A Matéria 47 é um atelier de cerâmica, localizado em Ponta Delgada, que pretende unir a criação artística, o ensino e a sustentabilidade. Ao ‘Correio dos Açores’, Inês Ribeiro, fundadora, revelou que o projecto nasceu com o intuito de preservar a cerâmica e de a transmitir às novas gerações, aliando a tradição e a expressão contemporânea. Hoje, o espaço acolhe alunos regulares, visitantes ocasionais e colaborações artísticas, afirmando-se como ponto de criação e partilha cultural. A natureza açoriana, a responsabilidade ambiental e a valorização da identidade local são os pilares centrais do trabalho da artista.
Correio dos Açores – Qual é a história da fundadora? Como surgiu o gosto pela técnica?
Inês Ribeiro (Artista e criadora do Matéria 47) – O amor veio da vontade de querer materializar as ideias através da utilização de materiais duradouros e não invasivos para o nosso planeta. Sempre tive gosto em trabalhar com as mãos, inventar e criar com qualquer material, mas o que nos permite o barro e a extensão da sua durabilidade após cozido, é realmente único. Comecei a fazer cerâmica quando fui para a universidade
Sou licenciada em Artes Plásticas pela Escola Superior de Artes e Design (ESAD). Na altura, tinha uma colega na turma que já era ceramista e comecei a praticar com ela. Quando terminei a licenciatura, fui para o Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica (CENCAL), nas Caldas da Rainha, e desde então continuei sempre a exercer este ofício.
Como surgiu a ideia de criar a Matéria 47 em Ponta Delgada?
Eu sou do Continente, portanto não nasci nem cresci nos Açores. Vim para cá em 2009 para dar aulas. Na época, concorri para leccionar e fiquei colocada em São Miguel, essa foi a missão inicial. Contudo, vim e o meu atelier veio comigo, porque ele já existia.
Instalei-me e dei continuidade à minha produção em casa. Depois acabei por começar a ter solicitações para dar formação, algo que não conseguia fazer na minha residência, ou seja, acabava por estar dependente de espaços externos. Depois, a zona começou a ficar pequena para a minha própria produção e passou a ser difícil gerir uma mufla, apesar de estar numa área própria. Com isto, uma série de coisas começaram a exigir mudanças. Resolvi então que precisava de um lugar que servisse para tudo e também aberto a todos, onde eu pudesse dar formação, vender os meus trabalhos e continuar a produzir.
Foi fundado em Ponta Delgada porque nos dava mais jeito, por uma questão de comodidade familiar, na altura todos trabalhávamos na cidade e a nossa filha também estava cá na escola.
Existe alguma história por trás do nome?
Em qualquer atelier dedicado à cerâmica trabalhamos matéria, neste caso os minerais. Desde cedo percebi que queria um nome associado à matéria em si e à sua transformação. Mas apenas “Matéria” não me soava bem. Depois percebi que “47” era o número da porta do espaço que tínhamos arrendado e ficou assim.
Posteriormente, esta designação passou a ser fantasiada como sendo a matéria de que são feitos os sonhos, como se de um novo elemento químico se tratasse.
Qual foi o objectivo inicial que levou à fundação do espaço?
Eu quero preservar a cerâmica e o saber-fazer. Isto é a charneira do fazer criativo aqui dentro. Enquanto artista plástica, comecei a perceber que eu, e todos os criadores, quando fazemos coisas físicas, estamos a colocar algo no mundo e isso deve ser feito de forma responsável, uma vez que vivemos num planeta já atulhado de objectos.
Começou a causar-me algum desconforto estar apenas a acrescentar e não a retirar nada do mundo. Trabalhei algum tempo com a utilização de objectos encontrados e pequenas coisas poluentes, por achar que seria importante retirá-las da praia, da floresta ou outro lado qualquer, incluindo-as nos meus trabalhos.
A cerâmica dura milhares de anos e, mesmo que fique no solo, não é poluente, logo não traz malefícios. No fundo, foi a forma que encontrei de trabalhar a criatividade de maneira não invasiva, tendo em conta conceitos de sustentabilidade e reutilização.
