A guerra começa, muitas vezes, antes do primeiro tiro. Principia na linguagem com que o poder político define a ameaça, anuncia a resposta e prepara a opinião pública para o uso da força. Por isso, a forma como o Presidente Trump se exprime em matéria militar não é um mero traço de estilo. É um instrumento de comando político.
Trump é o comandante supremo das Forças Armadas dos EUA, o que significa que é o chefe político com maior autoridade militar. Esta clarificação importa, porque a sua palavra deve ser lida como sinal estratégico.
Nestas circunstâncias, quando, perante crises internacionais, nas suas intervenções públicas se refere ao emprego da força militar e à produção de consequências graves, deveria gerar-se um efeito de dissuasão em que os adversários reconhecessem determinação, os aliados identificassem vontade de agir e a opinião pública nos EUA visse projetada uma imagem de firmeza.
O problema é que isso não está a acontecer na crise com o Irão, porque a linguagem usada pelo Presidente Trump deixou de ser um sinal político e passou a ocupar o lugar da própria estratégia militar. Para isso contribuem quatro erros muito relevantes, que estão a criar enormes dificuldades aos EUA.
O primeiro, e mais grave, é a personalização do comando. A autoridade de Trump como comandante supremo surge como prolongamento da sua vontade pessoal, quando deveria afirmar-se como exercício de uma responsabilidade constitucional. Para as Forças Armadas dos EUA, isto é decisivo, porque, nas democracias, os militares servem o Estado, obedecem à lei e cumprem missões; não reagem a impulsos pessoais de ninguém.
O segundo erro é a redução da prudência estratégica. Como temos verificado, a retórica maximalista do Presidente Trump sugere que toda a crise admite solução rápida e conclusiva. Mas, como bem sabemos, entre o pronunciamento público do Presidente e a ação dos militares no terreno existem planeamento, regras de empenhamento, protecção de civis, coordenação com aliados e controlo da escalada.
O terceiro erro é a desvalorização do sacrifício humano. A guerra, além de eficácia, é responsabilidade. Há mortos, feridos, deslocados e, sempre, muita violência e destruição. Por isso, quando Trump fala do uso da força militar sem traduzir esse peso moral, enfraquece a legitimidade ética do seu comando supremo.
O quarto erro é o desgaste da confiança estratégica. A insensatez da linguagem do Presidente Trump, na maior parte das vezes, inquieta os aliados, solidifica os iranianos e dificulta a coordenação multinacional.
O ponto central da liderança militar do Presidente dos EUA não está em falar com firmeza, porque um comandante supremo deve fazê-lo. A questão preocupante é que, como a firmeza de Trump não vem acompanhada de responsabilidade, contenção, respeito e lucidez, aquilo que afirma publicamente perde credibilidade.
Na liderança militar, a autoridade mais séria não é a que mais ameaça, mas a que melhor compreende o preço da ameaça.
Por: António Silva Ribeiro