Portugal chega a 2026 num ponto de viragem que mistura avanços reais com riscos crescentes. A transição energética e a expansão das renováveis são conquistas que merecem reconhecimento, mas a urgência climática e as tecnologias devoradoras de energia (caso dos centros de dados), exigem que essas vitórias não sirvam de pretexto para complacência – ou ainda pior, que se possam cometer atentados ambientais em seu nome. O país enfrenta já impactos palpáveis — ondas de calor mais frequentes, secas prolongadas, pressão sobre recursos hídricos e um aumento do risco de incêndios florestais — e a resposta política e social tem de ser à altura dessa realidade. A primeira verdade incómoda é falar-se demasiado de objectivos e intenções, algo de que todos estamos já saturados. Metas de neutralidade carbónica e planos nacionais de energia são essenciais, mas o que conta é a tradução dessas metas em medidas que alterem trajetórias setoriais. No transporte, por exemplo, as emissões continuam a crescer em muitos cenários porque a oferta de alternativas viáveis e atraentes permanece insuficiente. Investir em veículos elétricos sem transformar a mobilidade urbana — transporte público de qualidade, ciclovias seguras, planeamento urbano que reduza deslocações — é apenas uma parte da solução. A política pública tem de priorizar a redução da necessidade de deslocação motorizada e tornar a mobilidade sustentável a opção mais prática e económica para a maioria das pessoas.
A segunda verdade é que a adaptação às novas realidades passou a ser uma exigência de sobrevivência, obrigando a esforços que, segundo peritos do WWF-World Wild life Fund, serão multiplicados por 10 até 2050. Mesmo com esforços de mitigação intensificados, os impactos já em curso exigem respostas imediatas. Gestão da água, planeamento urbano resiliente, sistemas de alerta precoce e políticas florestais orientadas para a redução do risco, são medidas que salvam vidas e património. É preciso deslocar recursos para a prevenção: limpar e gerir combustíveis florestais de forma científica, restaurar bacias hidrográficas, e proteger infraestruturas críticas. A adaptação deve ser pensada com justiça social no centro, porque os custos e riscos não são distribuídos de forma igualitária. Comunidades rurais, bairros periféricos e populações com menos recursos são as mais vulneráveis e merecem prioridade no acesso a financiamento e apoio técnico. Há também uma dimensão económica que não pode ser ignorada: a transição climática é uma **oportunidade de modernização**. Portugal pode transformar a necessidade em vantagem competitiva ao investir em inovação, formação e cadeias de valor ligadas às energias renováveis, eficiência energética e economia circular. Criar empregos verdes exige políticas ativas de reconversão profissional, incentivos à investigação aplicada e apoio às PME para que possam integrar tecnologias limpas. A transição justa não é um luxo moral; é uma condição para a sua viabilidade política e social. No plano fiscal e regulatório, é urgente acabar com a instabilidade dos preços do carbono, de modo a incentivar a descarbonização. A existência de subsídios a combustíveis fósseis e sinais contraditórios sobre o custo do carbono, minam a eficácia das políticas climáticas. Uma reforma fiscal verde, bem desenhada, pode simultaneamente reduzir emissões e gerar receitas para financiar adaptação e apoio às famílias mais afetadas pela transição. Transparência e previsibilidade são essenciais para que empresas e cidadãos possam planear investimentos de longo prazo.
A governação climática precisa de mais do que ministérios isolados, exigindo coordenação intersectorial. As soluções eficazes nas cidades litorais continentais, não são as mesmas que se devem aplicar nas ilhas ou no interior rural. Por isso, é necessário fortalecer as Autonomias Regionais insulares e as capacidades municipais, descentralizando fundos e envolvendo as comunidades na definição de prioridades. Instrumentos como contratos locais de adaptação e parcerias público‑privadas orientadas por critérios de resiliência, podem acelerar a implementação de medidas com impacto direto. Além disso, a narrativa pública importa cada vez mais, não devendo a comunicação sobre questões climático-ambientais. alternar permanentemente entre alarmismo e complacência. É preciso honestidade para reconhecer riscos, explicar custos e benefícios das opções políticas e mostrar caminhos concretos para a ação. Mobilizar a sociedade implica também oferecer alternativas tangíveis no dia a dia das pessoas — transporte terrestre mais barato e eficiente (um problema que urge resolver nos Açores, especialmente em São Miguel); habitação mais confortável, económica e disponível (um problema geral do País, sobretudo nas maiores cidades); e empregos locais com futuro, para contrariar o despovoamento jovem. Portugal tem recursos, conhecimento e personalidades políticas nacionais e internacionais, para liderar em muitos sectores uma transição justa, resiliente e acauteladora do futuro. O desafio de 2026 é transformar essa capacidade em resultados mensuráveis, o que passa por alinhar metas com instrumentos económicos, reforçar a adaptação com foco nas populações vulneráveis, e aproveitar a transição como motor de inovação e coesão social. Se falharmos na ligação da ambição à execução, as próximas décadas trarão custos muito superiores aos investimentos que hoje hesitamos fazer. Porém, havendo coragem para agir com justiça e pragmatismo, poderemos não só reduzir riscos, como criar um modelo de desenvolvimento resiliente, próspero e promissor.
Por: Vasco Garcia