Assinala-se hoje o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro, que tem o intuito de consciencializar, melhorar a educação e promover a ação pessoal e colectiva no combate a esta doença. Em conversa ao ‘Correio dos Açores’, Natacha Amaral, médica responsável pela Unidade de Oncologia Médica do Hospital Divino Espírito Santo (HDES), sublinha a importância da data como um momento de reflexão. Segundo a profissional, o cancro da mama continua a ser um dos mais comuns, seguindo-se o do pulmão e do cólon. A especialista destaca que, apesar do aumento da incidência de cancro nos Açores, os tratamentos “estão melhores e mais evoluídos , e as curvas de sobrevivência têm aumentando significativamente”.
Correio dos Açores – Considera importante assinalar esta data?
Natacha Amaral (Médica responsável pela Unidade de Oncologia Médica do HDES) – Sim. Muitos doentes lutam diariamente contra esta doença e é importante que haja um dia dedicado à reflexão sobre este assunto.
Como tem sido a evolução dessa doença nos Açores nos últimos anos?
O número de casos tem vindo a aumentar, como expectável dado o aumento da esperança média de vida e ao avanço tecnológico. O importante a reter é que os tratamentos estão melhores e mais evoluídos e as curvas de sobrevivência têm aumentando significativamente.
Quais são actualmente os tipos de cancro com maior incidência na Região Autónoma dos Açores? Há diferenças relevantes em relação ao panorama nacional?
O cancro da mama continua a ser dos mais frequentes seguindo-se o do pulmão e o do cólon. No homem, o da próstata é muito incidente, mas com menor gravidade e impacto. A nível nacional, e do mundo ocidental, o panorama é semelhante. Destaca-se apenas uma maior incidência do cancro do pulmão face às restantes regiões do país, provavelmente por a população fumadora ser mais prevalente aqui que no resto do país.
Existem todas as condições no arquipélago para tratar doentes oncológicos ou é fundamental investir em equipamentos?
Hoje em dia existem todas as condições dado a terem sido adquiridos equipamentos recentes. Temos de reforçar com a tutela a importância de os manter e de actualizá-los, por forma a evitar que se tornem obsoletos.
Os dados regionais indicam aumento ou redução da incidência de cancro nos últimos anos nos Açores? A que factores atribui essa tendência?
Há um aumento de incidência, tal como no mundo todo. Tal deve-se ao facto de as pessoas viverem mais tempo, tendo maior oportunidade de as células desenvolverem a doença. O avanço tecnológico permite também diagnosticar mais casos, mesmo quando a doença é ainda silenciosa. O estilo de vida actual, mais sedentário, mais acelerado e com a ingestão de alimentos processados contribui também para o desenvolvimento da doença.
O facto de vivermos num território insular cria desigualdades no acesso ao tratamento oncológico? Como é que isso afecta os doentes e as famílias?
Nos tempos de hoje não é verdade. No HDES dispomos da esmagadora maioria dos tratamentos cirúrgicos e de todos os sistémicos. Destaco apenas 3-4 modalidades de intervenção que não existem no arquipélago e que pelo reduzido volume de doentes que temos poderão nunca vir a existir. Os doentes e famílias além da doença têm de se deparar com a deslocação, muitas vezes prolongada, e com o facto de estarem longe da sua casa e dos seus amigos e conhecidos que poderiam ajudar a passar por esta fase.
Quais são os maiores desafios aquando o tratamento desta doença na Região?
O tratamento é actualmente muito eficaz se for atempado. O diagnóstico precoce é a chave. A população deve estar alerta aos sinais que a doença apresenta e tem de ter aonde se dirigir para que o estudo seja feito rápido o suficiente para não comprometer a eficácia do tratamento.
O que se deve fazer para evitar a ocorrência de doenças oncológicas?
Adoptar um estilo de vida saudável: Não fumar; beber com moderação; fazer uma dieta saudável com água, frutas/legumes, cereais e proteínas; praticar exercício físico; evitar exposição solar descontrolada e evitar alimentos processados.
Qual seria a principal mensagem que deixaria à população açoriana neste Dia Mundial da Luta Contra o Cancro?
O cancro é uma doença difícil, mas cada vez mais podemos lutar contra ela com sucesso. A escolha por um estilo de vida saudável reduz o risco de desenvolver a doença e o autocuidado permite um diagnóstico precoce com tratamentos curativos eficazes.
Diogo Simões Pires
