Há uma conversa que tenho muitas vezes com tutores exaustos. Chegam até mim com um misto de frustração e vergonha, porque o problema não é fácil de dizer em voz alta. O cão destrói tudo quando fica sozinho. Ou come objetos que não são comida. Ou então, e aqui a voz baixa quase sempre, come aquilo que ele próprio acabou de deixar no jardim.
São três realidades diferentes. Mas na maior parte dos casos que acompanho, andam juntas. Perceber o que as une, e o que as distingue, é o primeiro passo para resolver qualquer uma delas.
Três Comportamentos,
Uma Raiz Comum
A pica é a ingestão sistemática de materiais não alimentares. Pedras, tecidos, plástico, terra. Não estamos a falar de mastigação ocasional. Estamos a falar de um padrão que se repete e que pode ter consequências gravíssimas: obstruções intestinais, perfurações, emergências que nenhum tutor quer viver.
A coprofagia é o comportamento em que o cão consome os seus próprios dejetos, ou os de outros animais. Provoca desconforto em quase todos os tutores que me contactam. Mas do ponto de vista comportamental, é um primo chegado da pica. O mecanismo é semelhante. As causas, muitas vezes, também.
A ansiedade de separação é o estado emocional que está frequentemente por baixo de ambos. É o stress que o cão sente quando fica sozinho, quando a pessoa a quem está vinculado desaparece e ele não tem ferramentas para gerir essa ausência. Vale sempre uma breve conversa com o veterinário para descartar causas físicas antes de trabalharmos o comportamento.
Como Distinguir o
Que Está a Acontecer
Como percebe o tutor se está perante pica, coprofagia, ansiedade de separação, ou uma combinação dos três? A resposta está em observar o contexto. Não apenas o comportamento em si, mas quando acontece, onde acontece, e o que aconteceu antes.
Se o comportamento acontece principalmente quando o tutor está ausente, a ansiedade de separação é a principal suspeita. O cão que destrói e ingere objetos quando fica sozinho, que late compulsivamente, que risca portas, que não consegue relaxar antes da saída do tutor, está a dizer-nos que o problema central é a separação. A pica, neste caso, é uma consequência. É a forma que ele encontrou de descarregar uma tensão que não consegue gerir de outra maneira.
Se o comportamento acontece mesmo com o tutor presente, o cenário muda. Estamos mais provavelmente perante tédio, falta de estimulação, ou um padrão compulsivo já instalado. O cão que, com o tutor na sala ao lado, vai ao jardim ingerir o que não deve, não está a reagir à solidão. Está a revelar que o seu nível de estimulação está muito abaixo do que necessita.
A coprofagia tem ainda uma distinção importante. Pode surgir por imitação, por curiosidade exploratória mal gerida, ou porque o cão aprendeu que este comportamento provoca reação imediata do tutor. Para um cão ansioso ou carente de atenção, qualquer reação é sempre melhor do que o silêncio.
Os Sinais Que Devemos
Aprender a Ler
Começo sempre por ensinar os tutores a observar antes de agir. Os comportamentos têm sinais. E esses sinais, quando aprendemos a reconhecê-los, permitem intervir antes que o problema aconteça.
Na ansiedade de separação, os sinais aparecem antes da saída. O cão que fica agitado quando vê o tutor calçar os sapatos. Que segue de divisão em divisão sem conseguir pousar. Que late assim que a porta fecha. Que quando o tutor regressa está num estado de excitação desproporcionado, ou visivelmente esgotado.
Na pica, os sinais são a fixação em determinados materiais. O olhar intenso, a aproximação lenta, o cheirar repetido antes de ingerir. Em casos mais instalados, a ingestão pode ser quase automática, sem hesitação visível.
Na coprofagia, o sinal mais comum é a aproximação imediata aos dejetos logo após os produzir, ou a procura ativa deles durante os passeios. Há cães que o fazem discretamente, outros de forma completamente aberta, sem qualquer sinal de que percebem o desconforto que isso provoca em quem os acompanha.
Como Trabalho Estes Casos
Raramente estamos a falar de apenas um problema. Por isso, a minha abordagem é sempre integrada. O primeiro passo é perceber qual é o motor principal. É a ansiedade de separação que está a alimentar a pica? É o tédio que está a levar à coprofagia? É uma compulsão já tão instalada que não precisa de gatilho? A resposta define tudo o que vem a seguir.
Quando a ansiedade de separação é o núcleo, trabalho a relação do cão com a ausência do tutor de forma gradual. Ensinamos o cão a associar a saída a algo neutro ou positivo. Construímos rotinas que transmitem previsibilidade. Um cão que sabe o que vai acontecer está muito menos vulnerável à angústia da separação.
Quando a pica ou a coprofagia existem independentemente da separação, o trabalho centra-se no enriquecimento e no autocontrolo. Desafios mentais diários, farejamento, puzzles alimentares, sessões de treino regulares. E ensinar o cão a inibir o impulso: o comando de larga, a substituição por algo adequado, a recompensa imediata quando escolhe bem.
Trabalho sempre com o tutor lado a lado. Muitas vezes, sem se aperceberem, os tutores estão a alimentar o problema com as suas reações. A correria para tirar o objeto da boca, o grito, a atenção excessiva após o comportamento, tudo isso confirma ao cão que o que fez funcionou. E o que funciona, repete-se.
O Que Muda Quando
Percebemos o Porquê
Há uma diferença enorme entre tratar um sintoma e resolver uma causa. O que transforma o comportamento de forma duradoura é perceber o que está por baixo dele e trabalhar isso com consistência e respeito pelo animal.
Quando os tutores chegam a este entendimento, algo muda também neles. Deixam de ver o cão como um problema e começam a vê-lo como um ser que comunica da única forma que sabe. Essa mudança de perspetiva é, quase sempre, o verdadeiro início da solução.
Se reconheces o teu cão neste artigo, a primeira coisa que quero que saibas é esta: não estás sozinho. E isto tem caminho.
Por: Paulo Revelo