Correio dos Açores – Como tem sido o seu percurso até ao dia de hoje?
Henrique Melo (treinador principal da selecção dos Açores de Andebol) – O meu percurso na modalidade começou aos 5 anos quando comecei a praticar Andebol na ilha de Santa Maria no CD Marienses, onde joguei consecutivamente até aos 18 anos quando fui prosseguir o meu percurso académico em Lisboa, mantendo aí também a minha actividade como atleta no campeonato Nacional de Juniores (Benfica e Belenenses) e de seguida na primeira divisão nacional de Seniores (Belenenses). Quando concluí o meu mestrado em Educação Física e Desporto, já também com o curso grau III de treinador de Andebol, regressei à ilha de Santa Maria para viver e conciliei por alguns anos a atividade de atleta e treinador dos escalões de formação no CD Marienses, e a partir de 2019 apenas como treinador até então.
Como se sentiu ao saber que seria, de novo, selecçionador da selecção dos Açores de Andebol?
Já tinha tido a oportunidade de ser selecionador dos Açores em 2018, com uma curta preparação para os jogos das ilhas, que se realizaram na Sicília, mas apesar de curto foi um projecto muito enriquecedor pessoal e profissionalmente. Neste momento, numa altura que fazia uma pausa na atividade de treinador da modalidade ao nível de clubes, sinceramente não contava estar em actividade neste momento, contudo pelo papel que a modalidade tem tido na minha vida e em diversas decisões que tenho vindo a tomar, não faria qualquer sentido, para mim, rejeitar este convite, por forma a tentar dar um contributo à modalidade a nível Regional.
Que efeitos teve o hiato de um ano nos atletas?
Obviamente este é um projeto enriquecedor para qualquer modalidade, algo que pode motivar os atletas regionais a ambicionarem algo mais, a trabalharem diariamente para mais um objectivo, o objectivo de representar a Região Autónoma dos Açores numa competição Nacional ou Internacional. O interregno de um ano não se pode considerar positivo, há que continuar a trabalhar para que o projecto se mantenha coeso, por forma a que as associações Regionais possam ter uma base de trabalho e planeamento mais forte e por consequência projecto mais fortes, contribuindo assim para um melhor desenvolvimento desportivos dos seus praticantes.
Não consigo ter dados concretos que o interregno tenha afectado de forma positiva ou negativa o projeto, o que posso dar é outra perspectiva, na minha óptica este deve ser um projeto global, que todos os treinadores, atletas e dirigentes do Andebol Regional devem ter orgulho e contribuir para o sucesso do mesmo. Somos poucos, precisamos do empenho de todos e precisamos que exista orgulho em representar a Região.
Até onde acha que a selecção pode chegar?
Penso que o melhor resultado que podemos ambicionar é providenciar a todos os atletas que terão contacto com o projeto, uma experiência diferente, com momentos de treinos e competição diferentes, em modelo intensivo, preparar da melhor forma a selecção para uma competição que de certeza terá oponentes com outros argumentos, e que no final do projecto todos os atletas tenham saído beneficiados, seja ao nível desportivo, seja ao nível pessoal, com mais vontade de continuar a ser praticantes da modalidade. Obviamente, e faz parte do meu perfil, que gostaria de ser competitivo em todos os jogos que façamos, mas, por outro lado, conheço bem a nossa realidade, o nível que apresentamos, e o nível que iremos defrontar.
A formação carece de atletas? Como poderemos trazer mais jovens para a modalidade?
Começou a pergunta com “A formação” e essa tem sido uma premissa que para mim é a essência de qualquer projecto desportivo. Sem formação não existem projectos desportivos de qualidade. Os clubes têm um papel fundamental na organização, planeamento e oferta desportiva, se não formos capazes de oferecer algo motivador que enriqueça os jovens açorianos, a verdade é que existe muita oferta de diversas modalidades, em ilhas com pouca população para tamanha oferta desportiva. Há que criar projectos dinâmicos e com continuidade, aumentar o número de treinadores na Região, e criar condições para os projectos não sejam anuais, mas pensados a médio longo prazo, essencialmente nos clubes onde existe participação Nacional a nível sénior.
Frederico Figueiredo
“Não competimos por falta de apoio”
Paulo Resendes, Presidente da União das Associações de Andebol dos Açores, explicou que o “hiato foi relativo ao não apoio da Direcção Regional a eventos deste género em todas as modalidades, ou seja, foi uma opção do Governo não apoiar o chamado projecto especial. E não apoiando, a nossa selecção, e outras mais, perderam o apoio que tinham”.
Questionado sobre que justificação foi apresentada, Paulo Resendes afirmou que “a justificação era que as razões financeiras não possibilitavam o apoio a este tipo de projectos. Argumentamos durante várias vezes, ao longo do ano, e sempre disseram que não tinham capacidade financeira para avançar. Insistimos durante todo o ano de 2025 para a importância do projecto, e em Novembro passado tivemos a possibilidade de apresentar, novamente, o projecto. Aparentemente o rumo mudou no apoio ao desporto, agora estão a piorar mais a formação e deduzo que seja dai que tenha vindo esta opção de voltar a apoiar”.
O Presidente da União das Associações de Andebol dos Açores disse ainda que “neste momento temos cerca de 8 clubes, em quatro ilhas, Santa Maria, São Miguel, Terceira e Faial. Todos os escalões têm a formação desde os sub-12 aos sub-18, e neste momento não há escalão de seniores. Abrir escalão senior em algumas equipas era uma pretensão nossa, e havia esta possibilidade, mas devido a um contratempo não temos equipas seniores a nível regional, já que o Sporting da Horta compete na primeira divisão e os Marienses na segunda”.
“Os números mantem-se consistentes, na casa dos 500 atletas, e, o facto de não termos tido selecção dos Açores decepcionou muitos jovens. Haviam muitos jovens que estavam na calha para entrar e agora deixaram de estar neste lote. Nas ilhas mais pequenas, é difícil motivar os jovens para praticarem a modalidade. Já fizemos de tudo um pouco, mas vamos conseguindo manter os números estáveis, ano após ano”, finalizou.