A Delegação Regional dos Açores da APIR – Associação Portuguesa de Insuficientes Renais alerta para a sobrecarga do Serviço de Hemodiálise no HDES e para as falhas legislativas que penalizam os doentes deslocados. Em conversa ao ‘Correio dos Açores’, Osório Silva, Presidente da Delegação Regional, reivindica a manutenção da gestão pública da hemodiálise na Região, a introdução de novas técnicas de tratamento e a revisão dos apoios sociais, de forma a garantir que o diagnóstico de insuficiência renal não signifique a perda inevitável da actividade laboral ou da autonomia financeira dos utentes.
A APIR – Associação Portuguesa de Insuficientes Renais foi criada há mais de 40 anos, numa época em que a inexistência de hemodiálise em Portugal obrigava os doentes renais crónicos em fase terminal a deslocarem-se a Espanha para acederem ao tratamento. A sua criação reside precisamente no objectivo de reivindicar junto do Estado português a implementação deste serviço no nosso país.
Em conversa ao ‘Correio dos Açores’, Osório Silva, Presidente da Delegação Regional dos Açores da APIR, explica que a associação nasceu do esforço conjunto de médicos, doentes e familiares. Desde 1978, a instituição tem trabalhado em prol da defesa dos interesses dos insuficientes renais, tanto em Portugal Continental como na Região Autónoma. Nos Açores, uma das primeiras lutas foi a criação de unidades de hemodiálise no arquipélago, que surgiram inicialmente na ilha Terceira e, um ano mais tarde, em São Miguel.
A Delegação dos Açores da APIR foi constituída há cerca de uma década.
“Entendíamos que, embora a associação nacional colaborasse com os doentes açorianos, uma delegação regional permitiria uma maior proximidade e um conhecimento mais profundo da realidade específica dos insuficientes renais na Região”, justifica Osório Silva.
Desde então, a estrutura local tem desenvolvido um trabalho de proximidade, procurando dar resposta diária às necessidades e anseios destes doentes.
O futuro do Serviço
de Hemodiálise do HDES
Actualmente, uma das maiores preocupações da associação prende-se com a capacidade do Serviço de Hemodiálise do Hospital do Divino Espírito Santo (HDES).
“A sua capacidade esgotou-se há muito e o serviço funciona agora com base numa série de ‘remendos’. Foram transformados gabinetes em salas de hemodiálise, o que compromete a eficácia ideal do serviço”, alerta o responsável.
Osório Silva defende que é importante construir uma nova sala de hemodiálise devidamente dimensionada, que inclua todas as valências necessárias, desde gabinetes de colheitas e de consulta médica até áreas equipadas para situações de urgência, como a colocação de cateteres.
O Presidente da Delegação sublinha que a APIR sempre defendeu a manutenção do Serviço de Hemodiálise no perímetro hospitalar. Perante o recente anúncio do Presidente do Governo Regional, José Manuel Bolieiro, confirmando que a unidade permanecerá no recinto do HDES, Osório Silva nota que permanecem dúvidas essenciais. Segundo o responsável, não foi ainda esclarecido se a gestão será pública ou privada, nem se a nova estrutura terá ligação directa ao hospital ou se funcionará num edifício independente.
“Há aqui uma série de condicionantes e questões técnicas que urge esclarecer”, salienta.
Entre as dúvidas técnicas, destaca-se a capacidade de uma possível futura estação de tratamento de águas para permitir a técnica de hemodiálise de alto fluxo. Esta modalidade, já disponível a nível nacional, continua ausente nos Açores. Embora a aplicação da técnica dependa sempre de uma decisão clínica individualizada, Osório Silva sublinha que os doentes beneficiariam significativamente com esta opção. Todavia, a realidade actual na Região impossibilita os médicos de a prescreverem, uma vez que as actuais estações de tratamento não comportam os requisitos técnicos necessários para o efeito.
A realidade arquipelágica
A realidade arquipelágica dos Açores constitui uma das principais problemáticas para os doentes insuficientes renais. Actualmente, a Região dispõe de centros de hemodiálise nos três hospitais e de um núcleo de diálise no Centro de Saúde da Madalena do Pico, que serve doentes estáveis residentes naquela ilha. Questionado sobre a viabilidade de implementar centros em ilhas sem hospital, Osório Silva esclarece que tal medida não seria viável à luz da legislação vigente.
“Uma unidade de diálise exige serviços de retaguarda devido à elevada taxa de mortalidade deste tipo de doentes. É necessário garantir resposta para intercorrências clínicas, algo que apenas um hospital assegura por dispor de especialidades como a cardiologia”, explica.
É com base neste imperativo clínico que a APIR defende que a hemodiálise em São Miguel deve manter-se dentro do perímetro hospitalar. Além das vantagens para o doente, o Presidente da Delegação sublinha o factor económico, argumentando que a gestão pública é mais rentável.
“Nos Açores, temos certamente a hemodiálise mais barata da Europa. É difícil compreender que se equacione a privatização de um serviço que, inevitavelmente, sairá muito mais caro à Região”, afirma.
