Criado por Dryelle Andrade, o “Brasa lab” afirma-se como um projecto cultural e educativo que utiliza oficinas de fotografia, colagem e criação audiovisual para estreitar laços comunitários. Com algumas iniciativas efectuadas junto de jovens e escolas da ilha de São Miguel, o “laboratório artístico” ambiciona agora estender a sua acção à população sénior, com o intuito de mitigar o isolamento social nesta faixa etária. Na visão da sua mentora, a prática artística deve assumir-se como uma ferramenta de cidadania activa, capaz de desconstruir barreiras sociais e de renovar o olhar sobre o quotidiano.
Correio dos Açores – Qual é o seu percurso pessoal até aos dias de hoje?
Dryelle Andrade (produtora cultural e professora) – Sou natural de Recife, no Brasil, onde fiz a minha formação académica em História. Em São Miguel, estou a terminar o mestrado em Políticas Sociais e Dinâmicas Regionais, com ênfase no envelhecimento e na família. No Brasil, trabalhava também com produção cultural, especialmente na área do audiovisual, que é a minha paixão.
Gosto muito de unir investigação e educação à arte, e senti que, nos Açores, tive essa oportunidade. Tive bastante apoio, tanto da Direcção Regional da Juventude como de amigos e parceiros, o que fez com que a ideia de comunidade se tornasse muito real para mim. Senti que os projectos foram bem acolhidos e que, apesar da limitação geográfica da ilha e da existência de alguns projectos artísticos, falta ainda um maior número de iniciativas educativas e participativas que realmente capacitem as pessoas.
Essa é a minha paixão: fazer com que a arte, a educação e o conhecimento sejam processos de aprendizagem e de consciencialização, porque acredito que isso nos torna seres humanos melhores. E, pela minha experiência, vindo do Brasil para cá, senti que as pessoas são um pouco mais fechadas à cultura. Com workshops e trabalhos mais comunitários, percebi que as pessoas se envolvem, libertam-se e quebram barreiras de interacção que notei bastante presentes. É isso que gosto de fazer, e estou feliz por estar a ter essas oportunidades por cá. Espero que tudo continue a fluir e a correr bem.
Como surgiu o projecto “Brasa lab”?
O Brasa lab surgiu para ser o espaço onde reúno os meus projectos. Sempre quis separar o meu perfil pessoal do meu perfil artístico e profissional.
A partir daí, quis criar um laboratório livre e experimental, onde pudesse partilhar, criar e experimentar projectos meus e colaborativos com amigos.
Pensei muito no nome: sendo do Brasil, falamos muito em “terras brasais”, e na Região existe também essa ligação à terra vulcânica e ao basalto. Assim nasceu o Brasa lab, como uma união entre os Açores e a minha vertente de nacionalidade e ancestralidade brasileira.
Quais são as vertentes artísticas que desenvolve?
Ligo muito a educação à arte. Desenvolvi um projecto que vai voltar a acontecer este ano, chamado “Territórios Habitados e Imaginados”.
Vai decorrer através da PDL 26 (Ponta Delgada 2026 – Capital Portuguesa da Cultura) e consiste num projecto de fotografia com telemóvel para escolas e para o público em geral, onde ensino a fotografar, editar e usar aplicações acessíveis a todos. A ideia é reimaginar o quotidiano e olhar para os lugares que nos rodeiam. Depois das saídas fotográficas, fiz um workshop de colagem em parceria com o João Amado, onde os participantes utilizaram as suas fotos para criar composições que revelam novas formas de ver espaços que muitas vezes passam despercebidos.
Outro projecto foi o “O Monstro do Lixo”, criado com a minha amiga Bruna, também brasileira, sempre com esta ligação entre educação e arte. Desenvolvemos workshops sobre a relação entre o lixo e a ilha, ministrados por nós, com participação do Valério. Entrei também em contacto com o professor Carlos (eu dava aulas nas Capelas quando o conheci) que tinha feito uma peça de teatro com sonoplastia criada a partir de materiais descartados. Convidei-o para trabalharmos com os alunos da Escola Básica e Secundária Armando Côrtes-Rodrigues, em Vila Franca, do Campo enquanto o Valério (músico) ficou responsável pela parte do som. A partir destas metodologias educativas e participativas, criámos até uma curta-metragem de animação com um realizador.
Podemos dizer que este projecto pretende aliar a educação à prática artística dos mais novos?
Sim, dos mais novos e também dos mais velhos. Estou a terminar a minha dissertação de mestrado sobre envelhecimento e gosto muito de trabalhar com esse público.
Quero desenvolver novos caminhos para trabalhar com a população mais envelhecida, que muitas vezes é marginalizada, mas tem experiências muito ricas. É importante reintegrar socialmente estas pessoas. O meu estudo aborda precisamente a solidão dos idosos em Ponta Delgada, e a vertente artística tem um papel fundamental para combater essa solidão neste grupo geracional.
Quais são as metas para este ano?
Este ano vou replicar o “Territórios Habitados e Imaginados”, que começou com apoio do PARES – Programa de Apoio à Actividade Artística nos Açores e agora conta com o apoio da PDL26. Quero criar novos projectos para outros públicos e garantir a continuidade dos workshops. Agora terei uma parceria com a Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, e quero que o projecto alcance ainda mais pessoas do que na primeira edição.
Percebi que, após os workshops, muitos participantes continuaram a usar as aplicações que lhes ensinei, criando novas identidades visuais através da fotografia. Quero que isso continue e que mais pessoas tenham acesso a essas ferramentas e a novos olhares.
Quanto ao “O Monstro do Lixo”, queremos levá-lo a várias escolas da ilha, exibindo o projecto e promovendo a consciencialização sobre o lixo através de algo criado pelas próprias crianças. Os caminhos são esses: exibição, consciencialização e continuidade.
José Henrique Andrade
