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Muito barulho na pista, pouca clareza em Lisboa

A Base das Lajes voltou a estar na boca do mundo. Nas últimas três semanas, as movimentações de aviões militares têm sido quase diárias e, como seria de esperar, rapidamente surgiram associações ao mais recente ataque ao Irão numa operação conjunta entre Israel e os Estados Unidos. De repente, aquilo que para nós faz parte da paisagem há décadas transformou-se em assunto de abertura de telejornais no continente.
É curioso observar o fenómeno. Canais de notícias, jornais nacionais, comentadores de serviço permanente. Até jornalistas e repórteres de imagem enviados para a Terceira para ficarem de plantão junto à pista, câmaras apontadas, à espera de captar aterragens, descolagens e qualquer movimento de pessoal junto aos cargueiros de reabastecimento. E claro, a inevitável especulação. Porque se há coisa que vende é a especulação.
Nós, terceirenses, já não somos ingénuos. Ao longo dos anos aprendemos que, nestas alturas, o que tem de ser feito é feito com rigor e silêncio. E pergunto, não é assim que deve ser? Estamos a falar de uma base militar. Estamos a falar de operações sensíveis. E estamos a falar dos Estados Unidos como interveniente direto. O que se espera, exatamente? Uma conferência de imprensa a anunciar cada avião que levanta voo?
O que realmente importa sublinhar é outra coisa. A importância estratégica de uma base militar no meio do Atlântico torna-se particularmente evidente em cenários de tensão internacional.
A geografia não é ideologia. A geografia é realidade. E a realidade é que os Açores ocupam uma posição única no tabuleiro atlântico.
O que me irrita, confesso, é ouvir certos pseudointelectuais acusarem o Estado Português de ser cúmplice de eventuais ataques terroristas por permitir a utilização da Base das Lajes. É uma afirmação pesada, lançada com uma leveza desconcertante. Como se a política internacional fosse um jogo de indignações de café.
Convém recordar o básico. A Base das Lajes é uma base militar portuguesa que, ao abrigo de um acordo antigo com os Estados Unidos, também é utilizada por forças norte americanas. O acordo pode ser antigo. Pode até estar desajustado à realidade atual. E é legítimo discutir se as contrapartidas são suficientes ou se os Açores estão a beneficiar como deveriam desta posição geoestratégica. Na minha opinião, não estão.
Mas há que ter noção das proporções. Alguns dizem que os EUA têm obrigação de avisar Portugal quando e como utilizam a base. Muito bem. E depois? Que poder real tem Portugal para impor condições rígidas à maior potência militar do mundo? E mais, que margem tem para exigir contrapartidas muito superiores às que existem? A diplomacia não se faz aos gritos nem com frases inflamadas.
Depois há a contradição deliciosa. Quando a base está menos ativa, surgem vozes a exigir maior utilização. Que se promovam treinos militares. Que a Navy americana utilize mais o porto. Que haja mais movimento, mais impacto económico, mais centralidade estratégica. Mas quando a atividade aumenta, como agora, instala-se o dramatismo. Estamos a compactuar. Estamos envolvidos. Estamos comprometidos. Decidam-se.
O que falta, isso sim, é coragem política. Coragem dos governantes da República para assumirem uma posição clara sobre a Base das Lajes. Para negociarem de forma firme. Para exigirem mais investimento direto nos Açores. Mais compensações. Mais benefícios concretos para os açorianos. Porque a sensação que fica, demasiadas vezes, é que a localização estratégica é nossa, mas as vantagens acabam por aterrar maioritariamente no continente.
A Base das Lajes não é um símbolo abstrato. É uma realidade geográfica, histórica e estratégica. Podemos discuti-la. Devemos atualizá-la. Podemos e devemos exigir mais por ela. O que não podemos é tratá-la ora como tábua de salvação económica, ora como pecado original da política externa portuguesa, conforme o vento mediático da semana.
No meio do Atlântico não estamos por acaso. E talvez fosse tempo de falar da Base das Lajes com menos teatro e mais maturidade.
Por: Carlos Pinheiro

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