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“A Costela de Lilith é um projecto de teatro comunitário que coloca as mulheres no centro da criação artística”, afirma Liliana Janeiro, encenadora e directora artística da iniciativa

“A Costela de Lilith” é um projecto de teatro comunitário que coloca as mulheres no centro da criação artística, transformando memórias, corpo e histórias pessoais e colectivas em narrativas. Ao ‘Correio dos Açores’, Liliana Janeiro, encenadora e directora artística do projecto, revelou que a ideia surgiu durante a elaboração da sua tese de mestrado. Segundo a entrevistada a missão central é de “trabalhar saúde mental, identidade e dignidade feminina através da arte”. A iniciativa regressa agora a São Jorge, de modo a aprofundar o trabalho artístico e comunitário. Actualmente está em produção uma longa-metragem documental que dá continuidade ao universo iniciado com “Domingo a Domingo – As Mulheres do Espírito Santo da Calheta de São Jorge”.
Correio dos Açores – Em que consiste a iniciativa “A Costela de Lilith”?
Liliana Janeiro (Encenadora e Directora Artística) – “A Costela de Lilith” é um projecto de teatro comunitário que coloca as mulheres no centro da criação artística, não como personagens, mas como autoras da própria narrativa.
Trabalhamos a partir das suas memórias, do corpo, da história pessoal e colectiva. O palco torna-se espaço de escuta, reconhecimento e transformação.
O nome inspira-se no mito de Lilith, a mulher criada a partir da mesma matéria que Adão, que recusou submeter-se e, por isso, foi transformada numa figura demonizada. Ao longo da história, muitas mulheres que ousaram ocupar o seu espaço também foram silenciadas.
Esta acção nasce dessa inversão simbólica: transformar o silêncio em voz.
“A Costela da Lilith” iniciou-se nas Flores com apoio internacional do Iberescena e regressa agora a São Jorge com o mesmo apoio, consolidando um percurso que já atravessa ilhas e gerações. O projecto é também apoiado administrativamente pela 9’Circos – Associação de Artes Circenses dos Açores.
A equipa artística também é internacional com pessoas como a Patrícia Soso do Brasil, Ana Cózar de Espanha, Rocio Matosas do Uruguai, Kukka Harvilahti da Finlândia, por exemplo. Além de todo o pessoal de produção local nas Flores, como a Camille Farge e a Isabel Tenente, e em São Jorge como a Sandra Silva e a Joana Lourenço. Ainda existe o grupo de comunicação: Janete Chaves e Ana Oliveira.
O percurso de “A Costela de Lilith” demonstra que a criação artística comunitária pode ser um instrumento estruturante de desenvolvimento regional. Com impacto comprovado na saúde mental, na valorização do património imaterial e na coesão social, ultrapassando a dimensão artística e afirmando-se como prática cultural com efeito público.
O reconhecimento internacional através do Iberescena reforça a sua qualidade e relevância. A Região Autónoma dos Açores tem hoje a oportunidade de integrar iniciativas desta natureza numa estratégia cultural estruturante, com financiamento contínuo e estável que permita consolidar redes inter-ilhas, aprofundar processos e garantir continuidade às equipas artísticas. A cultura comunitária não é despesa, é investimento estratégico no equilíbrio social do território.

Qual é a missão central?
A missão é clara: trabalhar saúde mental, identidade e dignidade feminina através da arte.
Queremos combater o isolamento, fortalecer auto-estima, valorizar o património feminino e questionar desigualdades estruturais que ainda moldam a vida das mulheres locais e das imigrantes.
Tal como Lilith reclamou igualdade, estas senhoras são convidadas a ocupar o seu lugar com consciências e presença.
Porque a cultura comunitária não é um evento. É um processo.

Como surgiu a ideia?
A ideia surgiu durante a minha tese de mestrado em Teatro e Comunidade. Enquanto investigava a relação entre o corpo feminino, memória e auto-estima, deparei-me com dados alarmantes sobre a saúde mental das participantes, sobrecarga emocional e desigualdade estrutural. Percebi que não bastava escrever sobre isso, era preciso criar espaço.
Nas primeiras oficinas compreendi algo essencial: quando uma senhora conta a sua história e é verdadeiramente escutada, algo se reorganiza dentro dela.
A tese terminou. O projecto continuou. Porque a transformação não acontece em candidatura, mas sim em comunidade.