Na década de 90, houve uma crise profunda no sector cerâmico, marcada pela entrada massiva de produtos industriais, tornando-se evidente o declínio, quase extinção em alguns locais, da produção artesanal. Felizmente, está novamente a emergir e a sair dessa descida crítica. Ainda assim, acho fundamental preservar o saber porque ele agora surgiu de outra maneira, sob a forma de reel facilitador e pouco realista que facilmente cria ilusões.
Para conservar esse conhecimento é necessário transmiti-lo. Se o guardar só para mim, ele morrerá um dia. É essencial esta conexão com as pessoas e dar-lhes ferramentas para que possam transmiti-las aos outros, dando continuidade a este fazer milenar.
Além disso, gosto de transmitir conhecimento, tanto a crianças como a adultos. Gosto de chegar ao outro e ver o desenvolvimento das suas competências criativas. Adoro acompanhar os projectos dos meus alunos e encaminhá-los na descoberta da sua própria linguagem criativa. Adoro a felicidade deles e a minha quando criamos juntos e obtemos resultados.
Tenho turmas de crianças e de adultos, e é fantástico ver os progressos de todos. No fundo, quero preservar o saber técnico associado ao processo cerâmico e também, que as pessoas sejam felizes a ver brotar das suas próprias mãos.
Existe alguma tradição que influencia o seu trabalho directamente?
Claro, é inevitável que não haja. O saber fazer em cerâmica é também, sempre identitário dos territórios e, apesar de se usarem os mesmos materiais, de local para local usam-se de forma diferente. O meu trabalho utiliza várias técnicas e bebe de muitas influências distintas, talvez a principal seja a cerâmica alentejana.
Sendo esta prática uma forma de arte, como é que equilibra a parte artística com as experiências educativas para os visitantes?
A arte tradicional mantém as técnicas, mas as temáticas, como é óbvio, têm de evoluir para se adaptar à contemporaneidade. A cerâmica é um material artificial que advém da sujeição da argila natural a altas temperaturas que, pode ou não resultar uma forma de arte, isto é importante.
Mantém-se a técnica e o saber. A evolução criativa de cada um compete a cada pessoa e deverá ter um cunho único. Faço o acompanhamento criativo e guio cada aluno no seu processo, porque o objectivo é que cada um encontre a sua linguagem.
Evito trabalhos de copia. A influência dos outros é importante, mas é fundamental que cada um explore o que melhor se adapta a si e desenvolva um código próprio e é isso que nos distingue todos enquanto criadores.
Quantos alunos teve em 2025?
Eu devia ter um programa que monitorizasse isso. Não faço ideia de quantos alunos atendi. O atelier destina-se a diferentes tipos de público e a todas as idades.
Tenho actividades para estadias curtas, mais direccionadas para turistas e visitantes de passagem e tenho algumas para médio e longo prazo, destinadas a quem vive cá ou passa parte do ano na ilha.
Tenho também alunos que vêm há quatro anos, todas as semanas, no seu horário. Aprender cerâmica não é algo que se faça numa aula de duas horas, são anos de aprendizagem. Quanto mais percebemos, mais entendemos o que podemos fazer. Costumo dizer que é um mundo sem fim.
Lembro-me que em 2025, nas actividades Self Making Souvenir, conheci pessoas de ilhas que eu nem sabia que existiam. Conheci pessoas com conhecimentos e histórias incríveis, guardo mais isto do que os números.
Quem é que a visita mais? São locais ou estrangeiros?
A balança está mais ou menos equilibrada. Uns procuram-me para umas coisas, os outros, procuram-me para outras. Guio todos à criação!
Tem algum produto ou actividade que é mais procurado?
São as aulas regulares para os locais e as actividades de curta duração para turistas e também residentes. Neste momento tenho cerca de vinte e poucos alunos, pessoas que vêm mais ou menos todas as semanas no seu horário. São aulas com, no máximo, quatro pessoas, para que eu consiga fazer um trabalho personalizado com cada uma. O objectivo é que cada um desenvolva o seu próprio projecto e, ao longo do tempo, vá adquirindo competências técnicas enquanto faz aquilo que deseja, cada vez melhor.
Os Açores já serviram de inspiração?
Se calhar são a maior fonte de inspiração. O mar, o verde da natureza e as hortênsias inspiram muita gente e a mim também!
