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PDL26 começa no Coliseu com espetáculo simbólico e olhar contemporâneo

A abertura oficial de Ponta Delgada como Capital Portuguesa da Cultura 2026 fez-se no palco simbólico do Coliseu Micaelense, com o espetáculo “Deixa Passar a Vida”, numa visão contemporânea da cultura, bem-recebido sobretudo pela nova vaga de agentes culturais dos Açores, há muito sedenta de acontecimentos que rompam a rotina e afirmem a cultura açoriana como espaço de encontro.
As expectativas eram muito altas para aquele tão aguardado espetáculo, que partiu do poema “Ode à Paz”, de Natália Correia, figura incontornável do pensamento, da literatura e da identidade açoriana, cujo momento assumiu desde logo um tom declaradamente simbólico e programático. Abrir as portas do Coliseu Micaelense para este evento foi como convidar a cidade e a ilha a entrarem num tempo de celebração da existência enquanto força criadora. O que se apresentou não foi uma narrativa linear, nem um espetáculo clássico no sentido mais tradicional do termo, como muitos estavam à espera, mas antes um manifesto, onde a palavra, o corpo, o som e o espaço dialogaram de forma por vezes irregular, mas assumidamente consciente.
“Deixa Passar a Vida” propôs-se como manifestação pela memória, pela esperança, pela paz, pelo respeito e pela diversidade. Houve momentos de intensidade e outros de dispersão e talvez isso faça parte do próprio risco que um espetáculo desta natureza aceita correr.
Um dos aspetos mais interessantes da proposta foi a relação com a arquitetura do Coliseu Micaelense que se transformou num espaço, onde passou a ser lugar simbólico de convergência. Ali intervieram artistas, criadores emergentes, pessoas da ilha de diferentes idades, experiências e mundos. Esta diversidade, mais do que um conceito, foi uma prática visível e, neste sentido, convenhamos que o espetáculo cumpriu um dos seus desígnios.
O espetáculo exaltou aquilo que nasce e se renova, mas também o que resiste, num crescendo que apontava mais para o processo do que para um clímax final. Apelou-se à vida como movimento e à escuta como prática.
Reclamou-se, de forma explícita, a paz como valor universal, evocando os momentos turbulentos da nossa história e a necessidade permanente de a reafirmar. Aqui, a herança de Natália Correia fez-se sentir não apenas como citação, mas como atitude que recusa o conformismo.
“Deixa Passar a Vida” carregou consigo uma memória coletiva, mas também um presente de urgência e atenção. Houve uma clara aspiração a um amanhã diferente, exaustivamente sublinhado pela ânsia de uma mudança e por uma esperança ativa.
O mérito maior do espetáculo residiu no facto de ter aberto um espaço, de ter lançado perguntas, de ter reunido pessoas em torno de uma experiência comum. Para muitos jovens criadores e agentes culturais da Região, “Deixa Passar a Vida” representou um sinal, o de que a Capital Portuguesa da Cultura pode e deve ser um tempo de experimentação, de risco e de afirmação.
Nesse contexto, é justo deixar uma palavra de reconhecimento à Direção Artística, liderada por António Pedro Lopes, uma figura de referência na produção cultural açoriana, cujo percurso tem sido marcado pela persistência, pela visão e pela capacidade de articular projetos num território onde criar é, muitas vezes, um ato de resistência.
A PDL26 começa, assim, com um gesto inovador e um olhar contemporâneo. E, por vezes, é assim que as transformações mais duradouras se iniciam, deixando passar a vida, mas sem nunca deixar de a escutar.
Por: António Pedro Costa

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