Que impacto tem sido observado?
O impacto é visível e profundamente humano. Já tivemos protagonistas com 80 anos em palco. E ouvimos da comunidade: “Nunca pensei que a minha mãe pudesse estar ali a fazer teatro”. Esse momento é mais do que artístico, é uma reparação simbólica.
No ano passado, expandiu-se ao audiovisual com a curta-metragem documental “Domingo a Domingo – As Mulheres do Espírito Santo da Calheta de São Jorge”. Ouvimos então: “Muito obrigada por fazer um documentário sobre mulheres e a nossa força”.
Percebemos que não estávamos apenas a criar arte. Estávamos a registar memória. Não se constrói comunidade a prazo.

Como seleccionam as participantes?
O projecto é aberto a todas as senhoras. Não procuramos actrizes, mas sim histórias.
Trabalhamos a partir de grupos onde já existe um tecido feminino activo, como o Serviço de Desenvolvimento Agrário das Flores, integrantes das bandas filarmónicas, grupos de coro e outras estruturas comunitárias.
A partir daí, a iniciativa cresce organicamente. Uma filha traz a mãe, uma neta traz a avó. É um movimento intergeracional.

Quais são os maiores desafios?
O maior obstáculo é a continuidade. Neste momento, a sustentabilidade depende de candidaturas sucessivas. Estamos constantemente a concorrer para garantir que isto continua activo. Mas se o impacto é contínuo, o apoio também deveria ser.
Projectos como este poderiam integrar uma estratégia cultural regional estruturada, com financiamento base anual que permitisse desenvolver o trabalho em todas as ilhas de forma estável e planeada.
A cultura comunitária não pode viver apenas de concursos. Precisa de prosseguir. Não podemos tratar processos humanos como algo pontual. Há ainda um desafio estrutural mais profundo: as senhoras continuam sobrecarregadas. Trabalham, cuidam, sustentam e, raramente, se colocam no centro.
Criamos espaço, mas para que ele exista, é preciso estabilidade.

A comunidade tem apoiado?
Sim, e de forma muito concreta. Para além do apoio do Iberescena, da Direcção Regional da Cultura, da Direcção Regional das Comunidades, da Direcção Regional da Juventude e a Direcção Regional da Igualdade, em São Jorge e nas Flores, a própria sociedade doa financeiramente para que continuemos. Estamos, neste momento, a fazer uma campanha de recolha de orçamento para realizarmos a longa metragem documental.
Este gesto um valor imenso. Quando alguém contribui e diz “Nunca pensei ver a minha mãe ali”, percebemos que a acção deixou de ser apenas artística, mas sim da comunidade.

Existe alguma influência directa que vos marque?
Sim. O teatro comunitário e o mito de Lilith são a base. Mas o território também molda. As ilhas têm uma força feminina silenciosa, muitas vezes invisível.
O trabalho com as Mulheres do Espírito Santo revelou como a tradição e a resistência coexistem num lugar onde as senhoras sempre estiveram, mas nem sempre foram reconhecidas.

Como é que a iniciativa contribui para o aumento da auto-estima?
Quando uma integrante sobe ao palco, ou se vê num ecrã, e percebe que a sua história tem valor, algo muda. O palco deixa de ser exposição, passa a ser reconhecimento. É uma inversão simbólica do mito: em vez de serem afastadas, são vistas.

Quais os planos que têm para o futuro?
Regressamos agora a São Jorge com o apoio da Iberescena, aprofundado o trabalho artístico e comunitário. Estamos a preparar uma longa-metragem documental que dará continuidade ao universo iniciado com “Domingo a Domingo”.
E queremos levar “A Costela de Lilith” a todas as ilhas da Região Autónoma dos Açores, criando uma rede insular de criadoras. Porque não se constrói comunidade a prazo.

Que mensagem gostaria de deixar?
Às senhoras que sentem que o seu tempo já passou, ele não passou. Lilith não foi um erro. Foi uma escolha. E cada mulher tem o direito de escolher a sua própria narrativa.
Diogo Simões Pires

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