Ainda sobre o deslocamento de doentes que residem em ilhas sem unidade de tratamento, alguns destes utentes são forçados a abandonar as suas casas, famílias e empregos, o que gera um enorme transtorno social e emocional. Embora Osório Silva reconheça que o Governo dos Açores concede apoios financeiros importantes para a subsistência e habitação destes doentes deslocados, aponta falhas graves actual que condicionam a reabilitação e a vida activa dos mesmos. A associação nota que o actual sistema de apoios desencoraja a autonomia financeira. “Se o doente adquirir casa própria ou decidir trabalhar, perde os rendimentos de apoio do Governo. Já propusemos que exista um incentivo que permita aos doentes trabalhar sem perderem a totalidade dos apoios por estarem deslocados”, revela o dirigente. Esta proposta já foi formalmente entregue à Secretaria Regional da Saúde e da Segurança Social, aguardando-se agora a análise e debate.
Segundo Osório Silva, há casos de doentes que recusam ser transplantados para não perderem os apoios sociais.
“Muitos não têm trabalho e já não possuem habitação na ilha de origem; se fizerem o transplante, perdem os subsídios e ficam numa situação social frágil. É urgente que o Governo Regional reflicta sobre esta realidade, mesmo que se trate de um número reduzido de pessoas”, conclui, reiterando a disponibilidade da APIR para colaborar.
Obstáculos para a actividade laboral
No âmbito laboral, a APIR identifica obstáculos para os doentes que se encontram em idade activa. O início do tratamento de diálise obriga a uma mudança radical de hábitos e, segundo um inquérito realizado, é muito elevada a taxa de doentes que acabam por transitar para uma situação de invalidez.
“Esta realidade preocupa-nos, pois estes colegas perdem rendimento, o que acaba por gerar graves problemas sociais”, alerta Osório Silva.
De acordo com o Presidente da Delegação Regional, este cenário é particularmente crítico no sector privado, onde ainda existe alguma falta de sensibilização das entidades empregadoras. O desgaste físico, emocional e psicológico provocado pela diálise torna difícil a conciliação com o trabalho, levando muitos doentes a optarem pela invalidez. Embora existam exemplos positivos de empresas que enquadram o trabalhador em funções mais protegidas, estas situações são raras na Região.
“Temos de sensibilizar as entidades empregadoras e alertar as autoridades competentes para a necessidade de proteger estes profissionais”, sublinha.
Transtornos no transporte
não urgente de doentes
Outra problemática que afecta os insuficientes renais, especificamente no concelho de Ponta Delgada, é a gestão do transporte não urgente. O responsável pela APIR nos Açores explica que a Associação Humanitária dos Bombeiros de Ponta Delgada, devido à elevada requisição para diversos serviços, não consegue dar uma resposta atempada no retorno dos doentes às suas habitações. Após quatro ou cinco horas de tratamento, muitos utentes chegam a esperar mais de uma hora pela ambulância.
“Quando termina o tratamento, tudo o que um doente deseja é o conforto do seu lar para descansar”, lamenta Osório Silva.
A APIR já reuniu com a Associação Humanitária e reconhece o esforço dos bombeiros, mas defende que a solução passa por uma maior articulação entre o Hospital do Divino Espírito Santo e a Secretaria Regional da Saúde.
A APIR propõe a adopção de um modelo de serviço partilhado entre os bombeiros e empresas privadas, à semelhança do que já acontece na ilha do Faial, para garantir maior eficácia.
“Passaram-se quase quatro anos e não há sinais visíveis de melhoria. Vamos continuar a reivindicar uma solução que ponha fim a estes tempos de espera inaceitáveis”, conclui.
São cada vez mais os
doentes insuficientes renais
O número de insuficientes renais tem vindo a aumentar progressivamente, um fenómeno que Osório Silva associa directamente à prevalência de patologias como a hipertensão, a diabetes e a obesidade.
“Infelizmente, todas estas condições médicas podem levar a que os doentes acabem em hemodiálise. Existem ainda situações mais pormenorizadas relacionadas com doenças hereditárias que, ao passarem entre familiares, obrigam gerações sucessivas a este tratamento”, explica o Presidente da Delegação da APIR.
Actualmente, os doentes dispõem de três modalidades de tratamento. A primeira é a hemodiálise convencional, realizada nos hospitais e dependente de equipamento pesado. A segunda alternativa, que tem sido a solução para muitos residentes em ilhas sem hospital, é a diálise peritoneal. Neste método, o tratamento é efectuado em casa, permitindo ao doente manter a sua actividade profissional e o seu ambiente social.
“Infelizmente, nem todos os doentes têm perfil clínico para aceder a esta modalidade, mas a verdade é que muitos utentes da Graciosa, de São Jorge e de outras ilhas já fazem o tratamento em casa. O objectivo médico na Região é precisamente este: permitir que as pessoas permaneçam na sua ilha de residência. Só quando tal não é clinicamente possível é que o doente tem de se deslocar para próximo de um hospital”, esclarece o responsável.
Por fim, a terceira modalidade é o transplante renal. Após alguns anos em lista de espera, e caso a intervenção decorra com sucesso, o doente recupera o que Osório Silva descreve como uma “vida normal”. Embora exija consultas regulares e cuidados contínuos, esta opção possivelmente permite ao utente deixar de estar dependente de uma máquina.
José Henrique Andrade
