modalidades. Então agora na I Liga. A verba de 1 milhão nos dois últimos anos nem sai da direcção regional do Desporto. Sendo uma associação societária, do desporto profissional, o contrato foi elaborado (para esta época ainda não foi assinado e na época passada só em Junho) pelo secretaria regional do Turismo e Mobildidade.
Já foram dois milhões e 200 mil euros no início. Foi reduzindo para 1 milhão. Recebeu 900 mil e voltou a 1 milhão em 2024/25.
Trata-se de um gota no que o Santa Clara, desde que os novos investidores ingressaram na SAD, deixam anualmente. Em impostos: em 2023/24 foram 3 407 612,39€; em 2024/25 foram 5 121 570,56€; até Setembro da época em curso 1 239 241,34€. A média mensal paga actualmente é de 413 080,45€.
Em 33 moradias alugadas a SAD pagará esta temporada 491 448€. Os campos de treinos alugados custam 34 286,88€. O pagamento pelos direitos de formação por jogadores contratados a clubes locais e do exterior foi de 15 566,32€ na época passada. No aluguer de transportes terrestres na ilha de São Miguel foi de 608 mil euros. Para a aviação 714 mil.
Enfim, pelo que recebe e pelo que deixa, a diferença é acentuada.
VALORES TOTAIS DOS CONTRATOS PROGRAMA DE PROMOÇÃO DOS AÇORES COM OS CLUBES
2002/2003: 3 375 733,47
2003/2004: 3 140 000,00
2004/2005: 3 285 500,00
2005/2006: 3 366 000,00
2006/2007: 3 567 000,00
2007/2008: 3 821 500,00
2008/2009: 3 474 450,00
2009/2010: 3 767 450,00
2010/2011: 3 847 450,00
2011/2012: 3 363 832,50
2012/2013: 2 859 861,60
2013/2014: 1 977 021,11
2014/2015: 1 979 280,41
2015/2016: 2 037 269,11
2016/2017: 2 037 269,11
2017/2018: 1 861 043,47
2018/2019: 1 852 759,61
2019/2020: 1 852 759,61
2020/2021: 2 157 000,00
2021/2022: 2 218 000,00
2022/2023: 2 322 000,00
2023/2024: 2 307 000,00
2024/2025: 2 283 000,00
2025/2026: 2 026 000,00
José Silva