Celebra-se hoje o Dia Mundial da Rádio, que destaca a sua importância como meio acessível de informação. Sob o lema “Uma voz no Atlântico”, a Rádio Pico foi fundada a 1 de Janeiro de 1987. Ao ‘Correio dos Açores’, o jornalista da emissora, Emanuel Pereira, recorda como marco a passagem do regime pirata para o estatuto oficial. Marta Vicente, radialista, afirma que a rádio é essencial no quotidiano da população do Pico, definindo-a “não apenas como um meio de comunicação, mas também como um serviço público e espaço de conexão comunitária”. Sandra Medeiros, administrativa do estação, revela que os planos futuros são de dar continuidade a uma “programação diversificada e de qualidade”, bem como apostar na “presença digital através de podcasts, redes sociais e transmissão online”.
Correio dos Açores – Consideram importante assinalar o Dia Mundial da Rádio?
Marta Vicente (Radialista) – Sim. Assinalar o Dia Mundial da Rádio é sempre importante porque é um meio que continua a conseguir desempenhar fundamental na sociedade, mesmo com o crescimento do digital. A rádio tem uma acessibilidade única, chegando a públicos muito diversos, em zonas onde a internet é limitada ou inexistente e continua a ser um veículo de comunicação essencial em situações de emergência.
Para além disso, cria uma relação de proximidade e companhia a quem não tem outros canais de comunicação, ou não consegue permanecer “estático” à frente de uma televisão, por exemplo, contribuindo para o pluralismo cultural e informativo, dando espaço também ao entretenimento.
Assinalar esta data é uma forma de reconhecer a sua importância, principalmente nos dias de hoje, bem como o nosso trabalho enquanto profissionais.
Como nasceu a emissora e qual foi a sua missão inicial?
Sandra Medeiros (Administrativa) – Surge da iniciativa de um grupo de amigos, a 1 de Janeiro de 1987, com a sua primeira emissão de informação e entretenimento para o concelho da Madalena, ainda de forma pirata, no antigo Externato Particular da Madalena.
Permaneceu como uma estação pirata durante alguns meses, até que foi elaborada a Lei da Rádio sobre as frequências. Deste modo, abriram-se candidaturas ao concurso sobre as frequências na Madalena, ao qual a emissora concorreu, ganhou e passou a usar a frequência 100.2, tendo-se posteriormente legalizado.
No mesmo ano, em Abril, foi criada a Cooperativa de Radiodifusão do Pico. Já oficializada, mudou-se para novas instalações, cedidas pelos Bombeiros Voluntários da Madalena, com novos emissores e equipamentos. Nestas instalações, foi criado um estúdio especialmente preparado para emitir rádio, onde começaram a ser feitas as primeiras coberturas desportivas e acontecimentos sociais da ilha.
Manteve-se nestas instalações até Junho de 1995, altura em que se mudou para a Avenida Machado Serpa para os novos estúdios, cedidos pela Câmara Municipal da Madalena, onde permanece em funções até aos tempos actuais. No novo local, modernizou-se o equipamento e expandiu-se ao online em 2003, adquirindo novas frequências, a 107.7 na zona norte do concelho e a 101.9 no sul, esta última mudou recentemente para 90.2 em Maio de 2004.
Há algum momento marcante na sua história que ainda seja lembrado?
Emanuel Pereira (Jornalista) – O momento mais marcante foi, sem dúvida, a passagem da emissora de pirata a oficial e, com isso todas as mudanças que se foram dando. Desde o local de transmissão ao adquirir sede própria, à evolução dos equipamentos e às pessoas que colaboraram connosco nestes mais de 30 anos, sempre sob o lema “Uma voz no Atlântico”. É impossível mencionar apenas um momento, mas relembramos o passado sempre com muita saudade e nostalgia.
Como foi a evolução do canal de comunicação desde os primeiros anos até hoje em aspectos como tecnologia, equipa e conteúdos?
EP – A rádio evoluiu com o tempo. Antigamente para se fazer um directo ou uma reportagem era quase impensável, pois não haviam telemóveis. Os telefones eram escassos e usar cassetes e discos de vinil muitas vezes partiam em directo. Hoje em dia tudo evoluiu! Com um simples telemóvel é possível ouvir, fazer uma reportagem e até lançar a notícia do local onde a mesma acabou de acontecer.
Também na música houve uma evolução brutal. Desde o vinil, passando pelas cassetes e CDs, hoje em dia tudo é informatizado e à distância de um simples clique, capaz de gerar a programação, adicionar spots, ou simplesmente ouvir uma canção.