Como é que tem sido o feedback? Tem sentido um apoio da comunidade em continuar?
O feedback tem sido óptimo. A comunidade colabora comigo e acho que estão contentes, o que também me deixa muito feliz. No entanto, não deixa de ser curioso que, estando aqui há seis anos, de vez em quando ainda entra alguém a perguntar se abri ontem. Continuo a conhecer pessoas da ilha tal como tenho frequentadores assíduos das várias actividades que fazemos, ano após ano.
De que forma é que contribui para a sustentabilidade da Região?
Trabalhamos com minerais, materiais que vêm da terra e não são invasivos para o planeta. A nível de gestão do atelier, tudo o que é manuseado aqui, desde pastas, vidrados, engobes, óxidos e outros materiais, é tudo reutilizado e reciclado. É um processo contínuo.
As sobras de barro que secam, reciclam-se e voltam a ser pasta, o engobe usa-se até à mais ínfima gota colorida ou floco e o vidrado reutiliza-se da máquina de limpar fundos. Este conhecimento e método também faz parte da aprendizagem dos alunos.
Já fez alguma colaboração com outros artistas locais, ou até mesmo internacionais?
Sim, vou fazendo algumas. Mais recentemente, colaborei com o Projecto Terra Incógnita. Estive em residência artística com dois artistas do continente que desenvolveram um projecto de música com objectos que criei em cerâmica, foi muito interessante. Colaboro frequentemente com a MiratecArts e com o Centro de Artesanato e Design dos Açores e sou formadora certificada da Fundação Inatel. Em 2025 integrei também uma iniciativa de residência artística com a Vaga, entre outras coisas.
Já recebi também estagiários de programas europeus como o Erasmus+ e também de programas regionais como o Estagiar T ou estágios curriculares integrados em curso de nível secundário.
Na sua opinião, que papel é que a cerâmica pode desempenhar, principalmente na parte de divulgação e preservação da cultura açoriana?
Pode ter um papel importante. A cerâmica é sempre identitária dos locais. Actualmente, passou outra coisa a estar em risco: o conhecimento verdadeiro sobre a identidade das coisas e a sua venda honesta. Assistimos à banalização do fazer tradicional e encontramos em Ponta Delgada pratos pintados em Alcobaça, com a sua pintura identitária colorida, a dizerem Açores e a serem vendidos sob a convicção que foram pintados aqui. Não podem ter sido, a pintura de cá é muito diferente.
Infelizmente, a indústria também já está a reproduzi-la em azul cobalto e a dizer Açores. Foram feitas na Ásia e apresentadas em Ponta Delgada onde são vendidas sem alma como artesanato local aos desatentos. A formação também passa por educação neste sentido, reconhecer realmente o valor das coisas e aprender a reconhecer “as ratoeiras”.
Não há problema nenhum em haver pratos de Alcobaça na Região, mas não devemos dizer ,a quem vendemos, que são artesanato local e não devemos mandar escrever “Açores”. Podemos é mandar escrever “Sou de Alcobaça e vim para os Açores”. Seria muito mais bonito se os apresentássemos como parte da riqueza material do nosso país.
Quais são os maiores desafios que enfrenta actualmente?
O maior desafio é o tempo. Tempo para o trabalho e para dedicar à família. O meu marido, o Nelson, também trabalha aqui, a Maria também ajuda em muitas coisas. Isto ocupa muito tempo da nossa família, mas é bonito e interessante todo este envolvimento, funde-se tudo!
Quais são os planos que tem para o futuro?
Continuar a fazer e melhor o que tenho feito até agora. Já pensei em expandir, mas logo a seguir percebi que afinal não queria.
Que mensagem gostaria de deixar à comunidade?
Que criem mais, seja em cerâmica ou em qualquer área que permita a criatividade. A criação alimenta uma parte de nós que, se não for nutrida, fica um vazio interior, o que muitas vezes nos leva a questões menos positivas. Acho que, se criarmos algo com as nossas mãos, ficamos mais felizes.
Dada a conjuntura mundial, a minha mensagem, é que aliviem a expectativa sobre o futuro e se ocupem a criar um bocadinho por dia, no presente. E, se quiserem vir até à Matéria 47, estou aqui para criarmos juntos.
Diogo Simões Pires
