O Presidente do Governo Regional dos Açores anunciou, no passado dia 9, que o futuro Hospital do Divino Espírito Santo (HDES) irá aproveitar a chamada “capacidade instalada” da infra-estrutura modular construída após o incêndio ocorrido a 4 de Maio 2024. Em simultâneo, confirmou-se aquilo que muitos já temiam: continua a não existir um calendário definido para a recuperação do Hospital, nem uma estimativa de custos, apesar de uma promessa genérica da República de financiar 85% da reabilitação.
Mais preocupante foi a afirmação de que o Governo Regional “defende uma resposta hospitalar ajustada às necessidades de São Miguel”. Esta declaração, aparentemente inócua, encerra uma mudança profunda de rumo e ajuda a compreender decisões que até agora vinham sendo disfarçadas, que até a ilha de Santa Maria esquece.
Fica evidente a incompreensível tentativa de subestimar a principal estrutura de saúde da Região, o HDES, que possui valências médicas únicas e atende todas as ilhas dos Açores. Mesmo no período imediatamente após o incêndio, com o edifício principal encerrado, os profissionais do Hospital continuaram a receber e a tratar pacientes evacuados das outras ilhas (com e sem Hospital), mantendo o papel central do HDES na resposta a emergências médicas de todos os Açores.
As posições do Governo confirmam que a recuperação do HDES tem sido sucessivamente adiada e relegada para segundo plano nas políticas públicas regionais. Mais grave, desmentem de forma clara e inequívoca as garantias repetidas pelo próprio Presidente do Governo e pela Secretária Regional da Saúde, que asseguraram reiteradamente que o denominado “Hospital Modular” teria carácter provisório e poderia ser deslocado para qualquer outra ilha em caso de emergência. A decisão do Governo também contraria os compromissos assumidos com as Ordens Profissionais dos Médicos e dos Enfermeiros, dos quais se espera uma reacção de protesto.
Hoje, porém, a realidade é outra. O “Hospital Modular” deixará de ser uma solução temporária e passará a integrar, de forma definitiva, o HDES. Esta opção não é neutra nem meramente técnica: condicionará e limitará qualquer futura remodelação ou ampliação do edifício principal do HDES, comprometendo a possibilidade de se construir um Hospital moderno, integrado e com capacidade de crescimento. Para além de que, actualmente já condiciona e limita a capacidade de desempenho dos profissionais e a qualidade assistencial aos doentes.
A mensagem que fica é simples e profundamente preocupante: os Micaelenses foram, uma vez mais, enganados. Tal como aconteceu quando lhes foi prometido um “Hospital Modular” construído em três meses, com um custo de 12 milhões de euros, e acabaram por assistir a uma obra limitada que demorou nove meses e custou mais de 30 milhões. Não se trata de um detalhe técnico, mas de uma quebra grave de confiança política.
Todo este processo revela uma gestão marcada pelo improviso, pela falta de visão estratégica e pela ausência de ambição para os Açores. As conclusões do Grupo de Trabalho criado para avaliar os Planos Funcionais do futuro HDES são claras ao evidencial os erros cometidos ao se avançar com dois planos sem o acompanhamento adequado. Esse Grupo deveria ter sido constituído desde o início e envolvido na definição do Plano Funcional, garantindo que as necessidades reais e as valências identificadas fossem devidamente incorporadas à partida.
Quando se trata de um Hospital Central, como o HDES actualmente é nos Açores, não basta ajustar respostas. É necessário planear, decidir com transparência e cumprir compromissos orientados pelo interesse das populações, e não em função de arranjos momentâneos de política partidária, que coloca ilhas contra ilhas e que as empobrece no conjunto.
O resultado está à vista: a remodelação do Hospital HDES configura-se hoje como um projecto fragmentado, sem prazos definidos e desprovido de coerência estratégica.
Num dos maiores erros desta governação, apesar de poder afirmar os Açores como uma Região com visão e capacidade para investir seriamente na saúde pública, pelo caminho ficou, inclusive, a ambição de criar um verdadeiro Hospital Universitário, ideia que está sendosuave e discretamente abandonada.
O que resta é um processo marcado pela improvisação e pela desorientação, com consequências directas para a qualidade dos cuidados de saúde prestados à população Açoriana, como se comprova, aliás, no aumento constante das listas de espera cirúrgicas.
Por: João Quental Mota Vieira
Ponta Delgada, 10 de Fevereiro 2026