Também a qualidade do som melhorou. Hoje em dia fazer um directo de um local para outro é como se estivéssemos sentados junto ao microfone graças ao streaming. Anteriormente, a qualidade era totalmente diferente, ainda me lembro daquele ruído da linha do telefone, muitas vezes com longas distâncias a atravessar ruas e propriedades privadas, mas era isso ou nada.
Que papel desempenham na vida diária da ilha?
MV – Desempenha um papel relevante na vida diária da população, funcionando não apenas como um meio de comunicação, mas também como um serviço público e espaço de conexão comunitária.
Somos uma estação cooperativa, com uma programação pensada para informar e entreter pessoas de todas as idades, transmitindo notícias locais, regionais e também conteúdos de âmbito nacional e internacional, graças a parcerias com redes maiores. A nossa cobertura não se limita ao Pico, chegamos também a todas as ilhas do grupo central, Faial, São Jorge, Graciosa e Terceira, sem falar no nosso alcance digital em www.radiopico.com, ou na nossa APP própria.
No dia a dia, a estação contribui ainda para o enriquecimento cultural e entretenimento dos açorianos, através dos vários tipos de música, programas, rubricas, divulgações de eventos e temas de interesse local, além da transmissão de debates, crónicas e acontecimentos desportivos que reflectem e alimentam a identidade própria.
Resumindo, servimos como um ponto de referência para informação actualizada e orientações para a comunidade. Liga ainda a vida cultural, social e informativa da ilha à realidade diária das pessoas que cá vivem ou que se interessam pela Região.
Que tipo de conteúdos têm maior impacto na comunidade: informação, música, cultura ou desporto?
EP – Todos os conteúdos acabam por ter um impacto positivo, mas penso que as notícias e as crónicas acabam por despertar mais o interesse dos ouvintes: as notícias servem para conhecer e estar a par da actualidade e as crónicas para conhecer as diversas opiniões sobre os vários assuntos do quotidiano.
Parte da nossa emissão também se estende às vertentes religiosas e desportivas. As missas ao domingo e o desporto ao sábado à noite, são momentos em que temos a certeza de que as pessoas que, por vários motivos não conseguem estar presentes, estão reunidas a ouvir.
Nunca podemos esquecer a forte ligação entre a rádio e a comunidade, sendo uma companhia para muitas pessoas, quer em casa, no trabalho ou mesmo no carro. É a estação que dá o bom dia e tenta animar aqueles que passam por dias menos bons, existindo uma ligação diária entre o programa, o locutor e o ouvinte.
Como é que ajudam a preservar a identidade e cultura do Pico?
MV – A rádio ajuda a preservar a identidade e a cultura do Pico ao dar voz às pessoas, às tradições e às vivências locais que dificilmente teriam espaço nos grandes meios de comunicação. Através da divulgação de festas populares, da música tradicional, das histórias da ilha, da memória baleeira e das práticas ligadas ao mar e à terra, contribui para manter viva a herança cultural picoense.
Ao valorizar o falar próprio, os protagonistas locais, as associações culturais e os acontecimentos do quotidiano, reforçamos o sentimento de pertença e identidade da comunidade. Além disso, funciona como um espaço de transmissão entre gerações, onde o passado e o presente se cruzam, ajudando a que a cultura da região não se perca, mas continue a ser vivida, partilhada e actualizada no dia a dia.
Que mensagem gostariam de deixar à comunidade?
SM – Como já foi referido, continuamos a ser um espaço de proximidade e de comunidade. É a voz que informa, acompanha e dá palco a diferentes histórias e realidades. Mesmo num mundo cada vez mais digital, a rádio mantém algo muito especial: a capacidade de nos fazer sentir ligados uns aos outros. É feita por pessoas, para pessoas, e isso continua a ser a sua maior força.
Enquanto equipa, agradecemos a todos os que, como nós, fazem esta actividade com paixão e a toda a comunidade que escuta, participa e mantém as rádios vivas.
Quais são os planos para o futuro?
SM – O nosso desejo para o futuro é que continuar a apostar numa programação diversificada e de qualidade, dando espaço a novos talentos, à cultura e a conteúdos relevantes, ao mesmo tempo que promove uma maior interacção com os ouvintes e desperta o interesse de novos públicos.
Pretendemos reforçar a presença digital através de podcasts, redes sociais e transmissão online, criando conteúdos apelativos que chamem mais pessoas e aproximem especialmente os mais jovens.
Ambiciona-se também o fortalecimento de parcerias com entidades locais, escolas, associações, contribuindo para uma ligação mais activa à comunidade e incentivando a participação de mais pessoas nos projectos.
A longo prazo, esperamos continuar a inovar e a crescer de forma sustentável, mantendo a sua identidade, relevância e capacidade de adaptação a um contexto mediático em constante transformação enfrentando sempre as adversidades que vão surgindo.
Diogo Simões Pires
