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Que futuro da ilha de São Miguel na Autonomia dos Açores?

No passado dia 9, o Presidente do Governo Regional afirmou que o Executivo “defende uma resposta hospitalar ajustada às necessidades de São Miguel”. À primeira vista, a frase parece inofensiva. Mas não é. O que nela está implícito é uma mudança política profunda e potencialmente desestruturante para o equilíbrio regional dos Açores.
O anúncio de que o Hospital do Divino Espírito Santo (HDES) será remodelado exclusivamente para servir a ilha de São Miguel, representa uma ruptura clara com o modelo que, na prática, tem vigorado até hoje. O HDES tem desempenhado funções de Hospital Central dos Açores, assegurando uma resposta que ultrapassa a lógica meramente da ilha de São Miguel. Reduzi-lo ao horizonte de uma só ilha não é um detalhe técnico, é uma decisão política com consequências estruturais.
Estamos perante uma inversão de paradigma: abandona-se a visão Açores e instala-se uma lógica fragmentada, ilha a ilha. E quando se desvaloriza a principal infra-estrutura hospitalar da Região, não estamos perante um episódio isolado, estamos perante uma orientação estratégica estrutural, com enormes consequências futuras.
Essa orientação ajuda a explicar outras decisões difíceis de aceitar. A transferência da principal amarração do anel de cabos submarinos CAM (continente – Açores -Madeira) de São Miguel para a ilha Terceira. As negociações falhadas com as companhias áreas de baixo custo, cujos impactos socioeconómicos recaem sobretudo sobre a ilha de São Miguel. A sucessão de acontecimentos é demasiado consistente para ser coincidência.
O que está a acontecer é claro: a ilha de São Miguel está a deixar de ser encarada como pilar estruturante do sistema regional para passar a ser tratada como mais uma ilha entre nove, mas sem que isso represente um reforço positivo do equilíbrio regional. Pelo contrário, trata-se de uma redistribuição política de peso e influência feita sem debate público e sem mandato eleitoral explícito, em que todas as ilhas ficam efectivamente a perder.
Mais grave ainda: esta mudança ocorre precisamente no ano em que se celebram os 50 anos da Autonomia Regional. Meio século depois, assiste-se a uma erosão silenciosa do espírito autonómico que assentava na coesão, na complementaridade entre ilhas e numa visão estratégica integrada do arquipélago.
Uma alteração desta magnitude não foi sufragada nas urnas. Nenhum programa eleitoral anunciou que a ilha de São Miguel deixaria de ser pensada numa lógica regional. Nenhum debate público preparou os Açorianos para esta redefinição estrutural.
Perante isto, não vale a pena rodeios.
Ou o Governo Regional esclarece inequivocamente que não pretende menorizar o papel da ilha de São Miguel no contexto regional e corrige o rumo; ou assume politicamente esta estratégia e devolve a palavra aos eleitores; ou então abre-se inevitavelmente a discussão sobre o próprio modelo autonómico e o lugar da ilha São Miguel dentro dele.
O que não é aceitável é que uma mudança desta dimensão avance de forma indirecta, diluída em declarações técnicas e decisões administrativas dissimuladas.
A Autonomia exige visão, responsabilidade e legitimidade democrática. Exige clareza estratégica e respeito pelo equilíbrio entre as populações das ilhas.
Porque quando se começa por reduzir as principais infra-estruturas da ilha de São Miguel ao horizonte da ilha, pode acabar-se por reduzir a própria Autonomia ao horizonte de uma conveniência política, com o fim último da perpetuação no poder. A Autonomia não foi conquistada para ser administrada à peça. Foi construída para unir, não para dividir, caso contrário esta Autonomia dos Açores fica efectivamente em causa.
Por: João Quental Mota Vieira

Ponta Delgada, 16 de Fevereiro 2026

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